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domingo, 6 de abril de 2014

O que o mordomo viu

Primeira visita, em anos, ao Teatro Procópio Ferreira:

Incrível que uma produção desse porte não conte com um programa impresso. Essa é uma imagem da internet


Acredito que esse teatro seja um dos mais antigos de São Paulo em atividade. Fica na Rua Augusta, mas do ´lado oposto´  ao Teatro Augusta, ou seja, para  o lado do Jardins, e não da Bela Vista. A construção não tem nenhum charme, a fachada é apenas de mais uma loja na rua. A bilheteria fica quase na calçada, junto com as catracas - diferente de outros espaços, não há somente um funcionário controlando o acesso, mas há um equipamento ali para isso. Depois a construção continua com a mesma largura da fachada, e após subir alguns poucos degraus, do lado esquerdo há a bombonière.  Então finalmente se chega ao ´foyer´, que é um corredor perpendicular às entradas da sala de espetáculos. Ou seja, não há foyer....  as pessoas se concentram nos corredores enquanto as portas não são abertas, e não há espaço para todo o público. Por isso é que a calçada em frente chega a ficar cheia de gente também. Nas noites de chuva deve ser complicado aguardar a abertura da sala de espetáculos....

Lá dentro a sala é confortável,  com um espaço razoável entre as poltronas. Porém pessoas mais baixas podem ter dificuldade de visualizar o palco dependendo de quem estiver à frente, já que o desnível entre os degraus é pequeno. Além disso as poltronas não estão em bom estado de conservação, com o couro bem ressecado, estofamento já achatado...   o espaço está precisando  de mais uma reforma. Talvez por isso o espetáculo tenha atrasado, o Miguel Falabella saiu de trás das cortinas para pedir desculpas pelo atraso, mas estavam com problemas no som. Depois de alguns minutos a peça finalmente teve início sem o uso de microfones. Isso deve exigir muito dos atores, ainda mais em uma noite com sessão dupla, mas sinceramente, eu prefiro assim. Não gosto de peças com microfone, dá uma sensação de artificialidade.

Ainda não comentei, mas fui ver esse espetáculo basicamente pela presença do Miguel Falabella. Mas até hoje só o tinha visto em musicais, sendo o último deles ´Alô Dolly´. Essa era a primeira vez em uma peça ´comum´,  e com a presença de outra grande comediante, mas que eu não havia visto ainda ao vivo, Marisa Orth.  Os dois fizeram uma dupla de muito sucesso durante anos na televisão, com o programa ´Sai de Baixo´,  da Rede Globo, aliás, gravado nesse mesmo teatro.

A presença de dois atores tão populares só poderia chamar mesmo muito público, e o teatro estava absolutamente lotado. Felizmente, tirando por uma única exceção - uma mulher que atendeu ao celular logo no início da peça, ( e começou a falar! ), tendo sido retirada pelo pessoal do teatro, o resto do público se comportou muito bem. Claro que em uma comédia as pessoas vão rir, se expressar, nada contra isso. O que me irrita são as conversas paralelas, que eu acho uma total falta de respeito com as outras pessoas, tanto do público quanto com quem está em cena.

Mas o que interessa mesmo é a peça. O cenário é fixo, todo branco. É o consultório de um psiquiatra, onde a gente vê à direita a mesa, um pouco atrás uma maca envolta por uma cortina, de modo a criar um espaço reservado. Ao centro, há na parede uma janela e uma porta, que dão para o ´jardim´  da clínica. Na extremidade esquerda há um pequeno sofá, vaso, estante, e mais uma porta. A ação tem início com a entrevista do Dr. Arnaldo ( Miguel Falabella ) com uma pretendente ao cargo de sua secretária, Denise Barcca com dois ´c´, ( Alessandra Verney ) como a personagem faz questão de frisar. O Dr. Arnaldo é um mau-caráter que tenta ludibriar a pretendente e a faz tirar a roupa para a entrevista de emprego. Só que nesse momento irrompe à sala a sua esposa, Mirtes ( Marisa Orth ), e a primeira confusão está armada.

