terça-feira, 20 de agosto de 2013

Aida

Fiquei em dúvida se deveria comentar algo sobre a apresentação de Aida, no Teatro Municipal. Afinal, eu não registro aqui os shows ou filmes que assisto. Mas por mais importante que seja a música em uma ópera, ela só se completa com a encenação mesmo. Hoje as músicas embutidas nas óperas são apreciadas como peças autônomas,  mas é sempre bom lembrar que foram criadas para um espetáculo completo, com atores, balés, figurinos, cenários. E se tem uma coisa que me incomoda é o suposto hermetismo das peças líricas. É claro que existem as mais populares, com trechos facilmente reconhecíveis por quem ao menos já tenha tido contato com os desenhos animados do ´Pica-Pau´. Todo mundo já ouviu trechos das ´Bodas de Fígaro´, de ´Cavalleria Rusticana´, e é claro, de ´Aida´, que é uma das obras mais populares de todos os tempos. Então, achei que seria pertinente comentar sobre o que assisti no Municipal de São Paulo. Mesmo porque fiz a assinatura da temporada 2013, e devo ir a mais cinco espetáculos de ópera até o fim do ano, então vai ser bom ter o registro para poder comparar...



Primeiro quero falar sobre o Theatro Municipal de São Paulo, um espaço que é velho conhecido mas que só entra agora nesse blog, pois das outras vezes em que estive lá nesse ano foi para assistir a concertos. O nosso Municipal não é tão luxuoso quanto o do Rio de Janeiro, e se for comparar com o Colón, de Buenos Aires, aí é até covardia...  Mas ainda assim é um belo teatro. Chegar lá já foi pior, o centro de São Paulo agora me parece mais iluminado, mais seguro. Como tem a estação Anhangabaú ali perto, o acesso é fácil para ir de Metrô. Indo de carro, é melhor chegar cedo para se conseguir uma vaga em estacionamento na parte dos fundos do Municipal, por que senão lota, e daí para estacionar na Av. São João já fica meio complicado. Nesse caso, se for para chegar com pouca antecedência, é melhor estacionar do outro lado do Viaduto do Chá e ir a pé até o Municipal. Acho mais seguro, sempre há uma viatura da PM em cada extremidade.

Lá dentro o hall é relativamente acanhado, e o bar, sempre lotado, também é pequeno. Foi reformado há pouco tempo pelos irmãos Campana, e ficou muito bonito. Mas meu lugar preferido do Municipal ainda é o terraço. É de lá que se tem uma bela vista do antigo prédio da Light ( hoje um shopping ), do antigo Mappin, viaduto do Chá, do Anhangabaú...  afinal, não há muitos lugares de acesso ao público de onde se pode ter uma visão do centro de São Paulo, então, quando há oportunidade, temos mais é que aproveitar.  Dentro da sala de espetáculos, em termos de conforto para o espectador, tem de tudo: dos bons lugares nos camarotes, platéia ou balcão nobre, até o auditório, lá em cima, de onde não se vê absolutamente nada do palco. E claro, para quem fica nas extremidades da ´ferradura´ ( que é o formato clássico das casas de ópera ),  independentemente do andar, a visão é prejudicada. Dessa vez meu lugar era central, na fila ´A´ do balcão simples. Claro que se fosse no andar debaixo ( balcão nobre ) a vista seria melhor, mas em todo caso, deu para ver bem. No Municipal é sempre bom sentar na fila ´A´,  para que o espectador da fileira da frente não atrapalhe a visão quando se debruçar no parapeito, o que todo mundo que senta na primeira fileira faz - inclusive eu. E seria bom se houvesse um pouquinho mais de espaço para as pernas, ajudaria muito quando o espetáculo é demorado, e todas as óperas são. Também ajudaria muito para se chegar às poltronas centrais quando já há gente sentada nas extremidades da fileira.

Antes de começar a apresentação, uma boa surpresa: o programa é maravilhoso, lindo, muito bem impresso, com textos interessantes sobre a Aída, sobre Verdi, e além dos tradicionais textos do diretor artístico, dos currículos dos cantores, há também todo o libreto, todo o texto da ópera. Muito legal, tomara que os próximos também sejam assim.

Mas o que interessa mesmo é o espetáculo, e foi muito bom. É claro que eu já conhecia ´Celeste Aida´, e a ´Marcha Triunfal´,  mas é outra coisa ter isso ao vivo. Achei o cenário muito bom, deve ser difícil tratar um tema clássico como esse e não cair no alegórico, no folclórico, e acabar transformando tudo em ´escola de samba´, ou ao contrário, fazer algo tão anódino, tão clean, que acabe não tendo relação com a peça. O cenário era dominado por duas estruturas muito grandes, duas paredes de ´pedra´ em cinza escuro, com inscrições egípcias, claro. Também havia um plano inclinado em formato triangular, que cortava o palco a partir do lado esquerdo. Isso no início, porque o cenário vai se alterando muito durante a encenação. Acho que o momento mais bonito foi quando o exército egípcio é reunido, e vemos o mar de areia do deserto com a céu amarelo, e um foco muito forte projetado no fundo do palco representando o Sol. Mas também foi muito impressionante o trabalho com os alçapões no palco, tem um momento em que quase todo o palco é rebaixado, eu nem imaginava que isso fosse possível. E no final, na última cena, quando o personagem Radamés é encarcerado numa sala que é fechada, para que ele morra ali, também é impressionante. Toda a boca de cena é tomada por uma parede gigante de pedra cinza, com uma pequena ´caverna´ de uns três metros de largura por dois de altura que representa o lugar onde Radamés é enterrado vivo. Mas o detalhe é que essa ´caverna´ está elevada uns três ou quarto metros acima do palco, e a abertura relativamente pequena em relação ao cenário, o tom cinza-chumbo, a iluminação, dão mesmo a sensação de clausura que o personagem vive. 

