sábado, 22 de março de 2014

Elis, A Musical

Elis, A Musical - um título com um trocadilho absolutamente pertinente:


Engraçado como fazia tempo que eu não ia ao Teatro Alfa, desde ´Um Violinista no Telhado´, mas só percebi que fazia mais de um ano por causa desse blog. Então, vamos aos comentários sobre esse espaço:  para mim, é muito longe...  junto à Ponte Transamérica, na Marginal Pinheiros, em um lugar que só é possível acessar de carro. E chegando lá ainda é difícil estacionar. Impossível conseguir lugar na rua ( escura e sem movimento ). E se houver lugar, há sempre ´flanelinhas´  ali ( claro que só na hora em que o espetáculo começa, eles nunca estão ao final ). Então, o jeito é deixar o carro nos estacionamentos mesmo, e há duas opções: ou do próprio Teatro Alfa, coberto, com manobrista, ou do outro lado da rua, quase em frente à entrada do Teatro, descoberto, com piso de pedrisco ( e com poças quando chove ) e onde você mesmo guarda seu carro. Ambos são caros, mas adivinhem qual o menos caro? Pois é,  o estacionamento do Teatro.... vai entender!

Acredito que o Teatro Alfa seja uma das maiores casas de espetáculo de São Paulo. E ao contrário de outros espaços, foi construído especificamente para esse fim, para ser mesmo um teatro. Tem uma entrada imponente, um saguão grande, escadas de acesso bem amplas, e de modo geral é bem decorado, sem excessos kitches. Lá dentro da sala de espetáculos o palco também impressiona pelo tamanho, e de maneira geral os assentos são bastante confortáveis. Nessa visita aconteceu um susto e uma boa surpresa: o susto foi descobrir que os lugares que havia comprado ( frisa lateral ) eram separados por uma coluna de aço de 40cm de diâmetro....  Eu estava ciente de que seria um lugar ruim, mas na página do Ingresso Rápido não há a marcação das colunas. Mas em seguida veio a boa surpresa: nesse dia deveria haver muitos convidados da Chevrolet ( tinha uma equipe para atender aos convidados da marca ), mas imagino que muita gente não compareceu. Então pouco antes do início do espetáculo os funcionários do Teatro convidaram a todos para ir aos assentos da platéia, bem em frente ao palco. Ou seja, não ficaram em uma postura mesquinha de que ´quem pagou por platéia elevada ou frisa que fique aí´,  o que sem dúvida foi uma postura muito simpática da produção. Além do mais, acredito que para os atores em cena seja bem mais agradável ver a platéia ali na sua frente cheia do que encenar para poltronas vazias, e ter o pessoal espalhado lá pra cima, onde não se pode vê-los. E os convidados que não compareceram não devem mesmo ter feito falta....  com tantas desistências, imagino que a maioria da platéia que estava ali era quem realmente estava a fim de assistir ao espetáculo e pagou por isso, e não gente que está mais preocupada em ´fazer social´ no foyer, como é comum a gente ver nesses eventos, ou em pré-estréias.

Outra coisa que vale a pena registrar é o programa da peça. Na entrada há uma lojinha de souvenirs, como costuma acontecer nos grandes musicais,  vendendo canecas, camisetas, livros, discos, bottons... e programas. Fizeram um programa em formato de capa de LP, muito bonito, ótima impressão, tudo muito caprichado. Mas o valor é o equivalente à entrada de algumas peças em cartaz na cidade, ou mesmo de um livro... 

Mas finalmente falando sobre a peça, ´Elis, A Musical´  é da mesma empresa produtora dos musicais ´Hair´, ´Um Violinista no Telhado´  e ´Rock in Rio, O Musical´.  E é com esse último que ´Elis´  guarda muitas semelhanças. Alguns atores são os mesmos ( Cláudio Lins e Ícaro Silva - mas esse infelizmente não estava presente na noite em que assisti ), mas principalmente se nota a mesma proposta em relação ao cenário: poucos elementos que vão se transformando durante o desenrolar da história, sem ´paredes´  ou um pano de fundo que determine propriamente um ´lugar´,  e o apoio de projeções e painéis eletrônicos. O recurso é bem econômico para a produção, mas funciona. O que interessa mesmo é a música, acho que não haveria razão para cenários grandiosos. Em compensação os figurinos me pareceram caprichados, com as roupas tomando certa importância em algumas cenas, como no início da carreira da Elis, quando ela saía de Porto Alegre para o Rio de Janeiro, e na apresentação de ´Como Nossos Pais´,  onde há um grupo de hippies. Se bem que nesse momento eu achei a caracterização um tanto fantasiosa demais... Hippies em 1976?   Vai ver que quiseram aproveitar os figurinos de ´Hair´....