Daí pra frente é uma sucessão de situações-limite que causam o efeito cômico, pois a verdade está sempre a um milímetro de ser descoberta: logo aparece o presidente do conselho de psiquiatria, Dr. Ranço ( Marcello Picchi ) para fazer uma inspeção na clínica do Dr. Arnaldo.  A partir daí o Dr. Arnaldo tem que se virar para conseguir dar conta de ludibriar ao mesmo tempo a esposa e o presidente do conselho. E as coisas vão só se complicando, pois a esposa é uma ninfomaníaca que foi fotografada na noite anterior com um funcionário de um hotel decadente da cidade e que agora a está chantageando ( Nico / Magno Bandarz ).

A candidata a secretária é dopada pelo Dr. Arnaldo, mas sendo considerada desaparecida, entra em cena o policial Matos ( Ubiracy Paraná do Brasil ), sendo que ele também está atrás do chantagista Nico. Ou seja, todo mundo tem o ´rabo preso´,  e a maior parte das situações cômicas vem das estratégias para dissimular dos outros o que realmente está acontecendo. E com isso, dá-lhe se esconder, se travestir, ter respostas na ponta da língua....  O ritmo não cai em nenhum momento, há sempre uma situação-limite acontecendo.

Sem dúvida o grande atrativo é ver a dupla Miguel Falabella / Marisa Orth em cena. Eu não era grande fã do seriado ´Sai de Baixo´, mas é impossível não pensar nele, principalmente pelo personagem do Falabella, que é capaz de transformar qualquer limão em limonada num piscar de olhos. É o Falabella o grande astro da peça, mais até que a Marisa Orth, e claro, os demais são meros coadjuvantes,  apesar de que vale a pena destacar o trabalho do Marcelo Picchi e da Alessandra Verney. Mas todo o elenco está bastante afiado, para que a história não se perca é necessária uma sincronia perfeita entre os atores, pois em vários momentos é por apenas um instante que as mentiras de cada personagem não é descoberta. E essa sincronia é perfeita, em todas as cenas.

´O que o mordomo viu´  é claramente uma comédia popular, feita para divertir o grande público e consegue o seu objetivo. Sem grandes pretensões artísticas ou culturais, é um ótimo entretenimento, a gente vê na cara das pessoas ao sair do teatro que todos se divertiram bastante. E não é também para isso que a gente sai de casa?






´O que o mordomo viu!´
Com Miguel Falabella, Marisa Orth, Marcello Picchi, Alessandra Verney, Magno Bandarz e Ubiracy Paraná do Brasil
Texto de Joe Orton, tradução de Miguel Falabella
Direção de Cininha de Paula e Miguel Falabella
Teatro Procópio Ferreira, SP, até 27/jul/14

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

A Madrinha Embriagada

E lá fui eu assistir a um musical outra vez... pra quem já declarou que não é especialmente fã de musicais, nesse ano estou fora do padrão. Em todo caso,  havia dois bons motivos para assistir a esse espetáculo: era mais um trabalho do Miguel Falabella, e dessa vez os ingressos eram gratuitos. Não vou falar sobre o espaço físico do teatro, já fiz alguns comentários no post sobre ´Lampião e Lancelote´. O público não diferia muito do pessoal que normalmente frequenta o teatro da Fiesp, já que lá os ingressos são sempre a preços populares. E ao contrário do que acontece muitas vezes em espaços mais ´sofisticados´,  o comportamento do pessoal foi exemplar. Não vi ninguém conversando, fotografando, acessando o Facebook durante a peça.



O Sesi-SP bancou a produção, que vai ficar em cartaz durante 11 meses em São Paulo com entrada gratuita. Ao que parece foi feito um investimento de 14 milhões de reais, e que tem como justificativa a ´formação de público´ para os musicais. É claro que sou totalmente a favor desse tipo de investimento, quem dera outras associações também bancassem espetáculos como esse. Mas não dá pra deixar de registrar que a se há algum problema de acesso da população aos musicais em São Paulo não é de falta de público. O público não precisa ser ´formado´, não acredito que as pessoas que não frequentam esses espetáculos não o façam por não compreender o formato, mas sim pela falta de dinheiro para bancar os preços dos ingressos. Mesmo assim, os musicais ficam meses em cartaz, com valores que chegam a quase 300 reais para quem como eu, tem que pagar o ingresso ´inteiro´, sem descontos de idoso ou estudante. Ou seja, acredito que o que limita o acesso a esse tipo de espetáculo é a questão financeira e não o entendimento da obra. Diferente de ópera, por exemplo, onde há um preconceito contra o formato.