Os figurinos também são muito bonitos, não são ´fantasias´, e sim roupas que através de adereços remetem ao Antigo Egito. Mas não deixou de ser curioso ver uma das bailarinas, uma que faz uma pequena apresentação de dança e contorcionismo, toda pintada de azul, num tom de lápis-lázuli. Impossível não lembrar do filme ´Avatar´...

Quanto ao desempenho técnico dos cantores, não tenho elementos para julgar se foram muito bem ou não. Mas com certeza, não cometeram nenhum erro flagrante. Na récita em que estive presente, o casal de protagonistas foi representado por Maria Billeri ( Aida ), e Stuart Neill ( Radamés ). O reparo que eu posso fazer é que para os padrões atuais, o ´galã´ Radamés está obeso...  

Acho que os momentos que eu mais curto em óperas são aqueles em que há um grande coral. É incrível ver 90, 100 pessoas no palco cantando, e ´Aida´ propicia isso, principalmente durante a famosíssima ´Marcha Triunfal´. Nesse momento me projetei ao máximo para a frente, debruçado no guarda-corpo, para que o som viesse diretamente aos meus ouvidos, sem interferência alguma.  
A história do amor entre a princesa etíope que é refém no Egito é triste pra caramba, o final é mesmo deprimente para os padrões de hoje, mas deve ter feito muita mocinha suspirar no final do século XIX ( auge do romantismo ), ao ver o casal de protagonistas morrer juntos por causa de seu amor. E Aida parece que são duas peças em uma: o primeiro e o segundo ato ( não houve intervalo entre eles ), são agitados, há a apresentação dos personagens, intrigas, guerra, ciúmes, e isso através de árias, duetos, coro... já depois do intervalo, o terceiro e o quarto atos são quase que ´ópera de câmara´, com um ritmo muito mais lento, canções melancólicas...  é um ´anti-climax´, bastante diferente do que costumamos ver nas montagens de musicais contemporâneos, em que o final é sempre em ´crescendo´.

Pra terminar, um comentário: o maestro John Neschling é que está a partir de 2013 à frente do Theatro Municipal de São Paulo, como seu diretor artístico, e nessas apresentações também como regente da Sinfônica Municipal. Ele que foi o grande responsável pelo reerguimento da Osesp, e espero que tenha o mesmo êxito como comandante do Municipal. Deu para ver que há apoio financeiro para isso, a montagem de Aida foi luxuosa, e acho que há muitos e muitos anos o Municipal não tinha uma programação tão extensa de espetáculos de ópera, com um título por mês de agosto a dezembro de 2013, o que não deve ser fácil de gerenciar.  Então, só posso desejar boa sorte, e estarei lá novamente no mês que vem, dessa vez para conferir Don Giovanni, de Mozart.


 
Aida
Com Maria Billeri e Stuart Neill
Ópera de Giuseppe Verdi, sobre libreto de Antonio Ghislanzoni
Regência de John Neschling
Theatro Municipal de São Paulo, até 25/ago/13





sábado, 10 de agosto de 2013

Rock In Rio

Mais uma vez, um musical. Esse nem estava na minha lista de prioridades, mas apareceu uma oportunidade de ir assistir, e lá fui eu mais uma vez ao Auditório Ibirapuera:



E não me arrependi nem um pouco, foi uma surpresa bastante agradável. Pra começar, ir ao Auditório Ibirapuera é sempre um prazer. Como arquiteto, nem preciso dizer da admiração que tenho pela obra do Niemeyer. E o velhinho mais uma vez acertou em cheio, é incrível ver a simplicidade com que a obra foi composta. Pra chegar a esse nível se síntese, de domínio espacial, só mesmo com muito, muito tempo de prancheta, e claro, um talento absurdo.

Lá dentro, além do foyer lindo com a escultura da Tomie Ohtake, a sala de espetáculos, por onde a gente chega através de uma rampa helicoidal, também é muito interessante. É um espaço muito mais largo do que profundo, com um palco gigante, uma boca de cena que eu acho que não tem igual em São Paulo. E o espaço para a platéia também é generoso, com boas poltronas, bom espaço para as pernas. Eu já havia visto vários shows nesse auditório, mas nunca uma peça de teatro.  E o fato de ser um musical, com bastante gente em cena fazendo o coro, fez com que o palco não ficasse ´sobrando´, o espaço foi bem ocupado durante a encenação.

Logo na primeira cena aparece o protagonista Alef (  Hugo Bonemer ), interpretando ´Pro dia nascer feliz´, do Cazuza e Frejat. Em seguida vão aparecendo outros atores caracterizados como Freddie Mercury, Elton John, Tina Turner... a primeira impressão foi de que assistiria a uma série de ´covers´  dos artistas que se apresentaram nas várias edições do festival. Mas não foi bem assim... 

A história trata do encontro de Alef, um universitário problemático, que deixou de emitir qualquer som desde que seu pai morreu, vítima da ditadura, 15 anos antes. Ele mora com a mãe ( Glória / Lucinha Lins ), professora de Literatura na mesma universidade onde seu filho estuda. Alef passa todo seu tempo livre ouvindo música, é a fuga dele da realidade. Em paralelo, somos também apresentados a Sofia ( Yasmin Gomlevsky ), filha do publicitário Orlando ( Claudio Lins, que só agora imaginei que poderia ser filho da Lucinha Lins  - e é ), que tem um desvio oposto:  desde que sua mãe, que era cantora, desapareceu, ela não suporta mais ouvir música. Daí fica na cara de que no final da história os dois jovens vão se encontrar e complementar um ao outro, e talvez mesmo os pais também acabassem formando outro casal ( mas disso o roteirista nos poupou ). Enfim, a história é uma bobajada que só serve mesmo para costurar os números musicais. O personagem Orlando  ( alter-ego do Roberto Medina, criador do Rock in Rio ), é um ser humano quase perfeito, um pai preocupado com a filha, que muito mais do que buscar o lucro, trabalhar para propiciar ao Brasil um momento de alegria depois da decepção da rejeição da emenda das diretas no fim da ditadura, que no momento em que fraqueja é levado a recomeçar pela lembrança das lições que seu pai lhe ensinou... Orlando é alguém que vai atrás de seus objetivos, sempre com ética, com altos ideais...  espero mesmo que o Roberto Medina seja tão bom-caráter quanto o personagem Orlando, mas para mim, soou como algo ´chapa-branca´, puxa-saquismo demais...  enfim, até mais do que em outros musicais, a história em si é uma bobajada.

