Mostrando postagens com marcador Claudio Lins. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Claudio Lins. Mostrar todas as postagens

sábado, 22 de março de 2014

Elis, A Musical

Elis, A Musical - um título com um trocadilho absolutamente pertinente:


Engraçado como fazia tempo que eu não ia ao Teatro Alfa, desde ´Um Violinista no Telhado´, mas só percebi que fazia mais de um ano por causa desse blog. Então, vamos aos comentários sobre esse espaço:  para mim, é muito longe...  junto à Ponte Transamérica, na Marginal Pinheiros, em um lugar que só é possível acessar de carro. E chegando lá ainda é difícil estacionar. Impossível conseguir lugar na rua ( escura e sem movimento ). E se houver lugar, há sempre ´flanelinhas´  ali ( claro que só na hora em que o espetáculo começa, eles nunca estão ao final ). Então, o jeito é deixar o carro nos estacionamentos mesmo, e há duas opções: ou do próprio Teatro Alfa, coberto, com manobrista, ou do outro lado da rua, quase em frente à entrada do Teatro, descoberto, com piso de pedrisco ( e com poças quando chove ) e onde você mesmo guarda seu carro. Ambos são caros, mas adivinhem qual o menos caro? Pois é,  o estacionamento do Teatro.... vai entender!

Acredito que o Teatro Alfa seja uma das maiores casas de espetáculo de São Paulo. E ao contrário de outros espaços, foi construído especificamente para esse fim, para ser mesmo um teatro. Tem uma entrada imponente, um saguão grande, escadas de acesso bem amplas, e de modo geral é bem decorado, sem excessos kitches. Lá dentro da sala de espetáculos o palco também impressiona pelo tamanho, e de maneira geral os assentos são bastante confortáveis. Nessa visita aconteceu um susto e uma boa surpresa: o susto foi descobrir que os lugares que havia comprado ( frisa lateral ) eram separados por uma coluna de aço de 40cm de diâmetro....  Eu estava ciente de que seria um lugar ruim, mas na página do Ingresso Rápido não há a marcação das colunas. Mas em seguida veio a boa surpresa: nesse dia deveria haver muitos convidados da Chevrolet ( tinha uma equipe para atender aos convidados da marca ), mas imagino que muita gente não compareceu. Então pouco antes do início do espetáculo os funcionários do Teatro convidaram a todos para ir aos assentos da platéia, bem em frente ao palco. Ou seja, não ficaram em uma postura mesquinha de que ´quem pagou por platéia elevada ou frisa que fique aí´,  o que sem dúvida foi uma postura muito simpática da produção. Além do mais, acredito que para os atores em cena seja bem mais agradável ver a platéia ali na sua frente cheia do que encenar para poltronas vazias, e ter o pessoal espalhado lá pra cima, onde não se pode vê-los. E os convidados que não compareceram não devem mesmo ter feito falta....  com tantas desistências, imagino que a maioria da platéia que estava ali era quem realmente estava a fim de assistir ao espetáculo e pagou por isso, e não gente que está mais preocupada em ´fazer social´ no foyer, como é comum a gente ver nesses eventos, ou em pré-estréias.

Outra coisa que vale a pena registrar é o programa da peça. Na entrada há uma lojinha de souvenirs, como costuma acontecer nos grandes musicais,  vendendo canecas, camisetas, livros, discos, bottons... e programas. Fizeram um programa em formato de capa de LP, muito bonito, ótima impressão, tudo muito caprichado. Mas o valor é o equivalente à entrada de algumas peças em cartaz na cidade, ou mesmo de um livro... 

Mas finalmente falando sobre a peça, ´Elis, A Musical´  é da mesma empresa produtora dos musicais ´Hair´, ´Um Violinista no Telhado´  e ´Rock in Rio, O Musical´.  E é com esse último que ´Elis´  guarda muitas semelhanças. Alguns atores são os mesmos ( Cláudio Lins e Ícaro Silva - mas esse infelizmente não estava presente na noite em que assisti ), mas principalmente se nota a mesma proposta em relação ao cenário: poucos elementos que vão se transformando durante o desenrolar da história, sem ´paredes´  ou um pano de fundo que determine propriamente um ´lugar´,  e o apoio de projeções e painéis eletrônicos. O recurso é bem econômico para a produção, mas funciona. O que interessa mesmo é a música, acho que não haveria razão para cenários grandiosos. Em compensação os figurinos me pareceram caprichados, com as roupas tomando certa importância em algumas cenas, como no início da carreira da Elis, quando ela saía de Porto Alegre para o Rio de Janeiro, e na apresentação de ´Como Nossos Pais´,  onde há um grupo de hippies. Se bem que nesse momento eu achei a caracterização um tanto fantasiosa demais... Hippies em 1976?   Vai ver que quiseram aproveitar os figurinos de ´Hair´....

