Jocasta, no Teatro Eva Herz:
Engraçado que eu não achava que fazia tanto tempo desde a última vez em que estive no Eva Herz, para assistir ´Nise da Silveira - Senhora das Imagens´, mas isso foi em 2012, antes do início desse blog. Então vão algumas informações sobre o Eva Herz, que fica dentro da Livraria Cultura do Conjunto Nacional: é um lugar de fácil acesso, com metrô na porta. Para quem vai de carro é mais complicado conseguir lugar para estacionar, mas a dica é se afastar um pouco do Conjunto Nacional, assim o custo do estacionamento fica bem mais baixo, e se tiver sorte, dá até para encontrar lugar na rua mesmo, já que na R. Pe. João Manuel e na Alameda Jaú é possível estacionar depois das oito da noite. Pelo fato do teatro ficar dentro da livraria, o foyer é o próprio espaço de venda de livros, o que é muito bom pra ficar garimpando alguma coisa. Lá dentro a sala de espetáculos não tem charme nenhum, carpete, poltronas, tudo liso, sem nenhum detalhe. Isso chama a atenção pelo contraste com a própria livraria, um projeto tão legal do arquiteto Fernando Brandão. Dá a impressão de que para o teatro foi suficiente proporcionar as condições básicas de conforto para a platéia, sem a mesma preocupação estética e lúdica da livraria. Tudo certo em termos de conforto, as poltronas são boas, o espaço para as pernas não é muito apertado, enfim, se contentaram em fazer o básico, mas fizeram bem feito.
A peça dessa quinta-feira era ´Jocasta´, um monólogo interpretado pela Débora Duboc com o texto de uma adaptação feita pelo Elias Andreato ( que entre outros trabalhos, também esteve em ´Eu não dava praquilo´ e ´Cruel´ para o mito grego. O que se poderia esperar, além de uma boa peça? E cumpriu a expectativa.
Essa versão do mito de Édipo é narrada a partir o ponto de vista da mãe e esposa dele, a própria Jocasta. No programa a plateia é informada de que no mito original Jocasta quase não tem falas, e como está na boca da personagem e também no programa, ´Jocasta faz tudo o que está ao seu alcance para cumprir com seu papel de Rainha, Mulher e Mãe. Com Rainha, ela tem que submeter-se aos poderes de seu rei. Como Mulher, ela é obrigada a submeter-se aos desejos de seu homem. Como Mãe, ela é obrigada a submeter-se aos desígnios cruéis dos deuses.´. Mas dessa vez será Jocasta quem irá falar diretamente à plateia, ou melhor, à Assembleia de Tebas, que é como a personagem se refere a quem ouve a sua história.
O cenário é simples, duas pequenas mesas nas laterais com jarro e uma boneca sobre elas, uma cadeira de acrílico transparente, um fio vermelho que pende do teto. As paredes laterais e o fundo do palco são fechadas por cortinas. A peça tem início com Jocasta deitada no centro do palco, com fios que prendem suas mãos aos céus. Ao se levantar, ela tem um gestual de marionete, como se fosse uma boneca manipulada pelos deuses, e aos poucos vai se livrando desses fios em suas mãos, e também esse gestual vai diminuindo. Outra coisa que chama a atenção é o figurino, um vestido azul do Fause Haten - de novo ele, acho que já posso dizer que quando for a uma peça e o figurino for impecável, 90% de chance dele ser o responsável.
O texto, é claro, é pesado. Uma mulher que é indicada para desposar o rei ( Laio ), mas este só lamenta a morte de seu amante, até que finalmente ele faz um filho nela. Esse filho é o portador de uma maldição, e é levado para ser morto... anos depois Laio morre, e a cidade de Tebas vive um período de fome e peste, que só é encerrado com a chegada de Édipo, que ao salvar a cidade é consagrado como o novo rei, e portanto, marido de Jocasta. Ela então vive um período de felicidade, até descobrir que na verdade seu novo marido é seu filho com Laio... e novamente a tragédia dá as caras em sua vida. Foi interessante que enquanto a peça se desenrolava, eu também lembrava da encenação de ´Édipo Rei´, que assisti ano passado. De certa maneira, uma complementou a outra.
O texto é um prato cheio para psicólogos, psiquiatras, feministas, mas eu não entrei nesse caminho durante a apresentação. Me fixei mais em perceber como era apresentado o sofrimento extremo dessa mulher, e como a atriz transmitia isso. Em nenhum momento a interpretação resvala para o sentimentalismo barato, o dramalhão. Pelo contrário, é o sofrimento apresentado de forma profunda, ´limpa´, sem excessos, sem maneirismos. Alguns ´respiros´ eram dados em pequenas músicas interpretadas ao vivo pela Débora Duboc, que davam mais leveza à encenação.
