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sábado, 29 de março de 2014

Florilégio 2 - O Musical

Pra começar bem o final de semana, ´Florilégio 2, o Musical´, no Teatro Eva Herz:


Havia apenas um pequeno folder disponível. E eu perdi...

Nem foi a primeira visita desse ano a esse espaço, já havia estado lá para assistir ´Jocasta´. Mas dessa vez a experiência seria totalmente diferente, pois era uma comédia musical. É claro que o fato de eu ser fã de música brasileira me fez ter uma boa vontade inicial com a peça, de já olhar com bons olhos a oportunidade de ter alguns clássicos interpretados ao vivo. Mas acho que mesmo quem não seja fã como eu irá se divertir com a peça.

Praticamente não  há cenário, apenas alguns objetos de apoio - uma mesa com alguns adereços, jarra e copos para água. À direita, um suporte para teclado eletrônico, com um pequeno painel em frente, com letras desenhadas em purpurina mostrando o título da peça.  Primeiro temos uma gravação em que a platéia é orientada em relação ao comportamento que deve ter, afinal somos todos ´macacas de auditório´ em um dos estúdios da Rádio Nacional, e estamos prestes a ver as grandes estrelas da música brasileira dos anos 30 a 60. E a platéia ( predominantemente composta por pessoas da 3a idade ), já entra no clima do espetáculo. O teatro realmente vai se transformando em um auditório musical, com a introdução feita pelo ´maestro´, um jovem tecladista muito simpático, Jonatan Harold. Em seguida vem o cantor e mestre de cerimônias Carlos Moreno, cujo nome do personagem, sinceramente, eu não lembro mais - e que não tem a menor importância.

O Carlos Moreno, com o tom tímido e simpático que a gente conhece de muitos anos de ´garoto Bombril´, convida as duas cantoras que vão dividir o palco com ele, as atrizes Mira Haar e Patrícia Gasppar. E a partir daí, é literalmente só diversão, com a platéia realmente fazendo parte do espetáculo.

Eles vão apresentando versões de grandes clássicos da música brasileira da Era do Rádio, em blocos divididos por temas ou estilos: marchinhas, sambas, canções de dor-de-cotovelo, músicas sertanejas....  e aí vem uma verdadeira constelação da música brasileira: Noel Rosa, Dorival Caymmi, Ary Barroso, Lupicínio Rodrigues, Paulo Vanzolini, Tom Jobim, Vinícius de Moraes...  só que em versões muito especiais, divertidíssimas, com ´cacos´, interpretações ao mesmo tempo respeitosas ( nada de clássicos em versão ´dance´ ou ´funk´ ), porém buscando sempre o lado divertido. Assim, até as canções de fossa ficam leves, e muito disso se dá pela encenação mesmo, talvez mais do que pelas interpretações musicais. Eu fiquei fascinado especialmente pelos ´comentários´ feitos pela Patrícia Gasppar através dos gestos, mesmo quando ela não estava cantando, um show à parte de delicadeza e ironia. Aliás, acho que as palavras ´delicadeza´ e ´ironia´,  que no país brutalizado em que vivemos são praticamente antônimos, nesse espetáculo se combinam muito bem. É um espetáculo delicado, emotivo, suave, mas que ri através das entrelinhas, da sutilezas das interpretações, do ridículo das  histórias de amor, mas nunca com agressividade e sim com um olhar terno em relação aos acontecimentos.

Até agora não falei quase nada da Mira Haar. Alguns dos melhores momentos vêm da parte dela, que por ser mais velha tem um aspecto mais comportado, mas que solta uns rompantes hilários. Me diverti muito, ouvi boa música, e acho que como todos ali presentes, saí mais leve do espetáculo. Aliás, no final todos se colocaram à disposição da platéia para receber os cumprimentos, em mais um gesto muito simpático, assim como em ´Sempre teremos Paris´.  Quem sabe isso não vira uma tendência nos espetáculos, e acaba um pouco essa coisa de ´culto à celebridade´ para parte da platéia - especialmente quando há atores da Globo no elenco.

Não sei se há muito público para esse tipo de musical ´de bolso´,  mas a peça vai continuar em cartaz, agora de quartas e quintas-feiras ( eu assisti na última sexta-feira da temporada em fins de semana ). Mas garanto que quem for lá no Eva Herz não vai se arrepender. 