Fiz um comentário maldoso agora, mas estou ciente de que a proposta do musical não é ser um ´documentário´,  mas sim uma elegia àquela que provavelmente foi a maior cantora brasileira de todos os tempos. E ainda bem que foi assim....   não é necessário encenar o vício em drogas nem a morte por overdose. Tanto que o musical termina com ´Redescobrir´,  do Gonzaguinha, em uma grande roda com todo o elenco. Só que cheguei ao final antes do começo....

A peça tem início com as primeiras tentativas de se apresentar em público da adolescente Elis ( Laila Garin ), ainda em Porto Alegre.  Os primeiros shows de calouros em companhia da mãe ( Keila Bueno ), e depois o relativo sucesso na então provinciana capital gaúcha. Daí a obstinação da Elis em chegar ao Rio de Janeiro, junto com o pai ( Ricardo Vieira ) que nem sempre confiava que a filha estaria fazendo a coisa certa. Esse é o prólogo, mas a coisa começa a ficar interessante mesmo quando Elis chega ao Beco das Garrafas, e aí começa a conviver com Miele ( Germano Melo ), Ronaldo Bôscoli ( Tuca Andrada ), Lennie Dale ( Danilo Timm ).  Claro que são personagens muito mais ricos e interessantes que os pais de Elis, e a partir de ´Menino das Laranjas´  a personagem principal começa a mostrar a que veio.

Laila Garin não é fisicamente parecida com a Elis Regina, nem tem o timbre de voz que lembre a ´Pimentinha´.   Mas talvez por isso mesmo, se encaixa muito bem no papel. Caso a escolha tivesse sido por alguma atriz mais parecida, a gente ficaria sempre com a sensação de ´cover´,  e não é isso o que acontece. Em cena está uma ótima cantora ( que é claro, procura manter um registro parecido com as gravações da Elis ), mas que não entra na simples imitação. Por outro lado, para quem conhece momentos marcantes da carreira da Elis ( o ´eliscóptero´  de Arrastão, a gravação de ´Atrás da porta´, a entrevista para o Fernando Faro, no programa ´Ensaio´ )  vê que o trabalho de recriação dos trejeitos, da prosódia da Elis, foram muito bem-feitos. Aliás, um dos melhores momentos da peça é quando Lennie Dale faz um trabalho de corpo com Elis, em ensaios no ´Beco das Garrafas´. Danilo Timm sem dúvida rouba a cena quando aparece no palco, imagino que ele tenha uma formação em dança muito superior aos demais membros do elenco. Aliás, essa cena foi mesmo uma das minha preferidas, quando ela se apresenta com a formação bateria / baixo / piano.

Tuca Andrade como Ronaldo Bôscoli também me pareceu uma escolha adequada, ele consegue imprimir um tom cafajeste / simpático ao personagem, que trai a mulher e que chega mesmo a agredi-la, mas que sempre tem uma saída divertida para a situação. Já o Miele de Germano Melo eu achei um tanto ´bonzinho´  demais, até onde eu sei o Miele sempre foi um ´coadjuvante´  divertido e importantíssimo, mais do que simplesmente alguém que tem os amigos talentosos. E foi uma pena que na noite em que eu assisti ´Elis´ o Ícaro Silva não estivesse presente. Ele foi um dos destaques de ´Rock in Rio´,  e o personagem Jair Rodrigues teria sido um prato cheio para ele. Quem estava em cena era Lincoln Tornado, que se não chegou a ser uma presença marcante no palco, também não comprometeu. 

A peça vai acompanhando mais a trajetória da Elis com seu relacionamento amoroso com Bôscoli e suas gravações, e também vão aparecendo nomes como Milton Nascimento, Ivan Lins, João Bosco, Renato Teixeira. Até que chega o momento do relacionamento com César Camargo Mariano ( Claudio Lins ).  Não tenho tanto conhecimento sobre o Mariano para dizer se a caracterização estava de acordo com a pessoa ´real´  ou não, mas o que quero registrar é que a partir do momento em que há alguém ´menos louco´  ao lado dela, o enredo passa a tratar a Elis com mais humanidade, no sentido de que em contraste com a sensatez e a bondade do marido, a Elis é que passa a ser o elemento desagregador da relação ( como antes havia sido o Bôscoli ). Achei interessante esse posicionamento dos autores, trazer isso em cena, e não ficar na louvação de uma mítica ´super-Elis´  o tempo todo. E por falar em caracterização, o ponto baixo foi o Tom Jobim ( Leo Diniz ). Difícil de ver o Tom como praticamente um paspalho em cena, alienado, sem-noção....