Fiz um comentário maldoso agora, mas estou ciente de que a proposta do musical não é ser um ´documentário´,  mas sim uma elegia àquela que provavelmente foi a maior cantora brasileira de todos os tempos. E ainda bem que foi assim....   não é necessário encenar o vício em drogas nem a morte por overdose. Tanto que o musical termina com ´Redescobrir´,  do Gonzaguinha, em uma grande roda com todo o elenco. Só que cheguei ao final antes do começo....

A peça tem início com as primeiras tentativas de se apresentar em público da adolescente Elis ( Laila Garin ), ainda em Porto Alegre.  Os primeiros shows de calouros em companhia da mãe ( Keila Bueno ), e depois o relativo sucesso na então provinciana capital gaúcha. Daí a obstinação da Elis em chegar ao Rio de Janeiro, junto com o pai ( Ricardo Vieira ) que nem sempre confiava que a filha estaria fazendo a coisa certa. Esse é o prólogo, mas a coisa começa a ficar interessante mesmo quando Elis chega ao Beco das Garrafas, e aí começa a conviver com Miele ( Germano Melo ), Ronaldo Bôscoli ( Tuca Andrada ), Lennie Dale ( Danilo Timm ).  Claro que são personagens muito mais ricos e interessantes que os pais de Elis, e a partir de ´Menino das Laranjas´  a personagem principal começa a mostrar a que veio.

Laila Garin não é fisicamente parecida com a Elis Regina, nem tem o timbre de voz que lembre a ´Pimentinha´.   Mas talvez por isso mesmo, se encaixa muito bem no papel. Caso a escolha tivesse sido por alguma atriz mais parecida, a gente ficaria sempre com a sensação de ´cover´,  e não é isso o que acontece. Em cena está uma ótima cantora ( que é claro, procura manter um registro parecido com as gravações da Elis ), mas que não entra na simples imitação. Por outro lado, para quem conhece momentos marcantes da carreira da Elis ( o ´eliscóptero´  de Arrastão, a gravação de ´Atrás da porta´, a entrevista para o Fernando Faro, no programa ´Ensaio´ )  vê que o trabalho de recriação dos trejeitos, da prosódia da Elis, foram muito bem-feitos. Aliás, um dos melhores momentos da peça é quando Lennie Dale faz um trabalho de corpo com Elis, em ensaios no ´Beco das Garrafas´. Danilo Timm sem dúvida rouba a cena quando aparece no palco, imagino que ele tenha uma formação em dança muito superior aos demais membros do elenco. Aliás, essa cena foi mesmo uma das minha preferidas, quando ela se apresenta com a formação bateria / baixo / piano.

Tuca Andrade como Ronaldo Bôscoli também me pareceu uma escolha adequada, ele consegue imprimir um tom cafajeste / simpático ao personagem, que trai a mulher e que chega mesmo a agredi-la, mas que sempre tem uma saída divertida para a situação. Já o Miele de Germano Melo eu achei um tanto ´bonzinho´  demais, até onde eu sei o Miele sempre foi um ´coadjuvante´  divertido e importantíssimo, mais do que simplesmente alguém que tem os amigos talentosos. E foi uma pena que na noite em que eu assisti ´Elis´ o Ícaro Silva não estivesse presente. Ele foi um dos destaques de ´Rock in Rio´,  e o personagem Jair Rodrigues teria sido um prato cheio para ele. Quem estava em cena era Lincoln Tornado, que se não chegou a ser uma presença marcante no palco, também não comprometeu. 

A peça vai acompanhando mais a trajetória da Elis com seu relacionamento amoroso com Bôscoli e suas gravações, e também vão aparecendo nomes como Milton Nascimento, Ivan Lins, João Bosco, Renato Teixeira. Até que chega o momento do relacionamento com César Camargo Mariano ( Claudio Lins ).  Não tenho tanto conhecimento sobre o Mariano para dizer se a caracterização estava de acordo com a pessoa ´real´  ou não, mas o que quero registrar é que a partir do momento em que há alguém ´menos louco´  ao lado dela, o enredo passa a tratar a Elis com mais humanidade, no sentido de que em contraste com a sensatez e a bondade do marido, a Elis é que passa a ser o elemento desagregador da relação ( como antes havia sido o Bôscoli ). Achei interessante esse posicionamento dos autores, trazer isso em cena, e não ficar na louvação de uma mítica ´super-Elis´  o tempo todo. E por falar em caracterização, o ponto baixo foi o Tom Jobim ( Leo Diniz ). Difícil de ver o Tom como praticamente um paspalho em cena, alienado, sem-noção....

