Mostrando postagens com marcador Verdi. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Verdi. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Falstaff

A ópera do mês, na programação do Theatro Municipal foi Falstaff:



Eu não conhecia quase nada sobre essa ópera, que entra na programação dos festejos pelos 450 anos de nascimento de William Shakespeare - Falstaff é um personagem secundário que aparece obras do bardo - o que eu fiquei sabendo pela leitura do programa, sempre muito bom, além de bem produzido graficamente, os programas das óperas do Municipal são verdadeiros livros, com a transcrição de todas as falas, e mais importante, com pequenos ensaios sobre os espetáculos que são apresentados. Vale a pena adquirir e ir lendo antes da peça começar.

Sobre a parte musical, eu não conhecia nenhuma passagem da ópera, não reconheci nenhum trecho, nada. O que às vezes é uma vantagem, deixa a gente mais aberto para o que vamos ouvir.

A cenografia era a reprodução do próprio Municipal de São Paulo, mostrando as grades dos andares internos da platéia, como que refletidas num espelho. De início não entendi a razão disso, para mim só ficou claro mais no final da peça.  Dessa vez não havia mudanças de cenário, do começo ao fim era sempre o mesmo, as modificações visuais ficavam apenas por conta da iluminação. Quando os atores entraram em cena, a intervenção feita na foto do Verdi na capa do programa ficou clara: parte deles estava vestida como punks. A ação foi levada para algum momento entre a década de 70 e os dias atuais, na Inglaterra, com punks convivendo com gente vestida quase como que no século XIX. Mas não é isso que chega a delimitar um conflito claro no enredo, punks contra aristocratas. Os figurinos eram caprichados, mesmo os punks não eram tão ´punks´ assim, tive a impressão de que o esmero visual os deixou com um visual menos agressivo, e mais para a tribo que aqui no Brasil conhecemos como ´góticos´.

Tudo na história gira em torno do personagem que dá nome à ópera, Falstaff. Ele é um velho boêmio e decadente, dono de uma taverna, e apesar de velho, gordo e falido, ainda acredita ser o próprio ´dom juan´,  com um charme irresistível sobre as mulheres. Acho que não vale a pena ficar transcrevendo aqui o enredo da peça, que é bem movimentado.  Mas se o personagem principal é inadequado à realidade que o cerca, o intérprete é perfeitamente adequado ao personagem. Ele praticamente não sai de cena, e sem demérito aos demais cantores, leva a obra toda nas costas. Acredito que seja em função dele ter alguns momentos de descanso é que há dois intervalos, já que nessas interrupções não acontecem mudanças de cenário. Estamos falando de Ambrogio Maestri, que tem inclusive o tipo físico correspondente ao personagem, com sua cintura bastante roliça, para dizer o mínimo. Ele tem uma presença magnética no palco, naturalmente todas as atenções se dirigem a ele. As falas mais engraçadas, as passagens mais fortes, tudo é concentrado no personagem Falstaff, e se o cantor não desse conta do recado, com certeza as três horas de apresentação se transformariam em uma tortura. De modo algum isso aconteceu, o Ambrogio Maestri dominou totalmente a cena, o tempo todo. Lendo sobre ele após a apresentação, fiquei sabendo que é considerado hoje o melhor intérprete para esse papel, tendo se apresentado no Metropolitan de Nova York, no Scala de Milão. Foi realmente uma noite de alto padrão, e apesar de não ser músico, acho que pelo fato de estar frequentando a temporada lírica desde o ano passado, está dando para perceber a evolução musical da Orquestra do Municipal. Não sei como expressar isso tecnicamente, mas me parece que o som está mais ´redondo´,  mais equilibrado, todo mundo entrando junto, enfim, uma parte musical mais gostosa de se ouvir. E que venha Carmem, de Bizet!



Falstaff
Com Ambrogio Maestri, Rodrigo Esteves, Blagoj Nacoski, Adriane Querioz, Lina Mendes, Romina Boscolo
Ópera de Giuseppe Verdi, com libreto de Arrigo Bolto
Regência de John Neschling
Theatro Municipal de São Paulo, até 24/abr/14







sexta-feira, 14 de março de 2014

Il Trovatore

Primeira ópera do ano no Municipal de São Paulo: ´Il Trovatore´:



Mais uma vez fiz a assinatura da temporada lírica do Municipal, e pela primeira amostra do ano, sei que fiz a coisa certa.