Mas esse musical além de ser gratuito, ainda conta com a direção do Miguel Falabella, o que é uma garantia de qualidade. E não me decepcionei... Dessa vez ele não está no palco, mas dá para perceber claramente a mão dele na peça. Claro que não conheço o texto original da Broadway, mas seja como for, duvido que seja melhor do que essa adaptação para a realidade paulistana que o Falabella fez. A peça tem uma certa ´melancolia doce´, em que a gente sente uma saudade do que não viveu, e há também um respeito pelos mais velhos, um olhar generoso sobre as imperfeições humanas, que eu percebo claramente como marcas do trabalho do Falabella.

A peça é um musical dentro de uma outra peça, a gente vai acompanhando um pouco da vida do ´Homem da Poltrona´ ( Ivan Parente ), um divorciado que mora sozinho em seu apartamento, através dos comentários que são feitos diretamente para a platéia, quebrando a ´quarta parede´. Ele herdou da mãe não só uma coleção de discos de vinil antigos como também a paixão pelos velhos musicais.  E ao contar um pouco de sua vida e de seus interesses, é que ele coloca o primeiro LP de um álbum duplo do que seria a gravação original do musical ´A Madrinha Embriagada´, que teria sido apresentado no Theatro São Pedro em 1928. E aí começa a mágica... os personagens vão entrando em cena, e o ´Homem da Poltrona´ não só vai narrando o que vai acontecer no musical, como também tece comentários bastante espirituosos sobre a estrutura desse tipo de espetáculo, as histórias de vida dos velhos atores, as vaidades e pequenas loucuras das atrizes... então, são várias ´camadas´  de histórias que vão sendo apresentadas no palco.

A encenação toda tinha um ar de fantasia. No início, o cenário evoca um salão de festas de um casarão,  que depois vira um dormitório, ou mesmo um salão de festas de um hotel, mas sem procurar reproduzir esses ambientes com minúcias, e sim através de citações visuais. Havia duas saídas ´lúdicas´ do palco, uma geladeira que se transforma em porta, e uma cama que era rotacionada e a base dela era transformada numa parede. Os figurinos, mais uma vez do Fause Haten, assim como em ´Alô Dolly´,  eram incríveis. Os que mais gostei foram os da ´Madame Francisca´ (Ivanna Domenyco ), que logo em sua primeira aparição tem uma fala que se refere diretamente à sua roupa, aos padeiros ( Rafael Machado e Daniel Monteiro ), que ao final do espetáculo reaparecem como bailarinos com um ´collant´  xadrez, em cinza e preto, que remetia ao primeiro figurino da dupla, e ao mordomo Agildo ( Edgar Bustamante ), que na versão brasileira foi transformado em uma citação ( inclusive no corte de cabelo ) àquele personagem que tinha como bordão ´múmia paralítica´, interpretado pelo Agildo Ribeiro - muito legal. Mas os demais personagens, o galã, a musa, em todos a gente percebia a qualidade do trabalho de figurinos muito acima da média.

A peça tem várias piadas, é uma comédia, e não são só piadas faladas, mas gags visuais também. Claro que não vou contar o texto aqui, mas das piadas visuais dá pra falar: tem um momento que achei divertidíssimo, onde o narrador, o homem da poltrona, diz que desgosta de uma cena e por isso acelera a música. Com isso os personagens que estão no palco naquele momento, Agildo e Madame Francisca, também aceleram seus movimentos numa sincronia incrível. Aliás, as marcações de todo o espetáculo são absolutamente precisas, a gente vê a sincronia perfeita em vários momentos. E ia esquecendo de dizer: nas laterais do palco ficam os músicos, em dois tablados mais ou menos a uns três metros de altura. Esses tablados se encaixam na continuidade de algumas paredes cênicas, e são cercados por um tecido semi-transparente. Então, conforme o momento, a iluminação desses tecidos oculta ou revela a presença dos músicos - também achei um recurso muito interessante. 