Mas teve uma coisa de que não gostei: a iluminação em determinados momentos é voltada direta para a Assembleia de Tebas, ou seja, para o público. E isso incomodava, a luz relativamente forte nos olhos de quem está no escuro chega a doer os olhos, e se a intenção foi a de trazer o público para dentro da peça, na minha opinião isso causou o efeito contrário.
Não é uma peça fácil, dessas que se vai comer uma pizza e bater papo. Pelo contrário, pede uma reflexão para digerir todo esse sofrimento.
Jocasta
Com Débora Duboc
Texto e Direção de Elias Andreato
Teatro Eva Herz, até 27/mar/14
sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014
terça-feira, 4 de fevereiro de 2014
Tríptico Samuel Beckett
Um autor fundamental do teatro, um lugar legal, uma grande atriz..... ´Tríptico Samuel Beckett´ tinha tudo para propiciar uma noite bastante interessante. Mas...
A primeira visita do ano ao CCBB foi em plena segunda-feira, um dia bastante diferente para ir ao teatro, e por isso mesmo, muito bom. Dificilmente eu teria outro compromisso no mesmo dia, como costuma acontecer aos finais de semana.
E a expectativa era muito boa, conforme descrevi no primeiro parágrafo, e o maior interesse era entrar um pouco mais na obra do Prêmio Nobel de Literatura, autor de ´Esperando Godot´. Só que não foi dessa vez...
Eu fui ao teatro sem ter lido nada sobre a peça antes, e dessa vez nem o programa deu pra ler, já que era impresso com fundo preto, e a platéia estava na penumbra. Só o que eu sabia é que o texto foi construído a partir de fragmentos de três peças do autor ( óbvio, com esse nome... ).
Quando entrei na sala de espetáculos, as atrizes já estavam no palco, imóveis. Toda a cenografia é preta, os figurinos são pretos, cada uma está sentada em uma cadeira, com a Nathália Timberg ao centro. No fundo, um grande esqueleto humano ( maior que uma pessoa em escala natural ), e um backlight com uma caveira. Apenas a Paula Spinelli se movimentava, com o olhar arregalado e piscando insistentemente.
Depois dos avisos de praxe sobre a segurança do local e os patrocinadores, ouve-se o terceiro sinal e a Juliana Galdino dá início à função. Somente ela é iluminada por uma luz branca e dura, recortada em forma de um retângulo. O texto é pesado, a fala é alternada entre quase um sussurro e verdadeiros gritos, onde a gente até se assusta com a voz grave dela. Ok, vamos lá acompanhando, 5, 10, 15 minutos de monólogo ( não sei bem, obviamente estou falando da sensação do tempo, e não do tempo cronometrado ), e o interesse vai se esvaindo... são frases e frases sobre a vida, ditas com intensidade, numa verborragia difícil de acompanhar.
Aí é a vez da Paula Spinelli, num tom mais calmo apresentar o seu texto. Praticamente não há gestos, quase não saem do lugar, é apenas a palavra dita pelos intérpretes que tem importância. Mas dessa vez, o texto recitado é mais curto, e menos impactante. E finalmente chega a vez da Natália Timberg, que também faz seu papel com mais suavidade, apesar do texto pesado. E aí a dinâmica segue assim, cada uma falando o seu texto separadamente. O máximo de interação que acontece é através dos olhares, e dá a entender que as três atrizes representam a mesma mulher em 3 fases da vida.
As atrizes, diretor, produtor, cenógrafo, iluminador, camareiro, figurinista ( ou seus correspondentes do sexo oposto ) que me desculpem, mas... não gostei, nem um pouco. Acho até que entendi a proposta de se dar total importância à linguagem, mas acho que não foram felizes. Sinceramente, duvido que alguém que não seja estudante de teatro e que já conheça as peças do Beckett vai sair de lá com alguma coisa do universo dele na cabeça. Como exercício para as atrizes deve ser fantástico, mas como espectador foi decepcionante.
Acontece. Fica pra próxima.
Tríptico Samuel Beckett
Com Natália Timberg, Paula Spinelli e Juliana Galdino
Adaptação de Roberto Alvim sobre textos de Samuel Beckett
Direção de Roberto Alvim
CCBB SP, até 14/abr/14
A primeira visita do ano ao CCBB foi em plena segunda-feira, um dia bastante diferente para ir ao teatro, e por isso mesmo, muito bom. Dificilmente eu teria outro compromisso no mesmo dia, como costuma acontecer aos finais de semana.
E a expectativa era muito boa, conforme descrevi no primeiro parágrafo, e o maior interesse era entrar um pouco mais na obra do Prêmio Nobel de Literatura, autor de ´Esperando Godot´. Só que não foi dessa vez...
Eu fui ao teatro sem ter lido nada sobre a peça antes, e dessa vez nem o programa deu pra ler, já que era impresso com fundo preto, e a platéia estava na penumbra. Só o que eu sabia é que o texto foi construído a partir de fragmentos de três peças do autor ( óbvio, com esse nome... ).