Quanto aos números musicais, é claro que há certa variação de qualidade. Em geral, os momentos de coro são os menos interessantes, quando a Laila Garin está solo é melhor. Mas os duetos com o ´Jair Rodrigues´ são interessantes, e o pout-porri com músicas do Milton Nascimento. O ponto alto acho que foi a interpretação de ´Como nossos pais´, e o baixo...  ´As aparências enganam´,  cantada pelo personagem César Mariano ( Claudio Lins ). Apesar de pertinente com a trama, ficou algo arrastado, sem a força com que a gente está acostumado a ouvir nas gravações.

Claro que o fato de ser fã da Elis ajuda a mim e à platéia de modo geral a gostar do espetáculo. Mas é mesmo um bom musical, que presta uma homenagem bonita à Elis. Com o fato de muita gente ter se reposicionado dentro do teatro, aconteceu da peça começar um pouco atrasada, acho que uns 15 minutos. E só terminou depois de três horas ( incluindo o intervalo ), mas o que eu vi foram pessoas felizes saindo do teatro, e não gente louca para ir embora. Muitos saíram cantarolando suas músicas preferidas da Elis, e aposto que assim como eu várias pessoas procuraram colocar a Elis para tocar no carro, na volta pra casa. Realmente, saímos de lá com aquele gostinho de ´quero mais´.






Elis, A Musical
Com Laila Garin, Tuca Andrada, Claudio Lins, Germano Melo, Danilo Timm, Ricardo Vieira, Leo Diniz, Keila Bueno, Lincoln Tornado
Texto de Nelson Motta e Patrícia Andrade
Direção de Dennis Carvalho
Teatro Alfa até 13/jul/14

sexta-feira, 14 de março de 2014

Il Trovatore

Primeira ópera do ano no Municipal de São Paulo: ´Il Trovatore´:



Mais uma vez fiz a assinatura da temporada lírica do Municipal, e pela primeira amostra do ano, sei que fiz a coisa certa.

´Il Trovatore´, ao menos para mim, não era uma ópera conhecida. O único trecho que me recordava dela era o ´Coro dos soldados´, no início do 2o ato. Os trechos com grandes coros costumam mesmo ser as minhas passagens favoritas, sempre fico impressionado quando se tem a voz humana em uníssono.  E não conhecer outras passagens, nem mesmo a o enredo da ópera, às vezes até que tem suas vantagens, faz com que a gente tenha o ´frescor´  da primeira audição, foi uma ótima experiência.

A  história é uma tragédia de folhetim: uma cigana ( Azucena )  viu sua mãe ser morta na fogueira, acusada de bruxaria. Para se vingar, ela rapta o filho do conde que ordenou a morte de sua mãe, para que o bebê seja também queimado numa fogueira. Mas cega pela raiva, ela queima o próprio filho! ( E isso é só o começo... ).  Ela então cria o bebê que raptara como se fosse seu filho, e ao se tornar adulto, ele ( que é Manrico, o Trovador ) se torna rival do Conde de Luna ( irmão do bebê raptado ). Ambos disputam não só o poder como também o amor de Leonora.

Para não se casar com o Conde de Luna, Leonora decide ir para um convento. Ambos os rivais tentam impedir que isso aconteça, mas quem leva a melhor é Manrico, e Leonora parte com ele. Mas andando pela floresta, Azucena ( a cigana mãe do Trovador Manrico ) é presa pelos soldados do Conde de Luna. Ela então é reconhecida como quem sequestrou o irmão do Conde, e além do mais, descobrem que é mãe de Manrico. Obviamente, ela é condenada à morte.

No palácio onde o casal Manrico e Leonora se encontrava ( não me pergunte como o filho da cigana tem um palácio! ), o casamento já está para acontecer quando chega um mensageiro dizendo que a mãe de Manrico será executada pelo Conde. Manrico então sai para salvar a mãe, mas é preso pelos soldados do Conde. Leonora, então, para salvar o amado decide prometer ao Conde que casará com ele, desde que a vida de Manrico seja poupada, claro. Mas ela não pretende cumprir a promessa, e toma veneno.  Daí tem um encontro com Manrico no calabouço, e ela revela seu plano a ele e desfalece, sob o efeito do veneno. O Conde de Luna vê que foi ludibriado, e executa Manrico. Nisso, a cigana ( que estava o tempo todo na mesma cela que o filho, mas dormindo ), acorda e vê que Manrico foi morto, e então revela ao Conde de Luna a verdade: ele acabara de matar o irmão, o bebê que ela havia sequestrado muitos anos atrás...  ou seja, dramalhão total.