´Il Trovatore´, ao menos para mim, não era uma ópera conhecida. O único trecho que me recordava dela era o ´Coro dos soldados´, no início do 2o ato. Os trechos com grandes coros costumam mesmo ser as minhas passagens favoritas, sempre fico impressionado quando se tem a voz humana em uníssono.  E não conhecer outras passagens, nem mesmo a o enredo da ópera, às vezes até que tem suas vantagens, faz com que a gente tenha o ´frescor´  da primeira audição, foi uma ótima experiência.

A  história é uma tragédia de folhetim: uma cigana ( Azucena )  viu sua mãe ser morta na fogueira, acusada de bruxaria. Para se vingar, ela rapta o filho do conde que ordenou a morte de sua mãe, para que o bebê seja também queimado numa fogueira. Mas cega pela raiva, ela queima o próprio filho! ( E isso é só o começo... ).  Ela então cria o bebê que raptara como se fosse seu filho, e ao se tornar adulto, ele ( que é Manrico, o Trovador ) se torna rival do Conde de Luna ( irmão do bebê raptado ). Ambos disputam não só o poder como também o amor de Leonora.

Para não se casar com o Conde de Luna, Leonora decide ir para um convento. Ambos os rivais tentam impedir que isso aconteça, mas quem leva a melhor é Manrico, e Leonora parte com ele. Mas andando pela floresta, Azucena ( a cigana mãe do Trovador Manrico ) é presa pelos soldados do Conde de Luna. Ela então é reconhecida como quem sequestrou o irmão do Conde, e além do mais, descobrem que é mãe de Manrico. Obviamente, ela é condenada à morte.

No palácio onde o casal Manrico e Leonora se encontrava ( não me pergunte como o filho da cigana tem um palácio! ), o casamento já está para acontecer quando chega um mensageiro dizendo que a mãe de Manrico será executada pelo Conde. Manrico então sai para salvar a mãe, mas é preso pelos soldados do Conde. Leonora, então, para salvar o amado decide prometer ao Conde que casará com ele, desde que a vida de Manrico seja poupada, claro. Mas ela não pretende cumprir a promessa, e toma veneno.  Daí tem um encontro com Manrico no calabouço, e ela revela seu plano a ele e desfalece, sob o efeito do veneno. O Conde de Luna vê que foi ludibriado, e executa Manrico. Nisso, a cigana ( que estava o tempo todo na mesma cela que o filho, mas dormindo ), acorda e vê que Manrico foi morto, e então revela ao Conde de Luna a verdade: ele acabara de matar o irmão, o bebê que ela havia sequestrado muitos anos atrás...  ou seja, dramalhão total.

Dessa vez o cenário não era tão impactante quanto das outras óperas no Municipal. Eram duas paredes nas laterais do palco, mas articuladas, que giravam em torno de um eixo que permitia que elas ficassem perpendiculares ao palco, ou mesmo inclinadas em relação à frente do palco. A da esquerda era totalmente devassada, com grades, e os seus três patamares eram interligados por escadas.  Já a parede da direita era mais fechada, e incrustada nela havia o que poderia ser uma sacada de um palácio. Ao fundo havia uma ´floresta´,  de onde se viam os troncos das árvores, e ao centro do palco, um buraco que fazia as vezes de fogueira.

Nessa noite o que ficou em primeiro plano foi realmente a música. Não entendo ´nada de nada´ em relação à ópera, mas deu pra perceber claramente que nessa quinta-feira nos foi proporcionada uma experiência musical superior a todas as outras do ano passado. A primeira a deixar uma ótima impressão, logo de início, foi a Marianne Cornetti ( Azucena ).  Depois foi a vez da Susanna Branchini ( Leonora ), numa cena no balcão.  Entre os homens, achei que o Alberto Gazale ( Conde de Luna ) foi apenas correto, enquanto o Manrico ( Stuart Neill ) arrasou. E mais do que qualquer performance individual, acho que dessa vez a integração entre o elenco e a orquestra estava perfeita. Tudo soava ´redondo´,  natural, mais do que nas outras récitas do ano passado. Que continue assim!




PS: No final, uma nota triste: na saída, o Salão Nobre do teatro estava sendo arrumado para o velório do Paulo Goulart, e inclusive o carro com o corpo já estava esperando, numa das entradas do Municipal. Fica a  homenagem a um ator que não cheguei a ver em cena, apenas a ouvi-lo como a voz de Deus, na estréia de ´Evangelho Segundo Jesus Cristo´, do Saramago, muitos anos atrás. 