Mas no meio disso tudo, tem dois personagens que se destacam: Marvin, interpretado por Ícaro Silva, e Geraldo, por Caike Luna. Marvin é um colega de Alef, safo, desbocado, com respostas rápidas e irônicas. Da boca do personagem Marvin saem as melhores piadas do texto, e é claro, com esse nome ele interpreta ´Marvin´, que fez sucesso no Brasil na versão dos Titãs. Já Geraldo é o assistente gay do Orlando, um homossexual daqueles de programas de humor popular: exagerado, escrachado, dramático... mas com muito carisma, e com provocações dirigidas ao deputado Marcos Feliciano, tratando da ´cura gay´, que eram cacos muito bem inseridos nas falas. 

Outra coisa: quando eu digo ´personagens que se destacam´, é porque são os que realmente abrem espaço para os atores brilharem. Os outros são meros instrumentos, são personalidades simplórias: o colega de turma drogado, a trabalhadora explorada na loja de discos, a menina sem opinião própria que busca se inserir na turma seguindo os outros, o garoto que esconde sua predileção musical para não ser ridicularizado pelos amigos...  enfim, são personagens que estão na faculdade, mas que poderiam perfeitamente compor uma dessas ´sitcoms´  americanas passadas no ´high-school´. O que por outro lado ajuda na identificação da platéia com a situação apresentada no palco, já que o público, ao contrário do que se vê normalmente nos espetáculos teatrais, na sua maioria era bem jovem.

Os números musicais, que aliás são muitos, na média são bem executados. Há uma pequena banda nos fundos, à esquerda do palco, que obviamente dá suporte ao que acontece em cena, mas os músicos não interagem fisicamente com os atores. Alguns números são muito bem encaixados na trama, como ´Primeiros erros´, do Kiko Zambianchi, e ´Ovelha Negra´ da Rita Lee ( apesar de ser  uma escolha um tanto óbvia ).  Outros são só um jeito de registrar a passagem de alguns artistas...  mas a música que me irritou foi a versão em português de ´Don´t let the sun go down on me´, do Elton John...  a versão foi péssima, acabou com a letra. Por outro lado, foi bonito ver a Lucinha Lins cantando ´You´ve got a friend´, e principalmente ´Desesperar jamais´, do Ivan Lins e Vitor Martins. É claro que ter gostado disso também reflete as minhas preferências pessoais, mas esse blog não é de um crítico especializado que pretensamente vai analisar o que vê com neutralidade ( coisa que aliás, não acredito que aconteça ).

Enfim, a história é uma bobajada, o cenário não é grande coisa, nem os figurinos. Como os personagens são bem planos, também não há grandes atuações. Não gosto de todas as músicas que foram apresentadas, aliás, não gosto de muitas delas, mas no final das contas, a coisa toda funciona. É um espetáculo demorado, são quase três horas de encenação ( claro, há um intervalo ), mas a sensação ao sair de lá é de que vimos um espetáculo agradável, com uma história que a gente sabe desde o início como vai terminar, que é longa para dar conta de conectar tantas músicas ( aliás,  fazem a gente ouvir mil vezes o tema musical do Rock in Rio...).  Mas no final o saldo é positivo, o conjunto todo funciona bem. E na última cena tem o que acredito seja o maior momento de todas as edições do festival: ´Love of my life´,  com a projeção do Freddie Mercury num telão. Valeu.




Rock in Rio
Com Hugo Bonemer, Yasmin Gomlevsky, Lucinha Lins, Claudio Lins, Ícaro Silva, Caike Luna
Direção de João Fonseca
Texto e versões musicais de Rodrigo Nogueira
Auditório Ibirapuera, até 11/ago/13

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Quanto Custa?

De novo no Centro Cultural Banco do Brasil, de São Paulo, agora para assistir ´Quanto Custa?´, do Brecht:




Dessa vez fiquei exatamente no mesmo assento em que vi ´Eu Não Dava Praquilo´, então, os comentários sobre como é ver uma peça ali são exatamente os mesmos, apesar de que dessa vez demorei mais para entrar no clima da peça.

Quando ainda estava esperando o início, tentei ler o programa, mas foi impossível. A luz estava fraca, o que é absolutamente normal. O problema foi a programação visual do folheto, com boa parte do texto de apresentação em letras pretas sobre fundo marrom... ou seja, sem contraste nenhum, difícil de ler até em uma situação de luz mais forte. Ou seja, só li agora o texto, e para mim, tem algo ´errado´ ali. A apresentação diz: 'a música é trazida para o centro da cena e a separação entre palco e platéia é rompida´.  Desculpem-me o diretor, os atores, o autor da trilha sonora, a assessoria de imprensa, mas quem rompeu a separação entre palco e platéia foi o Cássio Scapin em ´Eu Não Dava Praquilo´.  Em ´Quanto Custa?´, ao contrário, a estética adotada remete aos filmes ´noir´, aqueles policiais em preto-e-branco, e me deixou mesmo a sensação de estar assistindo um ´filme ao vivo´, o que é exatamente o oposto de uma situação onde se rompe a separação palco / platéia.