Dessa vez o cenário não era tão impactante quanto das outras óperas no Municipal. Eram duas paredes nas laterais do palco, mas articuladas, que giravam em torno de um eixo que permitia que elas ficassem perpendiculares ao palco, ou mesmo inclinadas em relação à frente do palco. A da esquerda era totalmente devassada, com grades, e os seus três patamares eram interligados por escadas.  Já a parede da direita era mais fechada, e incrustada nela havia o que poderia ser uma sacada de um palácio. Ao fundo havia uma ´floresta´,  de onde se viam os troncos das árvores, e ao centro do palco, um buraco que fazia as vezes de fogueira.

Nessa noite o que ficou em primeiro plano foi realmente a música. Não entendo ´nada de nada´ em relação à ópera, mas deu pra perceber claramente que nessa quinta-feira nos foi proporcionada uma experiência musical superior a todas as outras do ano passado. A primeira a deixar uma ótima impressão, logo de início, foi a Marianne Cornetti ( Azucena ).  Depois foi a vez da Susanna Branchini ( Leonora ), numa cena no balcão.  Entre os homens, achei que o Alberto Gazale ( Conde de Luna ) foi apenas correto, enquanto o Manrico ( Stuart Neill ) arrasou. E mais do que qualquer performance individual, acho que dessa vez a integração entre o elenco e a orquestra estava perfeita. Tudo soava ´redondo´,  natural, mais do que nas outras récitas do ano passado. Que continue assim!




PS: No final, uma nota triste: na saída, o Salão Nobre do teatro estava sendo arrumado para o velório do Paulo Goulart, e inclusive o carro com o corpo já estava esperando, numa das entradas do Municipal. Fica a  homenagem a um ator que não cheguei a ver em cena, apenas a ouvi-lo como a voz de Deus, na estréia de ´Evangelho Segundo Jesus Cristo´, do Saramago, muitos anos atrás. 




Il Trovatore
Com Stuart Neill, Marianne Cornetti, Alberto Gazale, Susanna Branchini 

Ópera de Giuseppe Verdi, com libreto de Salvatore Cammarano
Regência de John Neschling
Theatro Municipal de São Paulo, até 22/mar/14

segunda-feira, 10 de março de 2014

Sempre Teremos Paris

De volta ao Teatro Raul Cortez  ( o mesmo de ´Divórcio´ ), e um dos meus preferidos em São Paulo, agora para assistir ´Nós sempre teremos Paris´:

Não havia programas disponíveis

Mas infelizmente, não foi uma experiência tranquila. Acontece que por causa de uma obra da CET no túnel do Anhangabaú, havia congestionamento desde a Praça Campo de Bagatelle. Demorei 50 minutos para andar 3km, porque os incompetentes da CET não foram capazes de colocar nenhum aviso de que haveria obra indicar para que as pessoas buscassem caminhos alternativos. O resultado é que perdi os 15 primeiros minutos da peça. Desde 2012, ainda antes de começar esse blog, que isso não acontecia.

Pelo menos o pessoal do ´staff´ foi muito atencioso, cheguei à bilheteria para pegar os ingressos ( que já estavam comprados ) e fui atendido rapidamente. Para não atrapalhar as outras pessoas, busquei um lugar na lateral, sem que tivesse que pedir licença a ninguém para sentar.

O palco era bem simples: um luminoso em neon com os dizeres ´Bistrô Paris 6´, que deve ser um dos patrocinadores, suspenso no centro do palco. Duas mesinhas e cadeiras em madeira, dessas de café, mais às cadeiras. À direita, um pequeno grupo musical, com violão, acordeon, teclado e bateria, tocados por três músicos.  Quando cheguei, a Françoise Forton estava cantando ´La vie em rose´.  E olha.... canta muito bem. Aos poucos fui ´pescando´  o enredo da peça: um casal conversa rapidamente num café em Paris, e ambos tem ali a certeza de haverem encontrado o amor de suas vidas. Mas eles não se encontram mais, e passam a levar suas vidas em outros relacionamentos, mas sem nunca esquecer daquele encontro. A estrutura é sempre de cada um conversar diretamente com a platéia, como se fossem dois amigos que contam a sua história. Não há a ´quarta parede´,  mas claro que há  alguns ganchos em que eles passam a se referir diretamente um ao outro. E no meio das histórias, vão citando elementos da cultura francesa, lugares de Paris, e cantando clássicos franceses: ´La vi em rose´, ´Ne me quitte pas´,  ´Non, Je Ne Regrette Rien´, e outras. 