Ainda nem falei dos personagens principais, Jane Valadão ( Sara Sarres ), Frederico Reuter ( Roberto Marcos, que também estava em Alô Dolly ) e a Madrinha ( Stella Miranda ).  Frederico é um rico herdeiro, um homem praticamente perfeito, bonito, educado... Jane é uma atriz famosíssima, mas que está entediada com sua carreira e quer desistir de tudo para se casar com Frederico, pois se apaixonaram à primeira vista - literalmente. E a Madrinha ( Stella Miranda ) que está no título da peça, é uma senhora que vive embriagada, obviamente, e que colabora para a grande confusão que acontece quando entra em cena o amante latino, o argentino ´Adolpho´ ( Cleto Baccic, que também é responsável pela produção do espetáculo ).  Quem introduz o Adolpho na história é o ´Sr. Iglesias´ ( Saulo Vasconcellos ), o produtor de Jane Valadão, que não quer perder sua principal atriz, e ainda é chantageado pelos padeiros a impedir o casamento de Jane e Frederico de qualquer maneira. É por isso que ele leva Adolpho à casa de Madame Francisca, para seduzir Jane. Mas por um mal-entendido, ele acaba seduzindo a Madrinha... enfim, existem as trapalhadas no enredo que propiciam as reviravoltas cômicas que vão mantendo a peça sempre interessante. Sobre os atores, todos vão muito bem, mas eu acho que os destaques da noite foram a Stella Miranda, o Edgard Bustamante e o Cleto Baccic. O ´Adolpho´  é um tipo desprezível, caricato ao extremo, e por isso mesmo muito divertido. Também muito divertida é a ´Eva´ ( Kiara Sasso ), uma vedete que pretende herdar o lugar de Jane Valadão no estrelato, e que tem uma voz extremamente estridente, irritante. Enfim, é todo um universo lúdico e muito engraçado, o tempo todo tem algo muito interessante acontecendo em cena. 

É tanta coisa que estava esquecendo de comentar: não há intervalo, o Homem da Poltrona reclama que nos intervalos a magia se esvai e voltamos à realidade das filas nos banheiros... Mas em algum momento termina o primeiro LP e ele tem que colocar o segundo, obviamente ( é bom lembrar que a narrativa vai acontecendo como se fosse acompanhando dois LPs ).  Quando entra o segundo disco, há uma mudança de cenário, com uma cortina com padrões que remetem à China - e que não tem nada a ver com o enredo até então. Daí aparecem alguns atores caracterizados como chineses, e tem início uma cena curta, que logo é interrompida pelo Homem da Poltrona ao se desculpar com a platéia: a empregada doméstica que cuida de seu apartamento não tem o cuidado de guardar cada disco em sua respectiva capa, e ele acabou colocando a trilha sonora de outro musical. A cara do Cleto Baccic, caracterizado como chinês, olhando feio para o Homem da Poltrona pelo erro parece coisa de desenho animado. Ou seja, em alguns momentos o narrador e os personagens interagem diretamente, e fica esse jogo metalinguístico - o narrador se dirige à platéia, os personagens se dirigem ao narrador...

Claro que no final do enredo tudo dá certo, com a providencial entrada em cena de ´Dora, a Aviadora´, ( Adriana Capparelli ), que ajuda no desenlace feliz. E se às vezes a gente sai do teatro pensando que o ´final feliz´ é algo um tanto sem graça por muitas vezes ser o óbvio, em ´A Madrinha Embriagada´  existir essa solução de acabar tudo bem é totalmente pertinente. Não teria sentido acompanhar um trabalho de tão alto-astral que terminasse num tom de tristeza. Por mais que haja uma certa melancolia permeando a história, no final a gente sai feliz simplesmente por ter estado presente ao teatro. Foi interessante ver como a platéia saiu cheia de sorrisos, as pessoas realmente curtiram muito o que viram - e eu também.