Quanto aos números musicais, é claro que há certa variação de qualidade. Em geral, os momentos de coro são os menos interessantes, quando a Laila Garin está solo é melhor. Mas os duetos com o ´Jair Rodrigues´ são interessantes, e o pout-porri com músicas do Milton Nascimento. O ponto alto acho que foi a interpretação de ´Como nossos pais´, e o baixo...  ´As aparências enganam´,  cantada pelo personagem César Mariano ( Claudio Lins ). Apesar de pertinente com a trama, ficou algo arrastado, sem a força com que a gente está acostumado a ouvir nas gravações.

Claro que o fato de ser fã da Elis ajuda a mim e à platéia de modo geral a gostar do espetáculo. Mas é mesmo um bom musical, que presta uma homenagem bonita à Elis. Com o fato de muita gente ter se reposicionado dentro do teatro, aconteceu da peça começar um pouco atrasada, acho que uns 15 minutos. E só terminou depois de três horas ( incluindo o intervalo ), mas o que eu vi foram pessoas felizes saindo do teatro, e não gente louca para ir embora. Muitos saíram cantarolando suas músicas preferidas da Elis, e aposto que assim como eu várias pessoas procuraram colocar a Elis para tocar no carro, na volta pra casa. Realmente, saímos de lá com aquele gostinho de ´quero mais´.






Elis, A Musical
Com Laila Garin, Tuca Andrada, Claudio Lins, Germano Melo, Danilo Timm, Ricardo Vieira, Leo Diniz, Keila Bueno, Lincoln Tornado
Texto de Nelson Motta e Patrícia Andrade
Direção de Dennis Carvalho
Teatro Alfa até 13/jul/14

sábado, 10 de agosto de 2013

Rock In Rio

Mais uma vez, um musical. Esse nem estava na minha lista de prioridades, mas apareceu uma oportunidade de ir assistir, e lá fui eu mais uma vez ao Auditório Ibirapuera:



E não me arrependi nem um pouco, foi uma surpresa bastante agradável. Pra começar, ir ao Auditório Ibirapuera é sempre um prazer. Como arquiteto, nem preciso dizer da admiração que tenho pela obra do Niemeyer. E o velhinho mais uma vez acertou em cheio, é incrível ver a simplicidade com que a obra foi composta. Pra chegar a esse nível se síntese, de domínio espacial, só mesmo com muito, muito tempo de prancheta, e claro, um talento absurdo.

Lá dentro, além do foyer lindo com a escultura da Tomie Ohtake, a sala de espetáculos, por onde a gente chega através de uma rampa helicoidal, também é muito interessante. É um espaço muito mais largo do que profundo, com um palco gigante, uma boca de cena que eu acho que não tem igual em São Paulo. E o espaço para a platéia também é generoso, com boas poltronas, bom espaço para as pernas. Eu já havia visto vários shows nesse auditório, mas nunca uma peça de teatro.  E o fato de ser um musical, com bastante gente em cena fazendo o coro, fez com que o palco não ficasse ´sobrando´, o espaço foi bem ocupado durante a encenação.

Logo na primeira cena aparece o protagonista Alef (  Hugo Bonemer ), interpretando ´Pro dia nascer feliz´, do Cazuza e Frejat. Em seguida vão aparecendo outros atores caracterizados como Freddie Mercury, Elton John, Tina Turner... a primeira impressão foi de que assistiria a uma série de ´covers´  dos artistas que se apresentaram nas várias edições do festival. Mas não foi bem assim... 