Florilégio 2, O Musical
Com Carlos Moreno, Mira Haar, Patrícia Gasppar e Jonatan Harold
Direção de Elias Andreato
Teatro Eva Herz, SP,  até 05/jun/14


sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Jocasta

Jocasta, no Teatro Eva Herz:



Engraçado que eu não achava que fazia tanto tempo desde a última vez em que estive no Eva Herz, para assistir ´Nise da Silveira - Senhora das Imagens´, mas isso foi em 2012, antes do início desse blog. Então vão algumas informações sobre o Eva Herz, que fica dentro da Livraria Cultura do Conjunto Nacional:  é um lugar de fácil acesso, com metrô na porta. Para quem vai de carro é mais complicado conseguir lugar para estacionar, mas a dica é se afastar um pouco do Conjunto Nacional, assim o custo do estacionamento fica bem mais baixo, e se tiver sorte, dá até para encontrar lugar na rua mesmo, já que na R. Pe. João Manuel e na Alameda Jaú é possível estacionar depois das oito da noite.  Pelo fato do teatro ficar dentro da livraria, o foyer é o próprio espaço de venda de livros, o que é muito bom pra ficar garimpando alguma coisa.  Lá dentro a sala de espetáculos não tem charme nenhum, carpete, poltronas, tudo liso, sem nenhum detalhe. Isso chama a atenção pelo contraste com a própria livraria, um projeto tão legal do arquiteto Fernando Brandão. Dá a impressão de que para o teatro foi suficiente proporcionar as condições básicas de conforto para a platéia, sem a mesma preocupação estética e lúdica da livraria. Tudo certo em termos de conforto, as poltronas são boas, o espaço para as pernas não é muito apertado, enfim, se contentaram em fazer o básico, mas fizeram bem feito.

A peça dessa quinta-feira era ´Jocasta´, um monólogo interpretado pela Débora Duboc com o texto de uma adaptação feita pelo Elias Andreato ( que entre outros trabalhos, também esteve em ´Eu não dava praquilo´  e ´Cruel´  para o mito grego. O que se poderia esperar, além de uma boa peça? E cumpriu a expectativa. 

Essa versão do mito de Édipo é narrada a partir o ponto de vista da mãe e esposa dele, a própria Jocasta. No programa a plateia é informada de que no mito original Jocasta quase não tem falas, e como está na boca da personagem e também no programa, ´Jocasta faz tudo o que está ao seu alcance para cumprir com seu papel de Rainha, Mulher e Mãe. Com Rainha, ela tem que submeter-se aos poderes de seu rei. Como Mulher, ela é obrigada a submeter-se aos desejos de seu homem. Como Mãe, ela é obrigada a submeter-se aos desígnios cruéis dos deuses.´.   Mas dessa vez será Jocasta quem irá falar diretamente à plateia, ou melhor, à Assembleia de Tebas, que é como a personagem se refere a quem ouve a sua história. 

O cenário é simples, duas pequenas mesas nas laterais com jarro e uma boneca sobre elas, uma cadeira de acrílico transparente, um fio vermelho que pende do teto. As paredes laterais e o fundo do palco são fechadas por cortinas.  A peça tem início com Jocasta deitada no centro do palco, com fios que prendem suas mãos aos céus. Ao se levantar, ela tem um gestual de marionete, como se fosse uma boneca manipulada pelos deuses, e aos poucos vai se livrando desses fios em suas mãos, e também esse gestual vai diminuindo. Outra coisa que chama a atenção é o figurino, um vestido azul do Fause Haten - de novo ele, acho que já posso dizer que quando for a uma peça e o figurino for impecável, 90% de chance dele ser o responsável.

O texto, é claro, é pesado. Uma mulher que é indicada para desposar o rei ( Laio ), mas este só lamenta a morte de seu amante, até que finalmente ele faz um filho nela. Esse filho é o portador de uma maldição, e é levado para ser morto...  anos depois Laio morre, e a cidade de Tebas vive um período de fome e peste, que só é encerrado com a chegada de Édipo, que ao salvar a cidade é consagrado como o novo rei, e portanto, marido de Jocasta. Ela então vive um período de felicidade, até descobrir que na verdade seu novo marido é seu filho com Laio... e novamente a tragédia dá as caras em sua vida. Foi interessante que enquanto a peça se desenrolava, eu também lembrava da encenação de ´Édipo Rei´, que assisti ano passado. De certa maneira, uma complementou a outra. 

