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terça-feira, 3 de setembro de 2013

La Mamma

´La Mamma´  está em cartaz no Teatro Nair Bello, o mesmo onde assisti ´A Descida do Monte Morgan´. Foi a primeira vez em que fiquei lá no fundo, nas últimas fileiras. E como eu havia imaginado, mesmo de lá dá para ter uma boa visualização do palco - o teatro não é muito profundo, e os degraus entre as fileiras são grandes. O problema é que realmente não há muito espaço entre uma fileira e outra, fica complicado manter a circulação de sangue nas pernas... 


Assim como em ´Monte Morgan´, quando o público entra o cenário já está à vista. O que vemos é uma sala de estar de uma casa dos anos 50, com um sofá central em courvin azul, à direita uma mesa e quatro cadeiras com pés-palito, também revestidas em courvin, e mais um aparador com um telefone. Do lado esquerdo há uma pequena escada que daria acesso aos quartos ( que já estão fora de cena ), e em primeiro plano, um oratório.  Com exceção de um pequeno momento em que o oratório é iluminado como se a luz estivesse passando por um vitral, e portanto a ação se desloca para o interior de uma igreja, no mais toda a peça se desenrola nessa sala de estar. Há também o recurso cênico de uma tela ao fundo, por cima da parede de fundo da sala, onde em alguns momentos são feitas projeções de fotos do casamento de um dos personagens. 

A peça é uma adaptação de ´O Belo Antônio´, de Vitaliano Brancati, que tem uma versão em cinema clássica, com o Marcello Mastroiani, mas agora, é uma comédia centrada na figura da matriarca, a Mamma. Na noite em que assisti, quem participou da peça não foi a Rosi Campos, que aparece no programa, mas sua substituta, Arlete Montenegro. 

A Mamma é uma viúva que mora em Santa Rita, e que tem como seu maior orgulho o filho Antônio ( Leonardo Miggiorin ), um rapaz bonito e bem sucedido, que conseguiu um bom emprego depois de um período em São Paulo. Além disso, tem uma vasta fama de namorador, daqueles que não deixa passar uma mulher incólume, o que leva a queixas do Padre da cidade ( Carlo Briani ). Ela também é a mãe de Aldo, também representado pelo Leonardo, mas que ao contrário do irmão, é feio, desleixado, e que sempre viveu com a mãe. 

Antônio se apaixona à primeira vista pela filha do Tabelião da cidade, chamada Bárbara ( Débora Gomes, que também interpreta a empregada doméstica Rosina ). Ela é uma moça pura e inocente, que não faz idéia nem como as crianças são geradas, pois foi educada num convento. E depois de mais de dois anos de um casamento feliz, Bárbara descobre que está sendo enganada por Antônio. Não que ela esteja sendo traída, mas está sendo enganada porque descobre que ela não é efetivamente sua mulher, pois nunca tiveram nenhuma relação sexual. 

É aí que entra em cena o Tabelião ( Carlo Briani, que já tinha aparecido em cena como o Padre ), pois o pai da moça vai à casa de Mamma para explicitar a situação e dizer que está pedindo a anulação do matrimônio e sua filha de volta, já que o casamento não foi consumado. A Mamma, claro, em um primeiro momento não acredita que seu filho, o galã da cidade, possa ter deixado que sua esposa permanecesse virgem. Mas depois, ao fazer com que seu irmão Gildo ( novamente Carlo Briani ), que veio morar em sua casa durante um tempo, converse com seu filho Antônio, ela toma consciência de que o que o Tabelião falou é verdade, e começa a armar um plano para salvar a honra de seu filho e de sua família, pois a cidade toda já fofoca sobre o assunto. Daí pra frente não vou mais contar o enredo, já que a peça fica em cartaz durante um bom tempo ainda.

´La Mamma´  é uma comédia popular, uma peça de entendimento simples, sem nenhuma ousadia. Dá até a impressão de que a gente está assistindo a algum seriado na tv. Aliás, não, se fosse um programa de tv, seria uma reprise... o que a gente assiste hoje em dia é mais explícito no conteúdo sexual, ou mais arrojado na encenação, ou até as duas coisas. ´La Mamma´, se fosse filmado, poderia ser em preto-e-branco, ou então poderia ser uma daquelas rádio-novelas antigas.  Não há nada de errado em ser uma peça popular, de entretenimento fácil, mas sinceramente, depois de ver o Leonardo Miggiorin em ´Equus´  e em ´Lampião e Lancelote´,  acho que essa peça pode servir para pagar as contas, já que ele também é responsável pela produção, mas de qualquer maneira, é um desperdício de talento. 