Quando entrei na sala de espetáculos, as atrizes já estavam no palco, imóveis. Toda a cenografia é preta, os figurinos são pretos, cada uma está sentada em uma cadeira, com a Nathália Timberg ao centro. No fundo, um grande esqueleto humano ( maior que uma pessoa em escala natural ), e um backlight com uma caveira. Apenas a Paula Spinelli se movimentava, com o olhar arregalado e piscando insistentemente.
Depois dos avisos de praxe sobre a segurança do local e os patrocinadores, ouve-se o terceiro sinal e a Juliana Galdino dá início à função. Somente ela é iluminada por uma luz branca e dura, recortada em forma de um retângulo. O texto é pesado, a fala é alternada entre quase um sussurro e verdadeiros gritos, onde a gente até se assusta com a voz grave dela. Ok, vamos lá acompanhando, 5, 10, 15 minutos de monólogo ( não sei bem, obviamente estou falando da sensação do tempo, e não do tempo cronometrado ), e o interesse vai se esvaindo... são frases e frases sobre a vida, ditas com intensidade, numa verborragia difícil de acompanhar.
Aí é a vez da Paula Spinelli, num tom mais calmo apresentar o seu texto. Praticamente não há gestos, quase não saem do lugar, é apenas a palavra dita pelos intérpretes que tem importância. Mas dessa vez, o texto recitado é mais curto, e menos impactante. E finalmente chega a vez da Natália Timberg, que também faz seu papel com mais suavidade, apesar do texto pesado. E aí a dinâmica segue assim, cada uma falando o seu texto separadamente. O máximo de interação que acontece é através dos olhares, e dá a entender que as três atrizes representam a mesma mulher em 3 fases da vida.
As atrizes, diretor, produtor, cenógrafo, iluminador, camareiro, figurinista ( ou seus correspondentes do sexo oposto ) que me desculpem, mas... não gostei, nem um pouco. Acho até que entendi a proposta de se dar total importância à linguagem, mas acho que não foram felizes. Sinceramente, duvido que alguém que não seja estudante de teatro e que já conheça as peças do Beckett vai sair de lá com alguma coisa do universo dele na cabeça. Como exercício para as atrizes deve ser fantástico, mas como espectador foi decepcionante.
Acontece. Fica pra próxima.
Tríptico Samuel Beckett
Com Natália Timberg, Paula Spinelli e Juliana Galdino
Adaptação de Roberto Alvim sobre textos de Samuel Beckett
Direção de Roberto Alvim
CCBB SP, até 14/abr/14
domingo, 26 de janeiro de 2014
A arte da comédia
Primeira peça do circuito Sesc no ano, e comecei muitíssimo bem. Sem dúvida ´A arte da Comédia´ já pode ser considerada uma das melhores do ano que começa:
O Sesc Santana para mim tem uma vantagem adicional: é perto de casa. Mas melhor do que isso, também é de fácil acesso para quem vai de metrô, conta com um estacionamento de tamanho razoável para as suas instalações, e sempre é possível encontrar vagas - ao contrário do Sesc Vila Mariana, por exemplo. Lá dentro, o teatro propicia uma boa visualização do palco em praticamente qualquer posição ( com exceção das extremidades próximas ao palco, claro ). Os degraus entre as fileiras são bem altos, e mesmo com alguém alto sentado à sua frente não haveria problemas. O desconforto acontece só pela distância entre as poltronas, muito pequena para acomodar as pernas... E mais uma coisa: tem dois lugares para jantar depois que gosto bastante e que ficam perto do Sesc Santana: o ´Pizzas e Pizzas´, na Av. Altinópolis, um lugar simples mas que para mim faz uma das melhores pizzas da cidade, e o ´Dona Carmela´, restaurante italiano na Av. Braz Leme, que foi o escolhido dessa noite.
Só que o que interessa mesmo é a peça... e foi ótima. De início há um monólogo feito pelo personagem Orestes ( Ricardo Blat ), onde ele fala basicamente sobre a arte de representar, e o que isso significa na vida de quem é tomado por essa profissão / paixão. Aliás, tempos atrás eu vi uma entrevista do Ricardo Blat, e o texto da peça nem parecia coisa de um personagem, mas sim do próprio ator falando de sua relação com os palcos. O ator certo para o personagem, sem dúvida. O cenário nesse momento é dominado por um pano branco, que junto com uma parede com uma porta ao fundo, dá a medida de um pátio de 20x20 metros. Essa informação de medida é dada pelo próprio texto, que afirma que cenários precisos, com detalhes realistas é coisa de... cinema. Que no teatro as coisas são sugeridas, e o espectador preenche as lacunas com a sua imaginação. Ou seja, o cenário é a expressão clara do texto - bem legal.