É tanta coisa que nem falei das músicas: sinceramente, acho que nenhuma tem uma melodia que ´grude´  na cabeça, que faça a gente sair cantarolando depois. Mas funcionam na peça. Aliás, acho até que ao contrário do que o Narrador afirma, e que é comum nos musicais, de que a história é só um pretexto para unir as músicas, nesse caso não foi essa a impressão que tive, tanto que até agora eu nem tinha citado a parte musical. O que não quer dizer que esse aspecto tenha sido ruim, há momentos muito bonitos, com a entrada do ´coro´ em cena, preenchendo todo o palco, e também quando o Frederico e seu amigo Jorge ( Fernando Rocha ), fazem um número de sapateado.


Dessa vez estou comentando sobre um espetáculo que está em início de uma longa temporada, então, a quem ler esse texto, fica a dica: não deixe de ver ´A Madrinha Embriagada´, duvido que não vá se divertir muito.


 A Madrinha Embriagada
Com  Ivan Parente, Roberto Marcos, Stella Miranda, Cleto Baccic, Sara Sarres, Saulo Vasconcellos, Kiara Sasso
Direção e versão brasileira: Miguel Falabella
Texto original de Bob Martin e Don Mc Kellar
Teatro do Sesi - até 29/jun/2014
 




segunda-feira, 27 de maio de 2013

Alô Dolly

Finalmente fui assistir ´Alô Dolly´, no Teatro Bradesco:




Musicais não são exatamente a minha preferência no teatro, às vezes acho a ´relação custo-benefício´ complicada, porque essas grandes produções que de uns anos para cá passaram a ficar disponíveis em São Paulo normalmente têm preços exorbitantes.  Por outro lado, desde que vi o Miguel Falabella em um outro musical, Hairspray, passei a ser fã do trabalho dele no teatro, eu que nunca me diverti muito com os programas humorísticos em que ele aparece na televisão. Mas no teatro, eu tiro o chapéu para o trabalho do Falabella, que faz valer o ingresso.

Sendo assim, é claro que a minha tendência era de gostar do espetáculo,  ainda mais com a participação também da Marília Pêra, que dispensa apresentações. E não me decepcionei, de modo algum.

O Teatro Bradesco fica dentro do Shopping Pompéia, o que dá acesso fácil a quem vai de carro, e ainda permite uma passadinha na praça de alimentação antes de entrar. É um espaço confortável, na minha opinião com uma decoração mais pretensiosa do que propriamente luxuosa, mas em todo caso, acho que é hoje uma das melhores casas de espetáculos de São Paulo, com poltronas confortáveis, acesso fácil, boa visualização do palco. Acho que só quem sentou nas primeiríssimas fileiras é que se arrependeu, pois o palco é bastante alto, e com certeza dali não se pode ver bem - mas não foi o meu caso. E por incrível que pareça, mesmo havendo em cena duas grandes estrelas da tv, o público se comportou como deveria ser sempre... pelo menos onde eu estava sentado, não teve ninguém usando o celular ou se deslumbrando ao ver os atores da tv em cena. E olhe que fui numa quinta-feira, cheguei em casa e estavam o Falabella e a Marília aparecendo na Globo em ´Pé na cova´...  Milagres acontecem.

Mas o que interessa mesmo é a peça. O enredo trata de uma viúva que vive de arrumar casamentos ( Dolly Levi  / Marília Pêra ), e que foi contratada por um comerciante rico e avarento da pequena cidade de Yonkers (  Horácio Vandergelder / Miguel Falabella ). Esse Horácio é um tipo absolutamente detestável, grosseiro, humilha os empregados e não permite que a sobrinha que vive em sua casa tenha um namorado. Mas ele também se mostra um homem solitário e de certa maneira até sensível, e busca alguém para compartilhar sua vida. Ou seja, para um ator como o Miguel Falabella, é um prato cheio. Os momentos em que o personagem é mau, o Falabella faz com um cinismo absoluto, e nos momentos de ternura do personagem, parece uma criança em cena, de tão inocente.  Já Dolly Levi, como disse no início, é uma viúva casamenteira, mas não só isso, é uma verdadeira ´lady charlatã´, sempre com uma carta na manga, com um ´jeitinho´  para resolver as situações mais difíceis. E claro, a Marília Pêra dá um show, exprimindo as palavras como quem estivesse sempre em dúvida, mas na prática sendo a senhora de todas as situações, já que ela manobra os outros personagens para que façam exatamente o que ela quer. Também é patente a cumplicidade entre os dois, Miguel e Marília, sendo que a gente percebe desde o início a veneração que o Falabella tem pela parceira. 