Não que a atuação dele seja ruim, não é. Toda a encenação é caricata, os personagens são sempre muito marcados, não só do Leonardo, mas todos. Claro que o destaque vai para a Mamma, no caso, a Arlete Montenegro, que fala com o sotaque ítalo-paulista que se esperava. Aliás, mais do que imaginar como seria essa personagem com a Rosi Campos, fiquei pensando em como seria com a atriz que dá nome ao teatro, a Nair Bello, que afinal, era a própria paulista italiana... 

Em ´La Mamma´ tudo é muito básico. Mesmo os atores fazendo mais de um personagem, as mudanças, que sempre acontecem fora de cena, são tão claras, tão marcadas, que ter dois ou mais personagens para o mesmo ator não chega a ser ousadia. Dá até pra imaginar que é mais uma medida de economia mesmo...  O cenário reproduz uma casa de classe média dos anos 50, com cadeiras pés-de-palito, cores cítricas nos revestimentos, e uma cadeira é sempre uma cadeira, um sofá é um sofá... nada que seja uma alusão, uma poesia, tudo é o que é. Os figurinos são adequados, mas nada que chame a atenção. Não sou capaz de lembrar de nada da trilha sonora, não foi nada marcante ( aliás, quando entramos e quando saímos, tocavam músicas da Jovem Guarda ).  A iluminação, com exceção do momento em que a Mamma vai à igreja e há a projeção da luz que falei no início, também não tem grande expressão no espetáculo. Resumindo: tudo é ok, funciona, a peça diverte seu público, mas... não vai deixar lembranças. Enfim, saí do teatro com a impressão de que fui assistir a uma encenação certinha, divertidinha, bonitinha, engraçadinha...  e que não acrescenta nada.



La Mamma
Com Rosi Campos, Leonardo Miggiorin, Carlo Briani e Débora Gomez
Direção de Carlos Artur Thiré
Adaptação de Jean-Marie Roussin, sobre a obra de Vitaliano Brancati
Teatro Nair Bello, até 01/dez/13


segunda-feira, 17 de junho de 2013

A Descida do Monte Morgan

Finalmente a primeira peça de junho: A Descida do Monte Morgan




A peça está em cartaz no Teatro Nair Bello, que também fica no Shopping Frei Caneca, assim como o teatro do mesmo nome. Mas é um espaço bem menor, onde funciona a escola de atores do Wolf Maia, e é também menos confortável. A visualização do palco é boa, já que o espaço é pequeno e os degraus entre as fileiras é grande, então mesmo que alguém alto sente na frente,  não atrapalha. Mas a distância entre as poltronas é mínima, fica difícil passar se alguém já estiver sentado, e cruzar as pernas, então, nem pensar.

Quando entramos, não havia cortinas fechadas, o cenário já estava à mostra. Eram vários móveis e objetos espalhados em cena, e como o teatro conta com um pequeno mezanino no palco, que circunda todo o espaço, havia ali também vários ítens, bem como alguns até pendurados a partir do teto. Avião de radiocontrole,  bicicletas, raquetes de tênis, tinha de tudo pendurado. Depois, vamos percebendo que esses objetos têm a ver com a narrativa, são como ´pedaços de memória´ dos personagens que estão ali expostos. No  nível do palco, ao fundo, cômodas, mesas, armários, e bem ao centro, uma cama de hospital.

A peça de Arthur Miller é sobre um bígamo, um homem bem-sucedido que se apaixona por uma mulher mais nova, casa com ela, mas mantém o casamento antigo. Só que ele acaba se acidentando quando descia de automóvel o tal Monte Morgan que dá título à peça, e ao ser encontrado ferido, pela placa do carro a polícia localiza a família ´oficial´ em Nova York, e a avisa. Mas o tal Monte Morgan fica na cidade pequena onde ele mantém a amante...  e é quando ele está se recuperando no hospital que as duas esposas se encontram na sala de espera, e acabam descobrindo toda a verdade. A partir daí a história segue um curso que se pode dizer ´clássico´,  com as reações das mulheres e da filha do primeiro casamento. As decepções, as reações de incredulidade das esposas, a revolta da filha, tudo é dentro do esperado. O que sai do padrão no enredo é a postura do bígamo...