Como eu já disse, a Françoise Forton surpreende cantando, e o Aloisio de Abreu também não faz feio.  A gente vai acompanhando os depoimentos dos dois, e claro, torcendo para o final feliz de um casal tão simpático. A peça é totalmente ´light´,  não tem grandes piadas, grandes reviravoltas... é mais ou menos como  se a gente acompanhasse dois amigos de meia-idade contando o seu romance. O ´clima´  todo da peça é de um registro suave, quase que à meia-voz, e funciona muito bem. É nítido que a platéia toda entra no clima. 

O final também é simpático. Além dos pedidos de aplausos à equipe  técnica ( músicos, iluminadores, operadores de som ),  dessa vez também houve uma salva de palmas ao autor do texto, Artur Xexéo, que estava presente. E aí os dois atores, como se estivessem agradecendo aos convidados de um casamento, foram até o foyer conversar com o público, posar para fotos... muito simpático. O título, que remete a um amor não concretizado do filme ´Casablanca´,  de certo modo engana: essa é uma história de amor com final feliz.





'Sempre teremos Paris'
Com Françoise Forton e Aloísio de Abreu
Direção de Jacqueline Laurence
Texto de Artur Xexéo
Teatro Raul Cortez, SP, até 30/mar/14

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Vingança - o Musical ( Retorno )

Eu já havia visto ´Vingança, o Musical´  no ano passado, então não é o caso de escrever tudo de novo.




A peça está novamente em cartaz no CCBB - SP, com apenas duas modificações: entraram Amanda Costa como ´Rosa´ e Leandro Luna como ´Alves´, o bicheiro.  Se a ´Rosa´  do ano passado, a Ana Carolina Machado, era mais bonita, achei que a Amanda Costa interpretou a personagem com mais garra. Já com o ´Alves´  acho que foi ao contrário: o Leandro Luna tem um físico mais de galã, mas deixou a desejar em algumas passagens. Mas nada que comprometesse o espetáculo.

O problema maior não estava no palco, estava atrás de mim... ontem havia um senhor de cabelos brancos sentado atrás de mim, que queria mostrar à acompanhante ( filha? esposa? namorada? amante? Não sei, mas era bem mais nova ), que ele conhecia as músicas. Então, aos primeiros acordes ele procurava dizer o título, e depois quando a interpretação era mais próxima das gravações, cantar junto. Quando não conseguia cantar, ficava batucando com o pé...  coisa pra tirar a concentração de qualquer um. Eu fiz ´shhhh´ algumas vezes, mas não resolveu.  Só que essa história me garantiu um momento de risada depois: nós estávamos saindo do CCBB, já no átrio central, quando eu estava falando que estava a ponto de virar para o cara e dizer ´Eu também sei cantar, que ver?´. Só que eu não contava que uma velhinha que estava por lá iria responder ´Eu quero!´. Todo mundo deu risada, inclusive eu!



´Vingança, o Musical´
Com Amanda Costa, Andrea Marquee, Anna Toledo, Jonathas Joba, Leandro Luna, Sergio Rufino
Direção de André Dias
Idealização e texto de Anna Toledo
Músicas de Lupicínio Rodrigues
CCBB, SP, até 18/abr/14


domingo, 23 de fevereiro de 2014

A Toca do Coelho

De volta ao Teatro Faap, e mais uma vez numa peça com o Gianecchini:



Mais uma vez, não havia programas disponíveis

Sábado à tarde, a cidade relativamente tranquila, mas antes mesmo de chegar ao teatro tive uma surpresa: o valor do estacionamento na Faap passou para absurdos R$ 40,00! Eu sempre soube que estacionar por lá era caro, mas me recusei a pagar esse valor. Por sorte o jogo no Estádio do Pacaembu só começaria depois, as ruas ainda estavam bem tranquilas, consegui vaga facilmente. E agora vendo as postagens antigas do blog e o extrato do ´Sem Parar´, vi que paguei R$ 20,00 em maio de 2013  ( quando fui à Faap assistir ´Quase Normal´), e ´apenas´ R$ 17,00 em setembro de 2013 ao assistir ´Cruel´! Como pode ter havido um aumento desses em apenas 5 meses? Simplesmente absurdo.


Mas de qualquer maneira isso não seria motivo para estragar a noite que estava só começando. Aliás, de sábado há duas sessões do espetáculo, sinal de que está fazendo muito sucesso. Essa foi mais uma peça com o Reynaldo Gianecchini, e de novo, a presença dele provocava suspiros na parte feminina da plateia. Gente gritando quando ele entrou no palco, assovios...  uma pena que isso aconteça. Na minha opinião, quem vai ao teatro com esse espírito de ver o ´ídolo´, acaba só vendo o ator, e não o personagem, e não aproveita o espetáculo como deveria. De certa maneira, acho que isso desqualifica o trabalho dele como ator, acaba sendo só um rosto/corpo bonito. E sem dúvida ele não merece essa reputação, é sim um ótimo ator, como demonstrou mais uma vez, assim como em ´Cruel´.