Mas não é só isso... Os outros atores também vão muito bem. Quem mais me impressionou foram o Frederico Reuter, que no papel de Cornélio, um dos funcionários de Horácio Vandergelder, também dá um show, tanto na parte musical quanto na atuação, a Alessandra Verney, no papel de Irene Molloy, e Ricardo Pêra, que atua como o maitre Rudolph Reisenweber e que agora, lendo o programa, descobri ser filho da Marília Pêra.  

Não vou retomar o enredo aqui, mas a cena do jantar, com a entrada da Dolly no restaurante é daquelas cenas de filme de Hollywood, ou melhor, da Broadway, com a longa escadaria por onde a estrela desce triunfante. E nada mais coerente, já que o subtítulo da peça é ´Um musical da Broadway´.  Ou seja, o que é entregue ao espectador é exatamente o que a gente espera de um grande musical. Perfeito nos mínimos detalhes, nas danças, nas marcações, mas de modo nenhum é um espetáculo frio, técnico. A gente se diverte e vê que os atores estão ali com prazer, se divertindo também. 

Musicalmente, apesar de ser um espetáculo já clássico, não me impressionou muito. A única música que reconheci foi justamente ´Hello, Dolly´, que nos primeiros acordes me remeteu à versão do Louis Armstrong. Já as outras músicas fizeram seu papel em cena, mas não deixaram marcas nos ouvidos...  Já o cenário é muito interessante, é uma superfície vertical que faz as vezes de moldura para as várias mudanças de cena. Nessa superfície estão aplicadas texturas, volutas, frisos, que me remeteram às notas de dólar. Mas dessa grande superfície também saem alguns volumes, que se transformam em escadas, por exemplo. E ao fundo, conforme o desenrolar da história, há projeções que remetem a noites de luar, estação de trem... Muito bem bolado. 

O figurino também chama a atenção. Foi criado pelo Fause Haten, e mesmo eu, que não sou exatamente alguém que acompanha a moda, percebo a diferença de qualidade entre o trabalho dele e o que estamos acostumados a ver por aí. Todos, absolutamente todos os figurinos de muito bom gosto, claro que são roupas de época, baseadas em algo que já vimos, mas a Marília Pêra estava com um figurino de saia estampada e colete listrado que ao mesmo tempo que instiga por quebrar uma ´regra´  de não misturar listras e estampas, era absolutamente harmonioso. 

Enfim, saí absolutamente satisfeito com o espetáculo que assisti. Estava até esquecendo de dizer, mas a música é executada por uma pequena orquestra, localizada no fosso, e há também um grande coro de bailarinos, sendo um deles se destaca ( Fabio Yoshihara ) que além de ser de origem japonesa também é careca, o que também gera alguns momentos de piadas visuais. 

Um comentário final: eu sempre colecionei os programas das peças que assisto, muito antes de começar a escrever esse blog. Isso ajuda a relembrar os momentos que assisti, e é claro que eu não conseguiria fazer esse texto sem recorrer ao programa. A única coisa chata é que dessa vez o programa, luxuoso, com impressão em papel de alta gramatura, a quatro cores, verniz... custou exagerados 20 reais, e ainda assim veio com propaganda. Mas tá valendo... 






Alô Dolly
Com Miguel Falabella, Marília Pêra, Frederico Reuter, Alessandra Verney, Ricardo Pêra
Direção e versão brasileira: Miguel Falabella
Texto de Michael Stewart
Músicas e letras de Jerry Herman
Teatro Bradesco, até 07/jul/13