O texto é um prato cheio para psicólogos, psiquiatras, feministas, mas eu não entrei nesse caminho durante a apresentação. Me fixei mais em perceber como era apresentado o sofrimento extremo dessa mulher, e como a atriz transmitia isso. Em nenhum momento a interpretação resvala para o sentimentalismo barato, o dramalhão. Pelo contrário, é o sofrimento apresentado de forma profunda, ´limpa´,  sem excessos, sem maneirismos.  Alguns ´respiros´  eram dados em pequenas músicas interpretadas ao vivo pela Débora Duboc, que davam mais leveza à encenação.

Mas teve uma coisa de que não gostei: a iluminação em determinados momentos é voltada direta para a Assembleia de Tebas, ou seja, para o público. E isso incomodava, a luz relativamente forte nos olhos de quem está no escuro chega a doer os olhos, e se a intenção foi a de trazer o público para dentro da peça, na minha opinião isso causou o efeito contrário. 

Não é uma peça fácil, dessas que se vai comer uma pizza e bater papo. Pelo contrário, pede uma reflexão para digerir todo esse sofrimento. 






Jocasta
Com Débora Duboc

Texto e Direção de Elias Andreato
Teatro Eva Herz, até 27/mar/14

domingo, 8 de setembro de 2013

Cruel

´Cruel´  é a peça que o Reynaldo Gianechini estava fazendo quando foi diagnosticado com câncer, uns dois anos atrás:


Essa é uma imagem da web. Não consegui pegar o programa, havia poucos disponíveis...

E apesar de ser um texto do August Strindberg, com direção de Elias Andreato, sem dúvida a platéia estava lá era para ver o ´Giane´.  Quando cheguei à bilheteria para pegar o ingresso que havia comprado pela internet, três meninas de uns vinte anos de idade que estavam na minha frente perguntaram ao bilheteiro se depois daria para tirar fotos com o ´Giane´,  e ficaram excitadíssimas quando ele respondeu que sim...  e isso, sem dúvida, se reflete por toda a platéia.

Eu costumo registrar o clima que percebo na platéia porque acho isso importante, faz parte da magia do teatro. Uma platéia concentrada, ou ao contrário, dispersa, pode modificar o desempenho dos atores. Afinal, é teatro, estamos todos ali, ao vivo, e isso faz toda a diferença. Eu tenho por hábito reclamar muito de quem atrapalha o espetáculo, com celulares ou com conversas paralelas. Claro que não imagino que todos devem ficar como múmias assistindo o que acontece no palco - as pessoas riem, se surpreendem, se incomodam e ficam trocando de posição nos assentos, isso é normal. Mas ver o que acontece quando há atores ´globais´,  especialmente um galã do porte do Gianecchini, é algo que me deixa abismado. Aquele monte de mulheres que estão ali somente por causa dele devem ter saído decepcionadas, pois afinal de contas, os personagens se mantém vestidos dos pés à cabeça o tempo todo, com roupas de época, nada sexy para os padrões atuais.

Como eu acabei enveredando pelo tema ´Gianecchini´, vou dizer logo o que achei: como quase todo mundo, tenho uma simpatia pela ´persona pública´ dele. Sempre me pareceu um cara legal, equilibrado, apesar de todo o sucesso e todo o assédio. E claro, por saber de seu problema grave de saúde, é normal que as pessoas sintam uma certa compaixão, uma boa vontade maior com quem passou por essa situação.  Só que nada disso iria fazer com que o desempenho dele como ator pudesse melhorar, se ele fosse um canastrão - e não é. Posso dizer que ele foi muito bem - ótimo mesmo. O personagem dele, ´Gustavo´,  é o principal da trama, é quem leva ao desfecho trágico do drama, é o senhor dos acontecimentos, o único que tem consciência o tempo todo do caminho a seguir. E é um homem muito racional, com um grande poder de argumentação, ao mesmo tempo que é sensível e  ainda profundamente apaixonado pela sua ex-mulher, Tekla ( Maria Manoella ). Ou seja, tem muito o que passar pra platéia, é um personagem complexo, cheio de nuances, e para comunicar isso tudo não se é com bíceps ou tórax expostos, mas sim com pequenos gestos e entonações. E foi exatamente dessa maneira que o Gianecchini deu conta do recado muito bem, mostrando que não é um físico atraente às mulheres que justifica a sua presença nos palcos. Para terminar esse assunto, quando ele entrou em cena ouviu-se suspiros na platéia, e até um assovio. As duas mulheres que estavam ao meu lado, aliás, daquelas com cara de solteironas, não paravam de cochichar sobre ele, assim como outras que estavam na fileira de trás. E da mesma maneira em que eu saí satisfeito do teatro, acredito que elas devam ter ficado decepcionadas, pelos aplausos burocráticos que deram.  Ou seja, quem foi ao Teatro Faap para ver o Gianecchini exibir seus dotes físicos, perdeu a noite. Quem foi para ver uma boa peça de teatro, saiu satisfeito.