Depois desse monólogo o tecido branco que representava a neve foi recolhido, e por debaixo dele havia um tapete. Mesas e cadeiras são colocadas sobre o tapete, um quadro desce do teto, ao fundo o cenário com a parede e a porta continua o mesmo, e pronto: fomos transportados a uma sala da prefeitura de uma pequena cidade italiana. Aí a história começa a ficar mais clara: Orestes é um diretor-proprietário de uma pequena companhia teatral, formada basicamente pela sua família. Ele tinha um barracão na periferia, onde encenava suas peças para o pessoal mais pobre da cidade. Agora ele até conseguiu do prefeito anterior a cessão do Teatro Municipal da cidade para continuar seu trabalho, mas não vem dando certo: a elite não quer ver suas peças, e o ´povão´ não se sente à vontade, e consequentemente não frequenta o espaço.
Depois de ser humilhado pelo aspone do novo prefeito, representado por Gustavo Wabner, Orestes consegue uma audiência logo no primeiro dia de trabalho do prefeito ( Thelmo Fernandes ), que é um forasteiro nomeado para cuidar da administração da cidade, e que portanto ainda não conhece ninguém. O prefeito tem uma lista de personalidades locais para receber - o padre, o médico - mas como ele foi um ator amador na juventude, tem algum interesse especial em teatro e atende a Orestes na esperança de ter um momento mais ameno em sua rotina.
Daí acontece uma conversa hilária entre os dois, com Orestes procurando ser subserviente ao prefeito para conseguir as benesses que foi pedir à administração pública ( um novo barracão para encenar seus espetáculos, já que o antigo foi consumido por um incêndio ), mas ao mesmo tempo discordando das ideias absolutamente convencionais do prefeito. É um jogo de esperteza de Orestes, uma malandragem que dá a entender ao prefeito obtuso que concorda com ele, ao mesmo tempo em que não nega as suas crenças - e o texto é divertidíssimo. A conversa entre os dois, simulacro e realidade, sonho e objetividade, leva a um embate no qual Orestes ao ver negado o seu pedido, diz que o prefeito pode muito bem ser enganado por seus atores, numa provocação em que procura mostrar ao prefeito o poder da fantasia. E aí, por um erro do aspone, Orestes sai com a lista dos ´notáveis´ da cidade que o prefeito deve receber naquele dia.
A dúvida se instala no gabinete do prefeito: quem irá aparecer nas audiências, as personalidades da cidade ou atores travestidos? E a cada palavra dita pelos visitantes que remete ao universo do teatro, o prefeito e seu assistente vão se convencendo de que estão diante de farsantes. O texto tem sempre esse tom dúbio, de desconfiança, e muito divertido. Essas referências à própria arte de representar levam a trama a uma situação em que os personagens não sabem se estão vivendo a realidade ou uma representação... E é essa a grande questão da peça: a vida é um teatro?
Ricardo Blat e Thelmo Fernandes realmente merecem muitos e muitos aplausos, a atuação dos dois é incrível. Os outros atores, claro, também. E eu não conhecia o autor, o italiano Eduardo di Felippo. Daqui pra frente vou ficar de olho para mais montagens de texto dele.
A Arte da Comédia
Com Ricardo Blat, Thelmo Fernandes, Erika Riba, Gustavo Wabner, Alcemar Vieira, Celso André, Alex Pinheiro, Sávio Moll, Teresa Tostes, Poena Viana, Bruno Gonçalves, Sergio Somene e Renato Bavier.
Texto de Eduardo Di Felippo
Direção de Sérgio Modena
Sesc Santana, até 09/fev/14
O Sesc Santana para mim tem uma vantagem adicional: é perto de casa. Mas melhor do que isso, também é de fácil acesso para quem vai de metrô, conta com um estacionamento de tamanho razoável para as suas instalações, e sempre é possível encontrar vagas - ao contrário do Sesc Vila Mariana, por exemplo. Lá dentro, o teatro propicia uma boa visualização do palco em praticamente qualquer posição ( com exceção das extremidades próximas ao palco, claro ). Os degraus entre as fileiras são bem altos, e mesmo com alguém alto sentado à sua frente não haveria problemas. O desconforto acontece só pela distância entre as poltronas, muito pequena para acomodar as pernas... E mais uma coisa: tem dois lugares para jantar depois que gosto bastante e que ficam perto do Sesc Santana: o ´Pizzas e Pizzas´, na Av. Altinópolis, um lugar simples mas que para mim faz uma das melhores pizzas da cidade, e o ´Dona Carmela´, restaurante italiano na Av. Braz Leme, que foi o escolhido dessa noite.