Il Trovatore
Com Stuart Neill, Marianne Cornetti, Alberto Gazale, Susanna Branchini 

Ópera de Giuseppe Verdi, com libreto de Salvatore Cammarano
Regência de John Neschling
Theatro Municipal de São Paulo, até 22/mar/14

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Aida

Fiquei em dúvida se deveria comentar algo sobre a apresentação de Aida, no Teatro Municipal. Afinal, eu não registro aqui os shows ou filmes que assisto. Mas por mais importante que seja a música em uma ópera, ela só se completa com a encenação mesmo. Hoje as músicas embutidas nas óperas são apreciadas como peças autônomas,  mas é sempre bom lembrar que foram criadas para um espetáculo completo, com atores, balés, figurinos, cenários. E se tem uma coisa que me incomoda é o suposto hermetismo das peças líricas. É claro que existem as mais populares, com trechos facilmente reconhecíveis por quem ao menos já tenha tido contato com os desenhos animados do ´Pica-Pau´. Todo mundo já ouviu trechos das ´Bodas de Fígaro´, de ´Cavalleria Rusticana´, e é claro, de ´Aida´, que é uma das obras mais populares de todos os tempos. Então, achei que seria pertinente comentar sobre o que assisti no Municipal de São Paulo. Mesmo porque fiz a assinatura da temporada 2013, e devo ir a mais cinco espetáculos de ópera até o fim do ano, então vai ser bom ter o registro para poder comparar...



Primeiro quero falar sobre o Theatro Municipal de São Paulo, um espaço que é velho conhecido mas que só entra agora nesse blog, pois das outras vezes em que estive lá nesse ano foi para assistir a concertos. O nosso Municipal não é tão luxuoso quanto o do Rio de Janeiro, e se for comparar com o Colón, de Buenos Aires, aí é até covardia...  Mas ainda assim é um belo teatro. Chegar lá já foi pior, o centro de São Paulo agora me parece mais iluminado, mais seguro. Como tem a estação Anhangabaú ali perto, o acesso é fácil para ir de Metrô. Indo de carro, é melhor chegar cedo para se conseguir uma vaga em estacionamento na parte dos fundos do Municipal, por que senão lota, e daí para estacionar na Av. São João já fica meio complicado. Nesse caso, se for para chegar com pouca antecedência, é melhor estacionar do outro lado do Viaduto do Chá e ir a pé até o Municipal. Acho mais seguro, sempre há uma viatura da PM em cada extremidade.

Lá dentro o hall é relativamente acanhado, e o bar, sempre lotado, também é pequeno. Foi reformado há pouco tempo pelos irmãos Campana, e ficou muito bonito. Mas meu lugar preferido do Municipal ainda é o terraço. É de lá que se tem uma bela vista do antigo prédio da Light ( hoje um shopping ), do antigo Mappin, viaduto do Chá, do Anhangabaú...  afinal, não há muitos lugares de acesso ao público de onde se pode ter uma visão do centro de São Paulo, então, quando há oportunidade, temos mais é que aproveitar.  Dentro da sala de espetáculos, em termos de conforto para o espectador, tem de tudo: dos bons lugares nos camarotes, platéia ou balcão nobre, até o auditório, lá em cima, de onde não se vê absolutamente nada do palco. E claro, para quem fica nas extremidades da ´ferradura´ ( que é o formato clássico das casas de ópera ),  independentemente do andar, a visão é prejudicada. Dessa vez meu lugar era central, na fila ´A´ do balcão simples. Claro que se fosse no andar debaixo ( balcão nobre ) a vista seria melhor, mas em todo caso, deu para ver bem. No Municipal é sempre bom sentar na fila ´A´,  para que o espectador da fileira da frente não atrapalhe a visão quando se debruçar no parapeito, o que todo mundo que senta na primeira fileira faz - inclusive eu. E seria bom se houvesse um pouquinho mais de espaço para as pernas, ajudaria muito quando o espetáculo é demorado, e todas as óperas são. Também ajudaria muito para se chegar às poltronas centrais quando já há gente sentada nas extremidades da fileira.

Antes de começar a apresentação, uma boa surpresa: o programa é maravilhoso, lindo, muito bem impresso, com textos interessantes sobre a Aída, sobre Verdi, e além dos tradicionais textos do diretor artístico, dos currículos dos cantores, há também todo o libreto, todo o texto da ópera. Muito legal, tomara que os próximos também sejam assim.