Enfim, finalizados os temas ´comportamento da platéia / Gianecchini´, tem mais coisa para se falar. Essa peça do Strindberg, o mesmo autor de ´Senhoria Júlia´,  é um texto muito denso, cheio de nuances, onde até o desfecho final nada é bem o que aparenta. Basicamente o que é narrado é a vingança do ex-marido da escritora Tekla ( Maria Manoella ), chamado Gustavo ( Reynaldo Gianecchini ). Ele se aproxima do atual marido, o pintor e escultor Adolfo ( Erik Marmo ), apoiando-o em um momento de fraqueza e de doença. E começa a tramar contra o próprio Adolfo sem que ele perceba, colocando dúvidas em sua cabeça quanto à fidelidade de Tekla. Gustavo então faz com que no momento em que se encontra com Tekla, Adolfo fique em outro cômodo, ouvindo toda a conversa, sem que Tekla saiba. E aí, o ciúme de Adolfo, ao ouvir a conversa de Tekla e Gustavo, leva à tragédia do desfecho. Mas o que importa mesmo não é o final, mas como se chega a ele. As palavras de Gustavo são sempre precisas, independente de para que lado ele está levando a conversa: absolutamente generoso e ´insinceramente´ interessado em ajudar Adolfo no início, depois ferino e mordaz ou carinhoso e sedutor com Tekla, que não é uma mulher submissa ou um simples par romântico, mas sim uma mulher sedutora, decidida e com inteligência acima da média. Suas falas também são sempre cortantes, ela domina o atual marido, o pintor Adolfo. Ou seja, os dois principais personagens, Tekla e Gustavo, são verdadeiros esgrimistas com as palavras, com frases que dizem muito mais do que o simples enunciado. Principalmente nos diálogos entre Gustavo e Tekla, há sempre um nível muito grande de tensão no ar. E tudo isso vem com três atores que desempenham muito bem seu papel. O personagem do Erik Marmo não tem essa característica presente nos outros dois de ser alguém tão arguto, tão forte em suas palavras. Ao contrário, é um homem alquebrado, fragilizado por uma doença física e por uma submissão à mulher, que com sua carreira de escritora ofusca o seu brilho de artista. E isso é transmitido com perfeição pelo ator, que faz seu papel de modo bastante satisfatório.

Enfim, ´Cruel´ é uma peça que tem um forte conteúdo psicológico, o que Gustavo faz é uma verdadeira tortura com os demais personagens. A encenação toda é baseada na força das palavras, não há grandes gestos, grandes movimentações físicas. Os figurinos, o cenário, tudo é em tom menor, nada tem tanta importância quanto o texto. Os figurinos são ok, terno e fraque para os  homens, e um vestido longo para a Maria Manoella - roupas de época, bonitas, adequadas. O cenário é basicamente feito de três paredes com grandes janelas, por onde em alguns momentos se percebe através da semitransparência dos ´vidros´ os vultos dos personagens entrando ou saindo de cena, mais uma poltrona, uma cadeira, um pequeno aparador com espelho. E a iluminação é importante nessa peça, marcando as cenas, dando a condição para as silhuetas em contra-luz... agora, quanto à trilha sonora, lembro que de início há alguma música clássica dando o clima, mas depois, sinceramente, não sei se porque fiquei totalmente ligado no texto, mas não lembro de mais inserções musicais. 

Quanto ao espaço físico do teatro, já fiz alguns comentários, inclusive sobre o alto preço do estacionamento, quando estive no Teatro Faap no início do ano para assistir ´Quase Normal´.



Cruel 
Com Reynaldo Gianecchini, Maria Manoella e Erik Marmo
Direção de Elias Andreato
Texto de August Strindberg
Teatro Faap, SP, até 09/set/13


terça-feira, 23 de julho de 2013

Eu Não Dava Praquilo

Essa peça acontece num dia inusitado...  há apresentações em plena segunda-feira!