Ao entrar no teatro o cenário já estava exposto. O que víamos era uma casa, com  um sofá próximo a uma mesa de jantar e cadeiras, assim com uma geladeira, em primeiro plano. Do lado esquerdo, uma cama de casal, e mais ao fundo um dormitório infantil e jardim. Os  ambientes eram mais ou menos definidos pelas arestas de cubos em estrutura metálica branca, com uns 2,5m de lado. Em cima de alguns desses cubos, haviam ´tampas´ metálicas com uma tela fechando os quadrados,e que em alguns momentos receberam projeções de um filme.

A peça se inicia na conversa entre duas irmãs, Isa ( Simone Zucatto ) e Becca ( Maria Fernanda Cândido ). Isa é a irmã mais nova, inconsequente, e Becca a mais velha, mais centrada. Da conversa entre as duas ficamos sabendo que Isa está grávida, e Becca, que dobrava roupas de criança sobre a mesa, diz a ela que não vai me desfazer daquele enxoval, pois poderá servir para o bebê que está a caminho. Com a recusa de Isa, que não quer guardar as roupas para o bebê que ela nem sabe se vai ser menino ainda, é que ficamos sabendo que o filho de Becca faleceu. E o menino morto de certa maneira é o personagem principal da história.

A peça trata do luto, e do maior luto que alguém pode experimentar, que é a morte de um filho.  Depois do falecimento do único filho do casal, de 4 anos de idade, Becca e Paulo ( Reynaldo Gianecchini )  apresentam comportamentos opostos para continuar a viver após a tragédia. Becca se fecha em si mesma, Paulo busca apoio num grupo de ajuda. Becca vai aos poucos se desfazendo dos objetos do filho ( roupas, brinquedos ),  Paulo mantém o quarto do garoto intocado, e principalmente, guarda uma fita vhs com imagens do menino. É dessa diferença de encarar a morte que acontecem os conflitos entre o casal: vender ou não vender a casa, como reagir às tentativas de contato feitas pelo adolescente que atropelou o menino - Jason ( Felipe Hintze).  Mas estou deixando o principal de lado, a peça não é sobre os conflitos do casal, é sobre o luto. As diferenças de comportamento são apenas maneiras diferentes de expressar esse luto.

E aí vem o bom trabalho dos atores. Um tema como esse é fácil de escorregar para o melodrama, para o sentimentalismo barato. Mas felizmente isso não acontece, a gente percebe a direção tranquila que os atores tiveram. Tanto a Maria Fernanda Cândido quanto o Reynaldo Gianecchini vão muito bem em seus personagens, ela num registro mais contido, ele com mais alterações durante o desenvolvimento da trama, de um sedutor a um homem desesperado que chora copiosamente porque a mulher apagou sem querer a fita vhs com as poucas imagens do filho em movimento. São dois jeitos de encarar a dor, e cada um se desincumbiu muito bem da sua tarefa.

Mas tem uma grata surpresa na peça: o Felipe Hintze, que interpreta o adolescente que matou acidentalmente o garoto, tem um papel pequeno mas fundamental na encenação. É interessante ver um cara grande, corpulento, em papel tão delicado, com um personagem que obviamente se sente submisso aos pais do garoto morto por ter causado a tragédia da morte de uma criança, mesmo que involuntariamente. E quase que eu ia deixando de citar a Nat (Selma Egrei), mãe da Becca e da Isa, portanto avó do menino morto. Ela dá uns toques cômicos na peça, ajuda a tirar um pouco o clima pesado.

Outra coisa de que gostei bastante foi a interação entre o cenário, a iluminação com as projeções do garotinho, e o andamento da história. O cenário realmente ajudou a contar o enredo, com as projeções nas ´tampas´ dos cubos. Houve também um momento graficamente muito bonito, onde para marcar a passagem do tempo a luz ia desenhando as arestas de cada cubo. 

´A toca do coelho´  no final das contas é um ótimo espetáculo, um texto denso, forte, bons atores, bom cenário, e trata de um tema muito incômodo. Quem tem filho fica com um frio na espinha, só de pensar em passar por essa situação. Para mim isso é sinal de que houve uma empatia com os personagens, e não com os atores, não interessava se quem estava ali eram duas caras conhecidas das novelas da Rede Globo. Retomando o início do texto, que pena de quem não consegue ir além disso.