O que acabei de escrever acima indica que eu não gostei da peça? Muito pelo contrário... foi uma experiência bastante interessante assistir  ´Quanto Custa?´,  justamente por essa opção de se fazer uma estética diferente. Algumas cenas eram divididas por um narrador em ´off´ ( o que lembrou a peça ´Atreva-se´, com direção do Jô Soares, que assisti uns dois anos atrás, antes de começar esse blog ). A música pontuava alguns momentos de forma bastante forte, mas o que na minha opinião se destacou mesmo foi a iluminação. O cenário, também muito bom, é bastante delgado, os elementos se definem basicamente com linhas: o açougue é o espaço de uma ´arara´ onde pendem carcaças, o depósito de ferro é definido por telas metálicas, e somente a banca de jornais é que tem planos opacos, mas mesmo assim mais no fundo, e que durante o desenrolar da trama a gente vê que isso tem uma função mais do que estética. Mas na frente da banca de jornais, somente colunas finas. Com isso a iluminação em muitos momentos era feita pelo fundo do palco, e então o que víamos eram as silhuetas. Em outros momentos, somente os rostos dos atores eram iluminados. Enfim, achei perfeito o casamento da luz com os outros elementos da encenação.

A história é um suspense: numa rua pacata, onde todos os vizinhos se conhecem e convivem bem, um garoto que vende cigarros é seguido por um forasteiro, que oferece a ele um contrato de ´proteção´ ( ambos não aparecem ao mesmo tempo em cena, pois são interpretados pelo Pedro Felício ). Em seguida o garoto aparece morto. Dois dos personagens, o açougueiro Dansen ( Luis Mármora ) e o dono de depósito Svenson ( Ernani Sanchez ) tem mais afinidade entre si e trocam impressões sobre o acontecido. Há também a Sra. Norsen que é vendedora de jornais ( também representada pelo Pedro Felício ), e que pretende que haja uma união maior entre os comerciantes.

O tal forasteiro é o representante de uma incorporadora e passa a assediar a todos os comerciantes com os tais contratos de proteção, e também mostrando interesse em seus imóveis. A próxima vítima é a Sra. Norsen, que ao assinar o tal contrato de proteção, é assassinada nos fundos de sua própria banca de jornais ( aquele plano opaco que eu comentei antes, fora da nossa visão que os dois personagens do Pedro Felício se encontram ). O açougueiro ouve os gritos, mas não toma nenhuma iniciativa. O vendedor de ferro Svenson, mesmo desconfiado de que as barras de ferro que ele vende ao forasteiro são utilizadas para os assassinatos, prefere não meter o nariz onde não é chamado e continua vendendo suas barras de ferro normalmente. O clima então fica pesado, há desconfianças de todos contra todos, cada um querendo se proteger sem pensar em mais ninguém, até que acontece o desfecho, que obviamente não vou contar.

Eu falei que a peça é um suspense, um ´filme noir´, mas também é uma fábula. Aos poucos vamos vendo a personalidade mais individualista de Svenson, e depois, a covardia e o oportunismo egoísta do açougueiro Dansen, e além da trama propriamente dita a gente vai percebendo uma certa ´moral da história´, que vai mostrando que o egoísmo e a falta de solidariedade no fim levam à ruína de todos. Até onde sei, típico da obra de Brecht, que naquele momento histórico tinha a preocupação de elevar os padrões da humanidade através da arte. Aliás, o texto é na verdade a fusão de duas peças, ambas de 1937: ´Quanto Custa o Ferro?´ e ´Dansen´. Dá pra fazer uma relação bastante direta com o que acontecia na Alemanha nazista, às vésperas da Segunda Guerra.

Ah, quase ia esquecendo de comentar: na minha opinião, todos os três atores vão bem, mas o destaque é o Pedro Felício, que interpreta o garoto assassinado, o forasteiro e a vendedora de jornais ( nesse caso, sempre com um lenço sobre o rosto, e um grande chapéu ). Quando caracterizado como o forasteiro, ele tem um gestual muito sedutor no início das conversas e depois muito anguloso, muito decidido quando seu personagem é  contrariado. Dá até uma sensação de desenho animado, ver os gestos daquela maneira. E os figurinos também são muito bons, apesar do exagero da luz de led vermelho por dentro do terno do assassino nas cenas finais.







Quanto Custa?
Com Luis Mármora, Ernani Sanchez e Pedro Felício

Direção de Pedro Granato
Texto de Bertold Brecht
CCBB SP, até 23/set/13

terça-feira, 23 de julho de 2013

Eu Não Dava Praquilo

Essa peça acontece num dia inusitado...  há apresentações em plena segunda-feira!



Já comentei aqui sobre como é assistir a uma peça no CCBB ( no caso, quando estive lá para ver ´Vingança, o Musical´ ), só que agora que pela primeira vez fiquei no balcão, não consegui lugar na platéia. Meu ingresso era na primeira fila e tive que me abaixar, escorregar na poltrona para poder ver melhor. O guarda-corpo, por mais delgada que fosse a barra de ferro na parte superior, atrapalhava bastante. Então o jeito foi procurar uma posição em que eu pudesse olhar por debaixo da barra, pois as divisões intermediárias são feitas por cabos de aço e atrapalham menos. De início parecia que estava assistindo a peça através de uma cerca, mas logo abstraí e aproveitei a cena.

Antes mesmo de começar a peça, que eu sabia ser sobre a Myriam Muniz, uma atriz e diretora já falecida sobre a qual não tinha mais do que vagas referências, vi algo que achei muito interessante no programa:  o texto, compilado pelo próprio Cassio Scapin junto com Cassio Junqueira, são falas da própria Myriam, e no programa há os endereços da internet com as páginas utilizadas na pesquisa, além das referências utilizadas em livros e dvd. Ou seja, toda a ´bibliografia´ da pesquisa está disponível para quem quiser buscar mais informações.

A peça é um monólogo, quando de abrem as cortinas vemos o Cassio Scapin sentado em uma cadeira de madeira, todo vestido de preto. A cadeira está no centro de um tablado circular onde há também um maço de cigarros e um caderno, ou apostila. Ele tem um xale preto e ao virar de costas para a platéia, se cobre com o xale e começa a falar... Daí vamos percebendo a voz rouca, grave, mas de uma mulher. A entonação, o ´sotaque´, logo me fizeram lembrar daquelas senhoras de origem italiana, desbocadas - como eu já disse, não tinha maiores referências sobre a Myriam Muniz, para mim era um nome conhecido, mas não lembro de ter visto alguma entrevista com ela para saber se a caracterização era fidedigna ou não. Mas obviamente, pela qualidade do trabalho do Cassio Scapin, só podia acreditar que fosse.