Mas o que interessa mesmo é o espetáculo, e foi muito bom. É claro que eu já conhecia ´Celeste Aida´, e a ´Marcha Triunfal´,  mas é outra coisa ter isso ao vivo. Achei o cenário muito bom, deve ser difícil tratar um tema clássico como esse e não cair no alegórico, no folclórico, e acabar transformando tudo em ´escola de samba´, ou ao contrário, fazer algo tão anódino, tão clean, que acabe não tendo relação com a peça. O cenário era dominado por duas estruturas muito grandes, duas paredes de ´pedra´ em cinza escuro, com inscrições egípcias, claro. Também havia um plano inclinado em formato triangular, que cortava o palco a partir do lado esquerdo. Isso no início, porque o cenário vai se alterando muito durante a encenação. Acho que o momento mais bonito foi quando o exército egípcio é reunido, e vemos o mar de areia do deserto com a céu amarelo, e um foco muito forte projetado no fundo do palco representando o Sol. Mas também foi muito impressionante o trabalho com os alçapões no palco, tem um momento em que quase todo o palco é rebaixado, eu nem imaginava que isso fosse possível. E no final, na última cena, quando o personagem Radamés é encarcerado numa sala que é fechada, para que ele morra ali, também é impressionante. Toda a boca de cena é tomada por uma parede gigante de pedra cinza, com uma pequena ´caverna´ de uns três metros de largura por dois de altura que representa o lugar onde Radamés é enterrado vivo. Mas o detalhe é que essa ´caverna´ está elevada uns três ou quarto metros acima do palco, e a abertura relativamente pequena em relação ao cenário, o tom cinza-chumbo, a iluminação, dão mesmo a sensação de clausura que o personagem vive. 

Os figurinos também são muito bonitos, não são ´fantasias´, e sim roupas que através de adereços remetem ao Antigo Egito. Mas não deixou de ser curioso ver uma das bailarinas, uma que faz uma pequena apresentação de dança e contorcionismo, toda pintada de azul, num tom de lápis-lázuli. Impossível não lembrar do filme ´Avatar´...

Quanto ao desempenho técnico dos cantores, não tenho elementos para julgar se foram muito bem ou não. Mas com certeza, não cometeram nenhum erro flagrante. Na récita em que estive presente, o casal de protagonistas foi representado por Maria Billeri ( Aida ), e Stuart Neill ( Radamés ). O reparo que eu posso fazer é que para os padrões atuais, o ´galã´ Radamés está obeso...  

Acho que os momentos que eu mais curto em óperas são aqueles em que há um grande coral. É incrível ver 90, 100 pessoas no palco cantando, e ´Aida´ propicia isso, principalmente durante a famosíssima ´Marcha Triunfal´. Nesse momento me projetei ao máximo para a frente, debruçado no guarda-corpo, para que o som viesse diretamente aos meus ouvidos, sem interferência alguma.  
A história do amor entre a princesa etíope que é refém no Egito é triste pra caramba, o final é mesmo deprimente para os padrões de hoje, mas deve ter feito muita mocinha suspirar no final do século XIX ( auge do romantismo ), ao ver o casal de protagonistas morrer juntos por causa de seu amor. E Aida parece que são duas peças em uma: o primeiro e o segundo ato ( não houve intervalo entre eles ), são agitados, há a apresentação dos personagens, intrigas, guerra, ciúmes, e isso através de árias, duetos, coro... já depois do intervalo, o terceiro e o quarto atos são quase que ´ópera de câmara´, com um ritmo muito mais lento, canções melancólicas...  é um ´anti-climax´, bastante diferente do que costumamos ver nas montagens de musicais contemporâneos, em que o final é sempre em ´crescendo´.

Pra terminar, um comentário: o maestro John Neschling é que está a partir de 2013 à frente do Theatro Municipal de São Paulo, como seu diretor artístico, e nessas apresentações também como regente da Sinfônica Municipal. Ele que foi o grande responsável pelo reerguimento da Osesp, e espero que tenha o mesmo êxito como comandante do Municipal. Deu para ver que há apoio financeiro para isso, a montagem de Aida foi luxuosa, e acho que há muitos e muitos anos o Municipal não tinha uma programação tão extensa de espetáculos de ópera, com um título por mês de agosto a dezembro de 2013, o que não deve ser fácil de gerenciar.  Então, só posso desejar boa sorte, e estarei lá novamente no mês que vem, dessa vez para conferir Don Giovanni, de Mozart.


 
Aida
Com Maria Billeri e Stuart Neill
Ópera de Giuseppe Verdi, sobre libreto de Antonio Ghislanzoni
Regência de John Neschling
Theatro Municipal de São Paulo, até 25/ago/13