Só que o que interessa mesmo é a peça... e foi ótima. De início há um monólogo feito pelo personagem Orestes ( Ricardo Blat ), onde ele fala basicamente sobre a arte de representar, e o que isso significa na vida de quem é tomado por essa profissão / paixão. Aliás, tempos atrás eu vi uma entrevista do Ricardo Blat, e o texto da peça nem parecia coisa de um personagem, mas sim do próprio ator falando de sua relação com os palcos. O ator certo para o personagem, sem dúvida. O cenário nesse momento é dominado por um pano branco, que junto com uma parede com uma porta ao fundo, dá a medida de um pátio de 20x20 metros. Essa informação de medida é dada pelo próprio texto, que afirma que cenários precisos, com detalhes realistas é coisa de... cinema. Que no teatro as coisas são sugeridas, e o espectador preenche as lacunas com a sua imaginação. Ou seja, o cenário é a expressão clara do texto - bem legal.
Depois desse monólogo o tecido branco que representava a neve foi recolhido, e por debaixo dele havia um tapete. Mesas e cadeiras são colocadas sobre o tapete, um quadro desce do teto, ao fundo o cenário com a parede e a porta continua o mesmo, e pronto: fomos transportados a uma sala da prefeitura de uma pequena cidade italiana. Aí a história começa a ficar mais clara: Orestes é um diretor-proprietário de uma pequena companhia teatral, formada basicamente pela sua família. Ele tinha um barracão na periferia, onde encenava suas peças para o pessoal mais pobre da cidade. Agora ele até conseguiu do prefeito anterior a cessão do Teatro Municipal da cidade para continuar seu trabalho, mas não vem dando certo: a elite não quer ver suas peças, e o ´povão´ não se sente à vontade, e consequentemente não frequenta o espaço.
Depois de ser humilhado pelo aspone do novo prefeito, representado por Gustavo Wabner, Orestes consegue uma audiência logo no primeiro dia de trabalho do prefeito ( Thelmo Fernandes ), que é um forasteiro nomeado para cuidar da administração da cidade, e que portanto ainda não conhece ninguém. O prefeito tem uma lista de personalidades locais para receber - o padre, o médico - mas como ele foi um ator amador na juventude, tem algum interesse especial em teatro e atende a Orestes na esperança de ter um momento mais ameno em sua rotina.
Daí acontece uma conversa hilária entre os dois, com Orestes procurando ser subserviente ao prefeito para conseguir as benesses que foi pedir à administração pública ( um novo barracão para encenar seus espetáculos, já que o antigo foi consumido por um incêndio ), mas ao mesmo tempo discordando das ideias absolutamente convencionais do prefeito. É um jogo de esperteza de Orestes, uma malandragem que dá a entender ao prefeito obtuso que concorda com ele, ao mesmo tempo em que não nega as suas crenças - e o texto é divertidíssimo. A conversa entre os dois, simulacro e realidade, sonho e objetividade, leva a um embate no qual Orestes ao ver negado o seu pedido, diz que o prefeito pode muito bem ser enganado por seus atores, numa provocação em que procura mostrar ao prefeito o poder da fantasia. E aí, por um erro do aspone, Orestes sai com a lista dos ´notáveis´ da cidade que o prefeito deve receber naquele dia.
A dúvida se instala no gabinete do prefeito: quem irá aparecer nas audiências, as personalidades da cidade ou atores travestidos? E a cada palavra dita pelos visitantes que remete ao universo do teatro, o prefeito e seu assistente vão se convencendo de que estão diante de farsantes. O texto tem sempre esse tom dúbio, de desconfiança, e muito divertido. Essas referências à própria arte de representar levam a trama a uma situação em que os personagens não sabem se estão vivendo a realidade ou uma representação... E é essa a grande questão da peça: a vida é um teatro?
Ricardo Blat e Thelmo Fernandes realmente merecem muitos e muitos aplausos, a atuação dos dois é incrível. Os outros atores, claro, também. E eu não conhecia o autor, o italiano Eduardo di Felippo. Daqui pra frente vou ficar de olho para mais montagens de texto dele.
A Arte da Comédia
Com Ricardo Blat, Thelmo Fernandes, Erika Riba, Gustavo Wabner, Alcemar Vieira, Celso André, Alex Pinheiro, Sávio Moll, Teresa Tostes, Poena Viana, Bruno Gonçalves, Sergio Somene e Renato Bavier.
Texto de Eduardo Di Felippo
Direção de Sérgio Modena
Sesc Santana, até 09/fev/14
sábado, 25 de janeiro de 2014
Bem-vindo, Estranho
Uma curiosidade que só foi possível perceber por estar escrevendo esse blog, é que no ano passado a primeira montagem que assisti foi ´A entrevista´, no Teatro Vivo. Em 2014 esse teatro ficou para a segunda peça da temporada, pouco mais de um ano depois da última visita:
´Bem-vindo, Estranho' tem o apelo de contar com uma das mais populares atrizes da história da televisão, Regina Duarte. E mesmo eu não sendo exatamente alguém que acompanhe novelas, às vezes dava mesmo a impressão de se estar assistindo à tv, por contar com uma voz tão familiar ali no teatro.