A história trata do encontro de Alef, um universitário problemático, que deixou de emitir qualquer som desde que seu pai morreu, vítima da ditadura, 15 anos antes. Ele mora com a mãe ( Glória / Lucinha Lins ), professora de Literatura na mesma universidade onde seu filho estuda. Alef passa todo seu tempo livre ouvindo música, é a fuga dele da realidade. Em paralelo, somos também apresentados a Sofia ( Yasmin Gomlevsky ), filha do publicitário Orlando ( Claudio Lins, que só agora imaginei que poderia ser filho da Lucinha Lins  - e é ), que tem um desvio oposto:  desde que sua mãe, que era cantora, desapareceu, ela não suporta mais ouvir música. Daí fica na cara de que no final da história os dois jovens vão se encontrar e complementar um ao outro, e talvez mesmo os pais também acabassem formando outro casal ( mas disso o roteirista nos poupou ). Enfim, a história é uma bobajada que só serve mesmo para costurar os números musicais. O personagem Orlando  ( alter-ego do Roberto Medina, criador do Rock in Rio ), é um ser humano quase perfeito, um pai preocupado com a filha, que muito mais do que buscar o lucro, trabalhar para propiciar ao Brasil um momento de alegria depois da decepção da rejeição da emenda das diretas no fim da ditadura, que no momento em que fraqueja é levado a recomeçar pela lembrança das lições que seu pai lhe ensinou... Orlando é alguém que vai atrás de seus objetivos, sempre com ética, com altos ideais...  espero mesmo que o Roberto Medina seja tão bom-caráter quanto o personagem Orlando, mas para mim, soou como algo ´chapa-branca´, puxa-saquismo demais...  enfim, até mais do que em outros musicais, a história em si é uma bobajada.

Mas no meio disso tudo, tem dois personagens que se destacam: Marvin, interpretado por Ícaro Silva, e Geraldo, por Caike Luna. Marvin é um colega de Alef, safo, desbocado, com respostas rápidas e irônicas. Da boca do personagem Marvin saem as melhores piadas do texto, e é claro, com esse nome ele interpreta ´Marvin´, que fez sucesso no Brasil na versão dos Titãs. Já Geraldo é o assistente gay do Orlando, um homossexual daqueles de programas de humor popular: exagerado, escrachado, dramático... mas com muito carisma, e com provocações dirigidas ao deputado Marcos Feliciano, tratando da ´cura gay´, que eram cacos muito bem inseridos nas falas. 

Outra coisa: quando eu digo ´personagens que se destacam´, é porque são os que realmente abrem espaço para os atores brilharem. Os outros são meros instrumentos, são personalidades simplórias: o colega de turma drogado, a trabalhadora explorada na loja de discos, a menina sem opinião própria que busca se inserir na turma seguindo os outros, o garoto que esconde sua predileção musical para não ser ridicularizado pelos amigos...  enfim, são personagens que estão na faculdade, mas que poderiam perfeitamente compor uma dessas ´sitcoms´  americanas passadas no ´high-school´. O que por outro lado ajuda na identificação da platéia com a situação apresentada no palco, já que o público, ao contrário do que se vê normalmente nos espetáculos teatrais, na sua maioria era bem jovem.

Os números musicais, que aliás são muitos, na média são bem executados. Há uma pequena banda nos fundos, à esquerda do palco, que obviamente dá suporte ao que acontece em cena, mas os músicos não interagem fisicamente com os atores. Alguns números são muito bem encaixados na trama, como ´Primeiros erros´, do Kiko Zambianchi, e ´Ovelha Negra´ da Rita Lee ( apesar de ser  uma escolha um tanto óbvia ).  Outros são só um jeito de registrar a passagem de alguns artistas...  mas a música que me irritou foi a versão em português de ´Don´t let the sun go down on me´, do Elton John...  a versão foi péssima, acabou com a letra. Por outro lado, foi bonito ver a Lucinha Lins cantando ´You´ve got a friend´, e principalmente ´Desesperar jamais´, do Ivan Lins e Vitor Martins. É claro que ter gostado disso também reflete as minhas preferências pessoais, mas esse blog não é de um crítico especializado que pretensamente vai analisar o que vê com neutralidade ( coisa que aliás, não acredito que aconteça ).

Enfim, a história é uma bobajada, o cenário não é grande coisa, nem os figurinos. Como os personagens são bem planos, também não há grandes atuações. Não gosto de todas as músicas que foram apresentadas, aliás, não gosto de muitas delas, mas no final das contas, a coisa toda funciona. É um espetáculo demorado, são quase três horas de encenação ( claro, há um intervalo ), mas a sensação ao sair de lá é de que vimos um espetáculo agradável, com uma história que a gente sabe desde o início como vai terminar, que é longa para dar conta de conectar tantas músicas ( aliás,  fazem a gente ouvir mil vezes o tema musical do Rock in Rio...).  Mas no final o saldo é positivo, o conjunto todo funciona bem. E na última cena tem o que acredito seja o maior momento de todas as edições do festival: ´Love of my life´,  com a projeção do Freddie Mercury num telão. Valeu.




Rock in Rio
Com Hugo Bonemer, Yasmin Gomlevsky, Lucinha Lins, Claudio Lins, Ícaro Silva, Caike Luna
Direção de João Fonseca
Texto e versões musicais de Rodrigo Nogueira
Auditório Ibirapuera, até 11/ago/13