A Toca do Coelho
Com Maria Fernanda Cândido, Reynaldo Gianecchini, Selma Egrei, Simone Zucatto e Felipe Hintze
Texto de David Lindsay-Abaire
Direção de Dan Stulbach
Teatro Faap, até 23/fev/14

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Jocasta

Jocasta, no Teatro Eva Herz:



Engraçado que eu não achava que fazia tanto tempo desde a última vez em que estive no Eva Herz, para assistir ´Nise da Silveira - Senhora das Imagens´, mas isso foi em 2012, antes do início desse blog. Então vão algumas informações sobre o Eva Herz, que fica dentro da Livraria Cultura do Conjunto Nacional:  é um lugar de fácil acesso, com metrô na porta. Para quem vai de carro é mais complicado conseguir lugar para estacionar, mas a dica é se afastar um pouco do Conjunto Nacional, assim o custo do estacionamento fica bem mais baixo, e se tiver sorte, dá até para encontrar lugar na rua mesmo, já que na R. Pe. João Manuel e na Alameda Jaú é possível estacionar depois das oito da noite.  Pelo fato do teatro ficar dentro da livraria, o foyer é o próprio espaço de venda de livros, o que é muito bom pra ficar garimpando alguma coisa.  Lá dentro a sala de espetáculos não tem charme nenhum, carpete, poltronas, tudo liso, sem nenhum detalhe. Isso chama a atenção pelo contraste com a própria livraria, um projeto tão legal do arquiteto Fernando Brandão. Dá a impressão de que para o teatro foi suficiente proporcionar as condições básicas de conforto para a platéia, sem a mesma preocupação estética e lúdica da livraria. Tudo certo em termos de conforto, as poltronas são boas, o espaço para as pernas não é muito apertado, enfim, se contentaram em fazer o básico, mas fizeram bem feito.

A peça dessa quinta-feira era ´Jocasta´, um monólogo interpretado pela Débora Duboc com o texto de uma adaptação feita pelo Elias Andreato ( que entre outros trabalhos, também esteve em ´Eu não dava praquilo´  e ´Cruel´  para o mito grego. O que se poderia esperar, além de uma boa peça? E cumpriu a expectativa. 

Essa versão do mito de Édipo é narrada a partir o ponto de vista da mãe e esposa dele, a própria Jocasta. No programa a plateia é informada de que no mito original Jocasta quase não tem falas, e como está na boca da personagem e também no programa, ´Jocasta faz tudo o que está ao seu alcance para cumprir com seu papel de Rainha, Mulher e Mãe. Com Rainha, ela tem que submeter-se aos poderes de seu rei. Como Mulher, ela é obrigada a submeter-se aos desejos de seu homem. Como Mãe, ela é obrigada a submeter-se aos desígnios cruéis dos deuses.´.   Mas dessa vez será Jocasta quem irá falar diretamente à plateia, ou melhor, à Assembleia de Tebas, que é como a personagem se refere a quem ouve a sua história. 

O cenário é simples, duas pequenas mesas nas laterais com jarro e uma boneca sobre elas, uma cadeira de acrílico transparente, um fio vermelho que pende do teto. As paredes laterais e o fundo do palco são fechadas por cortinas.  A peça tem início com Jocasta deitada no centro do palco, com fios que prendem suas mãos aos céus. Ao se levantar, ela tem um gestual de marionete, como se fosse uma boneca manipulada pelos deuses, e aos poucos vai se livrando desses fios em suas mãos, e também esse gestual vai diminuindo. Outra coisa que chama a atenção é o figurino, um vestido azul do Fause Haten - de novo ele, acho que já posso dizer que quando for a uma peça e o figurino for impecável, 90% de chance dele ser o responsável.

O texto, é claro, é pesado. Uma mulher que é indicada para desposar o rei ( Laio ), mas este só lamenta a morte de seu amante, até que finalmente ele faz um filho nela. Esse filho é o portador de uma maldição, e é levado para ser morto...  anos depois Laio morre, e a cidade de Tebas vive um período de fome e peste, que só é encerrado com a chegada de Édipo, que ao salvar a cidade é consagrado como o novo rei, e portanto, marido de Jocasta. Ela então vive um período de felicidade, até descobrir que na verdade seu novo marido é seu filho com Laio... e novamente a tragédia dá as caras em sua vida. Foi interessante que enquanto a peça se desenrolava, eu também lembrava da encenação de ´Édipo Rei´, que assisti ano passado. De certa maneira, uma complementou a outra. 