De início, talvez pelo problema de assistir ao espetáculo através do guarda-corpo, por ver um homem que estava simplesmente interpretando uma mulher, com sua voz, seu corpo, mas sem ´travestismo´, sem utilizar nenhum adereço feminino, confesso que senti um certo estranhamento. Mas logo isso passou, e parecia mesmo que estávamos vendo ali um senhora já idosa, com forte sotaque paulistano, falando sobre a sua infância, juventude, seu modo de ver o teatro e a vida. Era como se ela estivesse ali dando um depoimento em primeira pessoa. O texto tinha algumas frases ótimas, de quem observava o ser humano com muita acuidade, frases que são bastante duras às vezes, cruas, mas não que não são feitas para machucar. Fiquei com a impressão de que ela deveria ser uma daquelas ´italianonas´  de São Paulo, desbocadas mas com um coração enorme.

E para dar uma idéia da verdadeira transformação que ocorreu em cena, de como o Cassio Scapin realmente se transformou na Myriam Muniz, em um determinado momento da peça, ele/ela diz que vai demonstrar um pouco de seu método de ensino teatral, e fala algo como ´então agora vocês levantem´...  e imediatamente as pessoas levantaram, como se realmente fossem os alunos da Myriam!  Eu não esperava isso, nessa cena não há nada de diferente em relação às outras, ele/ela continuava dando seu depoimento, não houve uma mudança, uma entonação mais forte, nada. Mas realmente, naquele momento ele/ela era o maestro, dominando totalmente o palco e a platéia. Incrível. Essa mágica do teatro acontecendo ali, na nossa frente, sem a necessidade de nenhum apoio, nenhum adereço, nada além do corpo do ator... é pra ver isso que eu saio de casa numa segunda-feira chuvosa, é isso que faz com que ir ao teatro seja uma experiência incomparável.

A peça foi relativamente curta, mais ou menos uma hora de espetáculo. Dessa vez poderia ter durado mais, que eu assistiria sem esforço algum. Mas depois, ainda houve um bônus: no CCBB há a exposição ´Mestres do Renascimento - Obras-primas Italianas´, que tem levado muita gente até lá, às vezes com horas de espera na fila. Só que na saída da peça o acesso para a exposição já estava livre, e entrar numa sala e dar de cara com a ´Anunciação´, de Boticelli, é de tirar o fôlego. Ótima noite, pra não esquecer mais.



Eu Não Dava Praquilo
Com Cassio Scapin
Direção de Elias Andreato
Roteiro de Cássio Junqueira e Cassio Scapin
CCBB SP, até 23/set/13



domingo, 21 de julho de 2013

Ah, a Humanidade! E Outras Boas Intenções

Depois de um certo intervalo sem ir ao teatro, mas pelo melhor motivo do mundo ( ficar com a minha filha! ), eis que estou de volta ao Sesc Consolação, para assistir  'Ah, a Humanidade! E Outras Boas Intenções':



Eu já conhecia o Sesc Consolação, ano passado assisti lá ´Toda Nudez Será Castigada´, do Nelson Rodrigues. É um espaço antigo, um teatro diferente das outras unidades do Sesc, pois lá o teatro dá diretamente para a rua, não está inserido em uma unidade maior.  Ou seja, não tem estacionamento. Felizmente, até hoje consegui parar relativamente próximo ao teatro, e nunca tive problemas. Mas estamos em São Paulo, há sempre moradores de rua na praça próxima ao Sesc, e infelizmente, a gente tem que se preocupar com a segurança, especialmente à noite. Não dá para saber de antemão se quem está ali deitado é somente um morador de rua, ou um ´nóia´  que pode te atacar sob efeito de crack.

Lá dentro o foyer é apertado, mas o que interessa mesmo, que é a sala de espetáculos, é bem confortável para a platéia. Dessa vez sentei no bloco dos fundos, mas ainda assim tinha uma boa visão do palco.

E ainda bem que as poltronas são confortáveis, com bom espaço para as pernas... porque dessa vez eu estava querendo que a peça terminasse logo. O meu interesse foi rever dois bons atores, Guilherme Weber e Celso Frateschi. Mas a peça é longa, e apesar de serem cinco temas diferentes entre si, acaba sendo enfadonho. Na prática, são cinco peças apresentadas em sequência, e na maior parte do tempo o que se vê são monólogos. Isso não teria o menor problema se o texto fosse mais interessante, mas não é o caso. O cenário é sempre o mesmo, com uma barafunda de coisas espalhadas pelo palco, onde se sobressai uma escrivaninha, à direita, e um poste tombado, que vai do fundo do palco ao centro.

É na escrivaninha que acontece a primeira parte do espetáculo: o Celso Frateschi aparece como um treinador de uma equipe esportiva ( se não me engano não há nenhuma menção explícita a qual esporte se refere ), que está dando uma entrevista coletiva, fazendo um balanço do ano que passou. De início vem aquela lenga-lenga de técnico que não conseguiu um bom resultado, dizendo que fez tudo de coração, pensando na torcida, e bla-bla-blá. Depois, ele vai se justificando, pedindo a compreensão de todos, falando que isso faz parte da vida, e acredito que para conseguir mais empatia, passa a falar da sua vida pessoal, da perda da mulher, ou namorada...  Nada é muito preciso, são frases vagas.  Mas o problema é que essa cena, onde ele fica parado atrás de uma mesa até os minutos finais, deve ter algo como 30 minutos de duração. Por melhor ator que seja o Celso Fratechi ( e ele é sim um ótimo ator ), não dá pra segurar a atenção por tanto tempo com um texto solto como aquele. Sinto muito se o New York Times chamou o autor, Will Eno, de ´novo Beckett´.  O texto é chato, e ponto.