Mas ´Bem-vindo, Estranho´ tem características mais próximas do cinema, dos filmes ´noir´, do que das novelas brasileiras. É quase como se a gente estivesse assistindo a um filme de suspense, só que ao vivo. Não acho que haja grandes reflexões sobre a vida, as relações familiares, as aparências, a justiça, apesar de esses assuntos serem pertinentes ao universo da peça. Eu pelo menos encarei mais como um grande entretenimento, sem maiores pretensões, e acho que a montagem cumpre muito bem esse papel. Acho que quem for ao Teatro Vivo procurar um bom entretenimento vai gostar da peça, assim como eu.
É a história de duas mulheres, mãe e filha, que vivem sozinhas em um apartamento popular em Londres. A mãe, Jaki ( Regina Duarte ), é mais descontraída, meio ´porra-louca´, e a filha Elaine ( Mariana Loureiro ), é uma jovem advogada, toda certinha, que foi criada somente pela mãe. Há um conflito permanente entre as duas, com Jaki sendo provocada o tempo todo por sua mãe, que tem um comportamento entre infantilizado e auto-destrutivo, e que procura manipular a filha a seu bel-prazer.
Mas a relação familiar complica mesmo quando Elaine traz para morar com ela o namorado, Joseph ( Kiko Bertholini ). Joseph acabou de sair da prisão, onde estava por ser acusado te ter matado a sua ex-namorada, e foi como defensora dele que Elaine o conheceu - daí o título da peça. Mas vou parar de contar o enredo por aqui, já que é uma história de suspense. Mesmo não indo até o final, que foi mesmo surpreendente, há pequenas revelações no enredo que vale a pena quem for assistir poder curtir também, então é melhor não revelar mais nada.
O cenário da peça é fixo, um apartamento antigo da classe baixa londrina. Aliás, com alguns detalhes muito elegantes: porta dupla, barra-lisa de papel de parede com rodameio, janelas altas... ok, ser pobre em Londres deve ser mesmo muito chique! Ao mesmo tempo em que vemos a sala onde se desenvolve boa parte da trama, também temos a vista do banheiro, pois os momentos em que os personagens estão lá são os mais dramáticos. O figurino é ´ok´, nada que tenha me chamado a atenção. O que me irritou um pouco na montagem foi a sonoplastia... as músicas para criar o clima de suspense eram sempre muito altas, óbvias, e davam um ar forçado à cena. Comparando, me pareceu algo tão natural quanto àquelas risadas nos programas de humor popular... totalmente dispensáveis.
Como já disse, a voz da Regina Duarte é tão familiar que fica difícil esquecer que é a Regina Duarte em cena, mas isso é mérito de toda uma vida, de toda a carreira dela. O fato é que ela está muito à vontade no papel de uma mãe que amando muito a filha, a inferniza o tempo todo. O Kiko Bertholini tem um biotipo bem europeu, adequado ao personagem, mas apesar de não comprometer a peça, em minha opinião teve um desempenho um pouco abaixo das mulheres. Pra mim o grande destaque da apresentação foi a Mariana Loureiro, que faz uma filha oprimida e amorosa, uma namorada apaixonada e vingativa...
´Bem-vindo, Estranho' tem o apelo de contar com uma das mais populares atrizes da história da televisão, Regina Duarte. E mesmo eu não sendo exatamente alguém que acompanhe novelas, às vezes dava mesmo a impressão de se estar assistindo à tv, por contar com uma voz tão familiar ali no teatro.
Mas ´Bem-vindo, Estranho´ tem características mais próximas do cinema, dos filmes ´noir´, do que das novelas brasileiras. É quase como se a gente estivesse assistindo a um filme de suspense, só que ao vivo. Não acho que haja grandes reflexões sobre a vida, as relações familiares, as aparências, a justiça, apesar de esses assuntos serem pertinentes ao universo da peça. Eu pelo menos encarei mais como um grande entretenimento, sem maiores pretensões, e acho que a montagem cumpre muito bem esse papel. Acho que quem for ao Teatro Vivo procurar um bom entretenimento vai gostar da peça, assim como eu.
É a história de duas mulheres, mãe e filha, que vivem sozinhas em um apartamento popular em Londres. A mãe, Jaki ( Regina Duarte ), é mais descontraída, meio ´porra-louca´, e a filha Elaine ( Mariana Loureiro ), é uma jovem advogada, toda certinha, que foi criada somente pela mãe. Há um conflito permanente entre as duas, com Jaki sendo provocada o tempo todo por sua mãe, que tem um comportamento entre infantilizado e auto-destrutivo, e que procura manipular a filha a seu bel-prazer.