O texto é um prato cheio para psicólogos, psiquiatras, feministas, mas eu não entrei nesse caminho durante a apresentação. Me fixei mais em perceber como era apresentado o sofrimento extremo dessa mulher, e como a atriz transmitia isso. Em nenhum momento a interpretação resvala para o sentimentalismo barato, o dramalhão. Pelo contrário, é o sofrimento apresentado de forma profunda, ´limpa´,  sem excessos, sem maneirismos.  Alguns ´respiros´  eram dados em pequenas músicas interpretadas ao vivo pela Débora Duboc, que davam mais leveza à encenação.

Mas teve uma coisa de que não gostei: a iluminação em determinados momentos é voltada direta para a Assembleia de Tebas, ou seja, para o público. E isso incomodava, a luz relativamente forte nos olhos de quem está no escuro chega a doer os olhos, e se a intenção foi a de trazer o público para dentro da peça, na minha opinião isso causou o efeito contrário. 

Não é uma peça fácil, dessas que se vai comer uma pizza e bater papo. Pelo contrário, pede uma reflexão para digerir todo esse sofrimento. 






Jocasta
Com Débora Duboc

Texto e Direção de Elias Andreato
Teatro Eva Herz, até 27/mar/14

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Tríptico Samuel Beckett

Um autor fundamental do teatro,  um lugar legal, uma grande atriz..... ´Tríptico Samuel Beckett´ tinha tudo para propiciar uma noite bastante interessante. Mas...




A primeira visita do ano ao CCBB foi em plena segunda-feira, um dia bastante diferente para ir ao teatro, e por isso mesmo, muito bom. Dificilmente eu teria outro compromisso no mesmo dia, como costuma acontecer aos finais de semana.

E a expectativa era muito boa, conforme descrevi no primeiro parágrafo, e o maior interesse era entrar um pouco mais na obra do Prêmio Nobel de Literatura, autor de ´Esperando Godot´.  Só que não foi dessa vez...

Eu fui ao teatro sem ter lido nada sobre a peça antes, e dessa vez nem o programa deu pra ler, já que era impresso com fundo preto, e a platéia estava na penumbra. Só o que eu sabia é que o texto foi construído a partir de fragmentos de três peças do autor ( óbvio, com esse nome... ).

Quando entrei na sala de espetáculos, as atrizes já estavam no palco, imóveis. Toda a cenografia é preta, os figurinos são pretos, cada uma está sentada em uma cadeira, com a Nathália Timberg ao centro. No fundo, um grande esqueleto humano ( maior que uma pessoa em escala natural ), e um backlight com uma caveira. Apenas a Paula Spinelli se movimentava, com o olhar arregalado e piscando insistentemente.

Depois dos avisos de praxe sobre a segurança do local e os patrocinadores, ouve-se o terceiro sinal e a Juliana Galdino dá início à função. Somente ela é iluminada por uma luz branca e dura, recortada em forma de um retângulo. O texto é pesado, a fala é alternada entre quase um sussurro e verdadeiros gritos, onde a gente até se assusta com a voz grave dela. Ok, vamos lá acompanhando, 5, 10, 15 minutos de monólogo ( não sei bem, obviamente estou falando da sensação do tempo, e não do tempo cronometrado ), e o interesse vai se esvaindo... são frases e frases sobre a vida, ditas com intensidade, numa verborragia difícil de acompanhar.

Aí é a vez da Paula Spinelli, num tom mais calmo apresentar o seu texto.  Praticamente não há gestos, quase não saem do lugar, é apenas a palavra dita pelos intérpretes que tem importância. Mas dessa vez, o texto recitado é mais curto, e menos impactante.  E finalmente chega a vez da Natália Timberg, que também faz seu papel com mais suavidade, apesar do texto pesado.  E aí a dinâmica segue assim, cada uma falando o seu texto separadamente. O máximo de interação que acontece é através dos olhares, e dá a entender que as três atrizes representam a mesma mulher em 3 fases da vida.

As atrizes, diretor, produtor, cenógrafo, iluminador, camareiro, figurinista ( ou seus correspondentes do sexo oposto ) que me desculpem, mas... não gostei, nem um pouco. Acho até que entendi a proposta de se dar total importância à linguagem, mas acho que não foram felizes. Sinceramente, duvido que alguém que não seja estudante de teatro e que já conheça as peças do Beckett vai sair de lá com alguma coisa do universo dele na cabeça. Como exercício para as atrizes deve ser fantástico, mas como espectador foi decepcionante.

Acontece. Fica pra próxima.

Tríptico Samuel Beckett
Com Natália Timberg, Paula Spinelli e Juliana Galdino
Adaptação de Roberto Alvim sobre textos de Samuel Beckett
Direção de Roberto Alvim
CCBB SP, até 14/abr/14