A cena seguinte é sobre a gravação de vídeos para um site de relacionamentos, feitos simultâneamente por um homem e uma mulher ( Guilherme Weber e Erica Migon ). Dessa vez é mais interessante: vemos os dois gravando seus filmes ao mesmo tempo, mas separadamente, e conforme vão se expondo, procurando primeiro obviamente  mostrar suas qualidades, aos poucos mostrando seus lados mais patéticos, e há um encadeamento entre as falas, de tal maneira que é possível estabelecer paralelos ou diferenças entre as apresentações dos dois. Do mesmo modo que na primeira cena, conforme os personagens vão falando, o discurso vai saindo de controle, e acabam dizendo coisas além do que se espera na situação em que vivem. 

Em seguida, um novo monólogo: a Renata Hardy aparece como a porta-voz de uma empresa aérea que teve um acidente com um de seus aviões, sem sobreviventes. Assim como o treinador, ela sai do discurso que se espera numa ocasião como essa, e ao tratar diretamente com os parentes das vítimas, usa seu exemplo pessoal da perda do pai para tentar criar alguma empatia. De novo é o discurso saindo dos trilhos, com algumas falas que buscam o humor negro. Mas nessa parte, acho que o estoque de boa vontade da platéia já estava se esgotando, e havia bem menos manifestações do que no esquete anterior. E de novo, fiquei com a sensação de que a mensagem poderia ser transmitida de em muito menos tempo, digamos que se a tradução tivesse cortado 40% do texto, não haveria perda nenhuma para a compreensão da mensagem...  ou pelo menos do que eu entendi.  

Depois vem em cena de novo o Celso Frateschi e a Erica Migon. Ele é um fotógrafo, e ela sua assistente. Os dois tem como missão reproduzir uma foto histórica feita em Cuba, 100 anos antes, durante a Guerra Hispano-Americana. Dessa vez há alguma interação direta com a platéia, já que a câmara está virada do palco em direção a nós, e dois refletores colocados nas extremidades do palco também são virados para a platéia ( em certo momento, com tanta potência que incomodava os olhos, mesmo eu estando no fundo da platéia ). Somente nessa cena é que pela primeira vez há alguma interação entre os personagens, há diálogo entre eles, e como a foto não é mostrada, apenas descrita, acredito que cada um na platéia vá criando a sua própria imagem mental.  Essa foi a cena menos demorada, acredito.

E para terminar, após o flash do fotógrafo, os refletores voltados para a platéia são apagados, e vemos novamente em cena o Guilherme Weber e a Renata Hardy. Os dois são um casal, sentados em duas cadeiras de madeira, mas que representam os assentos de um carro. O ator faz os movimentos de quem está ligando um carro, mas cujo motor não funciona. Daí se estabelece um diálogo entre os personagens, quando ela expressa preocupação por chegar atrasada a um batismo, e ele diz que estão indo ao velório do pai dele. Daí a conversa parte para o absurdo, vão para um batizado ou para um enterro, há uma pequena discussão, e aparece um novo personagem, o ator Fabio Mazzoni, em uma pequena participação. Ele se apresenta como ´aquele que traz a mágica da vida´, ou algo assim, não recordo exatamente o texto. Sinceramente, a essa altura eu já estava mais interessado em quando aconteceria o final do espetáculo do que propriamente o encaminhamento da cena. 

Mas como tudo tem que chegar ao fim, as luzes se apagam e uma tv antiga, colocada no fundo do palco ( e que estava ligada enquanto o público tomava seus assentos antes da peça ) volta a funcionar, mostrando o trecho final da animação 'Mogli, o Menino-Lobo', da Disney. Então assistimos ao Mogli encontrar pela primeira vez uma menina e sair da selva em busca de novas experiências, dessa vez junto a humanos, e quando começam os créditos do filme, acaba a peça.

Está claro que eu não gostei do que vi, achei demorado demais, quase duas horas de espetáculo, e a meu ver sem justificativa para todo esse tempo. Não chega a ser um desastre,mas achei a peça enfadonha, e depois, pensando no que estava escrito no programa, também pretensiosa demais pelo que apresenta. 




'Ah, a Humanidade! E Outras Boas Intenções'
Com Celso Frateschi, Erica Migon, Fabio Mazzoni, Guilherme Weber e Renata Hardy
Direção de Murilo Hauser
Texto de Will Eno
Sesc Consolação, SP, até 28/jul/13



segunda-feira, 17 de junho de 2013

A Descida do Monte Morgan

Finalmente a primeira peça de junho: A Descida do Monte Morgan




A peça está em cartaz no Teatro Nair Bello, que também fica no Shopping Frei Caneca, assim como o teatro do mesmo nome. Mas é um espaço bem menor, onde funciona a escola de atores do Wolf Maia, e é também menos confortável. A visualização do palco é boa, já que o espaço é pequeno e os degraus entre as fileiras é grande, então mesmo que alguém alto sente na frente,  não atrapalha. Mas a distância entre as poltronas é mínima, fica difícil passar se alguém já estiver sentado, e cruzar as pernas, então, nem pensar.

Quando entramos, não havia cortinas fechadas, o cenário já estava à mostra. Eram vários móveis e objetos espalhados em cena, e como o teatro conta com um pequeno mezanino no palco, que circunda todo o espaço, havia ali também vários ítens, bem como alguns até pendurados a partir do teto. Avião de radiocontrole,  bicicletas, raquetes de tênis, tinha de tudo pendurado. Depois, vamos percebendo que esses objetos têm a ver com a narrativa, são como ´pedaços de memória´ dos personagens que estão ali expostos. No  nível do palco, ao fundo, cômodas, mesas, armários, e bem ao centro, uma cama de hospital.