Mas a relação familiar complica mesmo quando Elaine traz para morar com ela o namorado, Joseph ( Kiko Bertholini ). Joseph acabou de sair da prisão, onde estava por ser acusado te ter matado a sua ex-namorada, e foi como defensora dele que Elaine o conheceu - daí o título da peça. Mas vou parar de contar o enredo por aqui, já que é uma história de suspense. Mesmo não indo até o final, que foi mesmo surpreendente, há pequenas revelações no enredo que vale a pena quem for assistir poder curtir também, então é melhor não revelar mais nada.
O cenário da peça é fixo, um apartamento antigo da classe baixa londrina. Aliás, com alguns detalhes muito elegantes: porta dupla, barra-lisa de papel de parede com rodameio, janelas altas... ok, ser pobre em Londres deve ser mesmo muito chique! Ao mesmo tempo em que vemos a sala onde se desenvolve boa parte da trama, também temos a vista do banheiro, pois os momentos em que os personagens estão lá são os mais dramáticos. O figurino é ´ok´, nada que tenha me chamado a atenção. O que me irritou um pouco na montagem foi a sonoplastia... as músicas para criar o clima de suspense eram sempre muito altas, óbvias, e davam um ar forçado à cena. Comparando, me pareceu algo tão natural quanto àquelas risadas nos programas de humor popular... totalmente dispensáveis.
Como já disse, a voz da Regina Duarte é tão familiar que fica difícil esquecer que é a Regina Duarte em cena, mas isso é mérito de toda uma vida, de toda a carreira dela. O fato é que ela está muito à vontade no papel de uma mãe que amando muito a filha, a inferniza o tempo todo. O Kiko Bertholini tem um biotipo bem europeu, adequado ao personagem, mas apesar de não comprometer a peça, em minha opinião teve um desempenho um pouco abaixo das mulheres. Pra mim o grande destaque da apresentação foi a Mariana Loureiro, que faz uma filha oprimida e amorosa, uma namorada apaixonada e vingativa...
Bem-vindo, Estranho
Com Regina Duarte, Mariana Loureiro e Kiko Bertholini
Direção de Murilo Pasta
Texto de Angela Clerkin
Teatro Vivo, até 09/fev/14
domingo, 12 de janeiro de 2014
A vida sexual da mulher feia
A primeira peça de 2014 acabou sendo ´A Vida Sexual da Mulher Feia´, no Teatro Folha, que fica no Shopping Higienópolis:
![]() |
| Não havia programas disponíveis, essa é uma imagem da internet. |
Teatro de shopping tem sempre algumas características especiais: facilidade para estacionar, praça de alimentação à disposição... mas esse tem toda a cara de que foi feito somente para aproveitar os benefícios fiscais que a Prefeitura de São Paulo dá a quem mantém teatros em centros comerciais. Claramente se percebe que o espaço não foi projetado desde o início para a função a que se destina, que foi algo um tanto improvisado. O mínimo que se pode dizer da decoração é que é de ´gosto duvidoso´. Dessa vez sentei nos balcões laterais, que são péssimos.... primeiro que mal se consegue achar a indicação da fileira correta, a plaqueta não é iluminada, e ao invés de ficar nas laterais das poltronas, ficam em pequenos degraus, de mais ou menos 5cm de altura, sob as poltronas. Ou seja, só se tivéssemos olhos nos pés é que o público acharia a indicação com facilidade. Como eu cheguei relativamente cedo, acabei ajudando outras pessoas a localizarem os seus lugares, inclusive o repórter da Rede Globo, Márcio Canuto. Mas de qualquer maneira, sentar nos balcões não é legal... as poltronas são viradas em direção ao palco, e há bastante espaço para as pernas. Mas a grade atrapalha demais a visão, e não se tem uma visão livre do palco.
O Otávio Muller entra como ´pessoa física´, no palco, que tem as cortinas abertas desde o início. Ele conversa com a platéia, brinca com quem está chegando atrasado, e vai criando o clima para a comédia. Até que se dirige a um mancebo onde estão os figurinos ( não há cenografia, apenas um mancebo e uma poltrona ), e começa o espetáculo.
Como eu já sabia, é uma comédia de uma piada só: as desventuras Maricleide, uma mulher feia, da infância à maturidade. Há sim boas sacadas no texto, e uma piada que ficou gravada para mim, em um momento ´auto-ajuda´ da personagem: ´Há sempre duas palavras que abrem todas as portas: ´Entrada´ e ´Saída´! Mas as demais piadas são ´variações sobre o tema´ e claro, vão se esgotando. Tem gente que se esborracha de rir ao ver o Otávio Muller de cuecas, colocando soutien e vestido - mas não é meu caso.