O tal homem ( Lyman Felt / Ary França ), por mais que esteja ciente da situação complicadíssima em que se meteu, inclusive por ser um empresário de sucesso e uma figura pública, com a imprensa tratando do caso, tem uma postura que vai além do arrependimento: ele também questiona a fidelidade, de um modo mais profundo do que simplesmente a fidelidade ao parceiro: questiona a fidelidade a seus próprios princípios, e vê que isso ele não traiu. E é a partir disso que a trama não se torna uma história banal.

Conforme já dito, a reação das duas esposas, a primeira ( Theodora Felt / Lavínia Pannunzio ), e a segunda ( Leah Felt / Samya Pascotto ) ao saber da traição do marido é a que se espera. Mas depois, ele vai lembrando às duas que os últimos nove anos, o período do duplo casamento, foi o melhor período da vida de todos, nunca antes foram tão felizes. Ambas estavam satisfeitas até então. E ele, que admirava profundamente as duas, também era feliz, por conseguir fazê-las felizes. Mas ele também afirma ser o mais prejudicado entre todos por aquela situação, já que era ele quem tinha que se desdobrar para manter as duas esposas. A partir disso, então, qual o mal que ele realmente causou? Ele se justifica dizendo que fez o que seu coração mandava, nunca traiu seus sentimentos... E questiona se isso que ele fez está errado, se ele deveria ter traído seus sentimentos ou traído as suas esposas, e concluindo que não se traiu, fez o certo... O que é uma saída bem interessante para quem foi pego num flagrante de bigamia.

A encenação é bastante interessante: na primeira cena, quando Lyman Felt é atendido na cama do hospital pela enfermeira Logan ( Jú Colombo ), a gente fica sabendo da angústia do personagem principal ao se dar conta do que certamente acontecerá, que é o encontro das duas mulheres. Daí, há um corte para a sala de espera, onde chegam a primeira esposa, Theo, junto com a filha Bessie ( Paula Ravache ), e depois a segunda esposa, Leah. Mas além do drama que se desenrola, da descoberta da traição, tem algo interessantíssimo acontecendo na cena: Lyman sai da cama e vai acompanhando a conversa entre as suas duas mulheres e a filha, e fazendo comentários sobre o que elas dizem, como se fosse um fantasma. E daí pra frente, a cada vez que algum personagem sai de cena, não sai do palco. Ficam sempre no fundo, numa área de penumbra, acompanhando o que acontece no centro do palco, e entram para participar conforme a cena.

Mais uma vez, acho que não cabe aqui ficar discorrendo sobre todo o enredo. A peça é uma comédia, sem dúvida, mas também tem momentos de drama, e tudo vai se alternando, já que a história não é contada de modo linear, mas se utiliza de ´flahsbacks´.  O Ary França, mais uma vez mostra que é um grande ator, dá credibilidade aos sentimentos do Lyman, mostrando a angústia ao saber que vai ser desmascarado, a ternura com suas duas mulheres e sua filha, o desamparo ao ver que ficará sem as duas, a busca de conselho e depois de alguma cumplicidade com seu advogado e amigo Tom ( Fábio Nassar ). Outra interpretação de destaque foi da Lavínia Pannunzio, como a mulher madura e traída que de repente vê seu mundo desmoronar. Já a Samya Pascotto entrou nitidamente nervosa, errando as falas, com um gestual exagerado. Depois, fomos informados que a sessão em que eu estive presente foi a primeira atuação dela na peça ( no programa ela aparece como assistente de direção ). Isso deve explicar o nervosismo...  Mas por outro lado, fiquei decepcionado com a atuação do Fábio Nassar. Eu o conhecia dos programas da tv com a Denise Fraga, mas ali ao vivo, no teatro, ele parecia deslocado, simplesmente falando as suas cenas, e não propriamente interpretando. Uma pena.

Mas no cômputo geral, gostei, vale a pena assistir. Existe uma verdadeira simbiose entre cenário, enredo e encenação, algo que não se vê normalmente de um modo tão bem concatenado. O texto é muito rico, como era de se esperar de um dramaturgo que é considerado um dos maiores do século XX nos Estados Unidos. O Ary França, que na última peça que havia assistido com ele ( Como se tornar uma super-mãe em 10 lições ) simplesmente não saía do lugar e fazia rir somente com as expressões do rosto, dessa vez mostrou uma vitalidade impressionante, se deslocando por todo o cenário praticamente o tempo todo. E a peça não é curta, são quase duas horas de encenação... 




A Descida do Monte Morgan
Com Ary França, Lavínia Pannunzio, Samya Pascotto, Fábio Nassar, Paula Ravache, Jú Colombo
Direção de Luiz Villaça
Texto de Arthur Miller
Teatro Nair Bello,  até 14/jul/13