A peça de Arthur Miller é sobre um bígamo, um homem bem-sucedido que se apaixona por uma mulher mais nova, casa com ela, mas mantém o casamento antigo. Só que ele acaba se acidentando quando descia de automóvel o tal Monte Morgan que dá título à peça, e ao ser encontrado ferido, pela placa do carro a polícia localiza a família ´oficial´ em Nova York, e a avisa. Mas o tal Monte Morgan fica na cidade pequena onde ele mantém a amante...  e é quando ele está se recuperando no hospital que as duas esposas se encontram na sala de espera, e acabam descobrindo toda a verdade. A partir daí a história segue um curso que se pode dizer ´clássico´,  com as reações das mulheres e da filha do primeiro casamento. As decepções, as reações de incredulidade das esposas, a revolta da filha, tudo é dentro do esperado. O que sai do padrão no enredo é a postura do bígamo...

O tal homem ( Lyman Felt / Ary França ), por mais que esteja ciente da situação complicadíssima em que se meteu, inclusive por ser um empresário de sucesso e uma figura pública, com a imprensa tratando do caso, tem uma postura que vai além do arrependimento: ele também questiona a fidelidade, de um modo mais profundo do que simplesmente a fidelidade ao parceiro: questiona a fidelidade a seus próprios princípios, e vê que isso ele não traiu. E é a partir disso que a trama não se torna uma história banal.

Conforme já dito, a reação das duas esposas, a primeira ( Theodora Felt / Lavínia Pannunzio ), e a segunda ( Leah Felt / Samya Pascotto ) ao saber da traição do marido é a que se espera. Mas depois, ele vai lembrando às duas que os últimos nove anos, o período do duplo casamento, foi o melhor período da vida de todos, nunca antes foram tão felizes. Ambas estavam satisfeitas até então. E ele, que admirava profundamente as duas, também era feliz, por conseguir fazê-las felizes. Mas ele também afirma ser o mais prejudicado entre todos por aquela situação, já que era ele quem tinha que se desdobrar para manter as duas esposas. A partir disso, então, qual o mal que ele realmente causou? Ele se justifica dizendo que fez o que seu coração mandava, nunca traiu seus sentimentos... E questiona se isso que ele fez está errado, se ele deveria ter traído seus sentimentos ou traído as suas esposas, e concluindo que não se traiu, fez o certo... O que é uma saída bem interessante para quem foi pego num flagrante de bigamia.

A encenação é bastante interessante: na primeira cena, quando Lyman Felt é atendido na cama do hospital pela enfermeira Logan ( Jú Colombo ), a gente fica sabendo da angústia do personagem principal ao se dar conta do que certamente acontecerá, que é o encontro das duas mulheres. Daí, há um corte para a sala de espera, onde chegam a primeira esposa, Theo, junto com a filha Bessie ( Paula Ravache ), e depois a segunda esposa, Leah. Mas além do drama que se desenrola, da descoberta da traição, tem algo interessantíssimo acontecendo na cena: Lyman sai da cama e vai acompanhando a conversa entre as suas duas mulheres e a filha, e fazendo comentários sobre o que elas dizem, como se fosse um fantasma. E daí pra frente, a cada vez que algum personagem sai de cena, não sai do palco. Ficam sempre no fundo, numa área de penumbra, acompanhando o que acontece no centro do palco, e entram para participar conforme a cena.

Mais uma vez, acho que não cabe aqui ficar discorrendo sobre todo o enredo. A peça é uma comédia, sem dúvida, mas também tem momentos de drama, e tudo vai se alternando, já que a história não é contada de modo linear, mas se utiliza de ´flahsbacks´.  O Ary França, mais uma vez mostra que é um grande ator, dá credibilidade aos sentimentos do Lyman, mostrando a angústia ao saber que vai ser desmascarado, a ternura com suas duas mulheres e sua filha, o desamparo ao ver que ficará sem as duas, a busca de conselho e depois de alguma cumplicidade com seu advogado e amigo Tom ( Fábio Nassar ). Outra interpretação de destaque foi da Lavínia Pannunzio, como a mulher madura e traída que de repente vê seu mundo desmoronar. Já a Samya Pascotto entrou nitidamente nervosa, errando as falas, com um gestual exagerado. Depois, fomos informados que a sessão em que eu estive presente foi a primeira atuação dela na peça ( no programa ela aparece como assistente de direção ). Isso deve explicar o nervosismo...  Mas por outro lado, fiquei decepcionado com a atuação do Fábio Nassar. Eu o conhecia dos programas da tv com a Denise Fraga, mas ali ao vivo, no teatro, ele parecia deslocado, simplesmente falando as suas cenas, e não propriamente interpretando. Uma pena.

Mas no cômputo geral, gostei, vale a pena assistir. Existe uma verdadeira simbiose entre cenário, enredo e encenação, algo que não se vê normalmente de um modo tão bem concatenado. O texto é muito rico, como era de se esperar de um dramaturgo que é considerado um dos maiores do século XX nos Estados Unidos. O Ary França, que na última peça que havia assistido com ele ( Como se tornar uma super-mãe em 10 lições ) simplesmente não saía do lugar e fazia rir somente com as expressões do rosto, dessa vez mostrou uma vitalidade impressionante, se deslocando por todo o cenário praticamente o tempo todo. E a peça não é curta, são quase duas horas de encenação... 




A Descida do Monte Morgan
Com Ary França, Lavínia Pannunzio, Samya Pascotto, Fábio Nassar, Paula Ravache, Jú Colombo
Direção de Luiz Villaça
Texto de Arthur Miller
Teatro Nair Bello,  até 14/jul/13


segunda-feira, 27 de maio de 2013

Alô Dolly

Finalmente fui assistir ´Alô Dolly´, no Teatro Bradesco:




Musicais não são exatamente a minha preferência no teatro, às vezes acho a ´relação custo-benefício´ complicada, porque essas grandes produções que de uns anos para cá passaram a ficar disponíveis em São Paulo normalmente têm preços exorbitantes.  Por outro lado, desde que vi o Miguel Falabella em um outro musical, Hairspray, passei a ser fã do trabalho dele no teatro, eu que nunca me diverti muito com os programas humorísticos em que ele aparece na televisão. Mas no teatro, eu tiro o chapéu para o trabalho do Falabella, que faz valer o ingresso.

Sendo assim, é claro que a minha tendência era de gostar do espetáculo,  ainda mais com a participação também da Marília Pêra, que dispensa apresentações. E não me decepcionei, de modo algum.