Já comentei aqui sobre como é assistir a uma peça no CCBB ( no caso, quando estive lá para ver ´Vingança, o Musical´ ), só que agora que pela primeira vez fiquei no balcão, não consegui lugar na platéia. Meu ingresso era na primeira fila e tive que me abaixar, escorregar na poltrona para poder ver melhor. O guarda-corpo, por mais delgada que fosse a barra de ferro na parte superior, atrapalhava bastante. Então o jeito foi procurar uma posição em que eu pudesse olhar por debaixo da barra, pois as divisões intermediárias são feitas por cabos de aço e atrapalham menos. De início parecia que estava assistindo a peça através de uma cerca, mas logo abstraí e aproveitei a cena.

Antes mesmo de começar a peça, que eu sabia ser sobre a Myriam Muniz, uma atriz e diretora já falecida sobre a qual não tinha mais do que vagas referências, vi algo que achei muito interessante no programa:  o texto, compilado pelo próprio Cassio Scapin junto com Cassio Junqueira, são falas da própria Myriam, e no programa há os endereços da internet com as páginas utilizadas na pesquisa, além das referências utilizadas em livros e dvd. Ou seja, toda a ´bibliografia´ da pesquisa está disponível para quem quiser buscar mais informações.

A peça é um monólogo, quando de abrem as cortinas vemos o Cassio Scapin sentado em uma cadeira de madeira, todo vestido de preto. A cadeira está no centro de um tablado circular onde há também um maço de cigarros e um caderno, ou apostila. Ele tem um xale preto e ao virar de costas para a platéia, se cobre com o xale e começa a falar... Daí vamos percebendo a voz rouca, grave, mas de uma mulher. A entonação, o ´sotaque´, logo me fizeram lembrar daquelas senhoras de origem italiana, desbocadas - como eu já disse, não tinha maiores referências sobre a Myriam Muniz, para mim era um nome conhecido, mas não lembro de ter visto alguma entrevista com ela para saber se a caracterização era fidedigna ou não. Mas obviamente, pela qualidade do trabalho do Cassio Scapin, só podia acreditar que fosse.

De início, talvez pelo problema de assistir ao espetáculo através do guarda-corpo, por ver um homem que estava simplesmente interpretando uma mulher, com sua voz, seu corpo, mas sem ´travestismo´, sem utilizar nenhum adereço feminino, confesso que senti um certo estranhamento. Mas logo isso passou, e parecia mesmo que estávamos vendo ali um senhora já idosa, com forte sotaque paulistano, falando sobre a sua infância, juventude, seu modo de ver o teatro e a vida. Era como se ela estivesse ali dando um depoimento em primeira pessoa. O texto tinha algumas frases ótimas, de quem observava o ser humano com muita acuidade, frases que são bastante duras às vezes, cruas, mas não que não são feitas para machucar. Fiquei com a impressão de que ela deveria ser uma daquelas ´italianonas´  de São Paulo, desbocadas mas com um coração enorme.

E para dar uma idéia da verdadeira transformação que ocorreu em cena, de como o Cassio Scapin realmente se transformou na Myriam Muniz, em um determinado momento da peça, ele/ela diz que vai demonstrar um pouco de seu método de ensino teatral, e fala algo como ´então agora vocês levantem´...  e imediatamente as pessoas levantaram, como se realmente fossem os alunos da Myriam!  Eu não esperava isso, nessa cena não há nada de diferente em relação às outras, ele/ela continuava dando seu depoimento, não houve uma mudança, uma entonação mais forte, nada. Mas realmente, naquele momento ele/ela era o maestro, dominando totalmente o palco e a platéia. Incrível. Essa mágica do teatro acontecendo ali, na nossa frente, sem a necessidade de nenhum apoio, nenhum adereço, nada além do corpo do ator... é pra ver isso que eu saio de casa numa segunda-feira chuvosa, é isso que faz com que ir ao teatro seja uma experiência incomparável.

A peça foi relativamente curta, mais ou menos uma hora de espetáculo. Dessa vez poderia ter durado mais, que eu assistiria sem esforço algum. Mas depois, ainda houve um bônus: no CCBB há a exposição ´Mestres do Renascimento - Obras-primas Italianas´, que tem levado muita gente até lá, às vezes com horas de espera na fila. Só que na saída da peça o acesso para a exposição já estava livre, e entrar numa sala e dar de cara com a ´Anunciação´, de Boticelli, é de tirar o fôlego. Ótima noite, pra não esquecer mais.



Eu Não Dava Praquilo
Com Cassio Scapin
Direção de Elias Andreato
Roteiro de Cássio Junqueira e Cassio Scapin
CCBB SP, até 23/set/13