O Teatro Bradesco fica dentro do Shopping Pompéia, o que dá acesso fácil a quem vai de carro, e ainda permite uma passadinha na praça de alimentação antes de entrar. É um espaço confortável, na minha opinião com uma decoração mais pretensiosa do que propriamente luxuosa, mas em todo caso, acho que é hoje uma das melhores casas de espetáculos de São Paulo, com poltronas confortáveis, acesso fácil, boa visualização do palco. Acho que só quem sentou nas primeiríssimas fileiras é que se arrependeu, pois o palco é bastante alto, e com certeza dali não se pode ver bem - mas não foi o meu caso. E por incrível que pareça, mesmo havendo em cena duas grandes estrelas da tv, o público se comportou como deveria ser sempre... pelo menos onde eu estava sentado, não teve ninguém usando o celular ou se deslumbrando ao ver os atores da tv em cena. E olhe que fui numa quinta-feira, cheguei em casa e estavam o Falabella e a Marília aparecendo na Globo em ´Pé na cova´...  Milagres acontecem.

Mas o que interessa mesmo é a peça. O enredo trata de uma viúva que vive de arrumar casamentos ( Dolly Levi  / Marília Pêra ), e que foi contratada por um comerciante rico e avarento da pequena cidade de Yonkers (  Horácio Vandergelder / Miguel Falabella ). Esse Horácio é um tipo absolutamente detestável, grosseiro, humilha os empregados e não permite que a sobrinha que vive em sua casa tenha um namorado. Mas ele também se mostra um homem solitário e de certa maneira até sensível, e busca alguém para compartilhar sua vida. Ou seja, para um ator como o Miguel Falabella, é um prato cheio. Os momentos em que o personagem é mau, o Falabella faz com um cinismo absoluto, e nos momentos de ternura do personagem, parece uma criança em cena, de tão inocente.  Já Dolly Levi, como disse no início, é uma viúva casamenteira, mas não só isso, é uma verdadeira ´lady charlatã´, sempre com uma carta na manga, com um ´jeitinho´  para resolver as situações mais difíceis. E claro, a Marília Pêra dá um show, exprimindo as palavras como quem estivesse sempre em dúvida, mas na prática sendo a senhora de todas as situações, já que ela manobra os outros personagens para que façam exatamente o que ela quer. Também é patente a cumplicidade entre os dois, Miguel e Marília, sendo que a gente percebe desde o início a veneração que o Falabella tem pela parceira. 

Mas não é só isso... Os outros atores também vão muito bem. Quem mais me impressionou foram o Frederico Reuter, que no papel de Cornélio, um dos funcionários de Horácio Vandergelder, também dá um show, tanto na parte musical quanto na atuação, a Alessandra Verney, no papel de Irene Molloy, e Ricardo Pêra, que atua como o maitre Rudolph Reisenweber e que agora, lendo o programa, descobri ser filho da Marília Pêra.  

Não vou retomar o enredo aqui, mas a cena do jantar, com a entrada da Dolly no restaurante é daquelas cenas de filme de Hollywood, ou melhor, da Broadway, com a longa escadaria por onde a estrela desce triunfante. E nada mais coerente, já que o subtítulo da peça é ´Um musical da Broadway´.  Ou seja, o que é entregue ao espectador é exatamente o que a gente espera de um grande musical. Perfeito nos mínimos detalhes, nas danças, nas marcações, mas de modo nenhum é um espetáculo frio, técnico. A gente se diverte e vê que os atores estão ali com prazer, se divertindo também. 

Musicalmente, apesar de ser um espetáculo já clássico, não me impressionou muito. A única música que reconheci foi justamente ´Hello, Dolly´, que nos primeiros acordes me remeteu à versão do Louis Armstrong. Já as outras músicas fizeram seu papel em cena, mas não deixaram marcas nos ouvidos...  Já o cenário é muito interessante, é uma superfície vertical que faz as vezes de moldura para as várias mudanças de cena. Nessa superfície estão aplicadas texturas, volutas, frisos, que me remeteram às notas de dólar. Mas dessa grande superfície também saem alguns volumes, que se transformam em escadas, por exemplo. E ao fundo, conforme o desenrolar da história, há projeções que remetem a noites de luar, estação de trem... Muito bem bolado. 

O figurino também chama a atenção. Foi criado pelo Fause Haten, e mesmo eu, que não sou exatamente alguém que acompanha a moda, percebo a diferença de qualidade entre o trabalho dele e o que estamos acostumados a ver por aí. Todos, absolutamente todos os figurinos de muito bom gosto, claro que são roupas de época, baseadas em algo que já vimos, mas a Marília Pêra estava com um figurino de saia estampada e colete listrado que ao mesmo tempo que instiga por quebrar uma ´regra´  de não misturar listras e estampas, era absolutamente harmonioso. 

Enfim, saí absolutamente satisfeito com o espetáculo que assisti. Estava até esquecendo de dizer, mas a música é executada por uma pequena orquestra, localizada no fosso, e há também um grande coro de bailarinos, sendo um deles se destaca ( Fabio Yoshihara ) que além de ser de origem japonesa também é careca, o que também gera alguns momentos de piadas visuais. 

Um comentário final: eu sempre colecionei os programas das peças que assisto, muito antes de começar a escrever esse blog. Isso ajuda a relembrar os momentos que assisti, e é claro que eu não conseguiria fazer esse texto sem recorrer ao programa. A única coisa chata é que dessa vez o programa, luxuoso, com impressão em papel de alta gramatura, a quatro cores, verniz... custou exagerados 20 reais, e ainda assim veio com propaganda. Mas tá valendo... 






Alô Dolly
Com Miguel Falabella, Marília Pêra, Frederico Reuter, Alessandra Verney, Ricardo Pêra
Direção e versão brasileira: Miguel Falabella
Texto de Michael Stewart
Músicas e letras de Jerry Herman
Teatro Bradesco, até 07/jul/13