Não quero tirar o mérito do ator, acho mesmo que ele vai muito bem com o material que tem em mãos. A gente até desenvolve uma certa empatia com o personagem, que acha a redenção no final, reencontrando o primeiro amor. E eu sei que ninguém me obrigou a ir, sendo que eu sabia que não é bem o tipo de peça que me atrai. Mas a peça acabou e nem deu assunto pro jantar que veio depois. Fraquinha, fraquinha...
A Vida Sexual da Mulher Feia
Com Otávio Muller
Texto de Claudia Tajes
Teatro Folha, até 02/mar/14
domingo, 1 de dezembro de 2013
A arte e a maneira de abordar seu chefe para pedir um aumento
A terceira - e certamente última visita do ano ao Sesc Vila Mariana foi pra assistir ao Marco Nanini:
Não foi à toa que já comecei falando do Nanini... acho que eu, e todo mundo que estava presente estava lá principalmente por causa dele, que é um astro da tv e do cinema, mas que eu só vi no teatro uma vez, em ´O Mistério de Irma Vap´, nem sei mais há quantos anos... A direção é do Guel Arraes, que tem um histórico longo de parcerias de sucesso com o Nanini em audiovisuais.
Enfim, o que quero deixar registrado é que o público já estava ganho. Tenho certeza de que estávamos todos ali para ver um ator querido, se divertir, aproveitar. E não posso reclamar do Nanini, ele fez a parte dele no monólogo. A questão é que o texto é enfadonho... propositalmente enfadonho.
A história é mais ou menos a seguinte: há um desses consultores de carreira, que está dando uma palestra sobre o título da peça - A arte e a maneira de abordar seu chefe para pedir um aumento. Isso é feito através de um texto que tem a estrutura de um fluxograma, onde ele vai dizendo cada etapa a seguir, e o que fazer caso a etapa não possa ser cumprida, dando alternativas. Então, por exemplo, para pedir um aumento ao seu chefe você deve ir à sala dele. Ele pode estar, ou não estar na sala dele. Se ele estiver na sala dele, você entra. Se ele não estiver na sala dele, você não entra. Se você não entrar na sala dele, você pode fazer hora ou pode voltar depois. Se você for fazer hora, pode conversar com a secretária ou pode tomar um café... e por aí vai.
Há projeções no fundo do palco que reforçam o que está sendo exposto, através de fluxogramas. Aliás, a cenografia é muito simples: apenas uma mesa e cadeira do lado esquerdo, e ao meio uma faixa, que me pareceu ser de tecido, que se desenrola do centro do palco e sobe ao fundo.
Como eu disse acima, o texto é propositalmente enfadonho. Faz da repetição uma maneira de reforçar ao máximo o que me pareceu ser o grande mote da peça: a desumanização do ser humano no ambiente de trabalho. O palestrante é um autômato, um robô que não faz mais do que repetir ´ad nauseam´ um método muito medroso de se conseguir o aumento desejado. E pelo menos para mim, que não sou nem um pouco fã desses consultores de carreira, desses administradores cheios de jargões, foi também uma grande crítica a esse mundo corporativo.
Mas por outro lado, chega uma hora em que a mensagem está dada, e a peça continua... e continua... e continua... tinha gente mais fã do Nanini do que eu, e que ria às gargalhadas a cada pequeno avanço que a história permitia. Eu não cheguei a tanto, apesar de sair de lá admirado com a capacidade de retenção de um texto longo e repetitivo. Se de um lado essa monotonia toda não deve exigir maiores recursos de um ator, por outro lado não deve ser fácil ficar tanto tempo em cena sozinho com um texto tão repetitivo em si mesmo.
A arte e a maneira de abordar seu chefe para pedir um aumento
Com Marco Nanini
Direção de Guel Arraes
Texto de Georges Perec
Sesc Vila Mariana, até 01/dez/13
Não foi à toa que já comecei falando do Nanini... acho que eu, e todo mundo que estava presente estava lá principalmente por causa dele, que é um astro da tv e do cinema, mas que eu só vi no teatro uma vez, em ´O Mistério de Irma Vap´, nem sei mais há quantos anos... A direção é do Guel Arraes, que tem um histórico longo de parcerias de sucesso com o Nanini em audiovisuais.
Enfim, o que quero deixar registrado é que o público já estava ganho. Tenho certeza de que estávamos todos ali para ver um ator querido, se divertir, aproveitar. E não posso reclamar do Nanini, ele fez a parte dele no monólogo. A questão é que o texto é enfadonho... propositalmente enfadonho.
A história é mais ou menos a seguinte: há um desses consultores de carreira, que está dando uma palestra sobre o título da peça - A arte e a maneira de abordar seu chefe para pedir um aumento. Isso é feito através de um texto que tem a estrutura de um fluxograma, onde ele vai dizendo cada etapa a seguir, e o que fazer caso a etapa não possa ser cumprida, dando alternativas. Então, por exemplo, para pedir um aumento ao seu chefe você deve ir à sala dele. Ele pode estar, ou não estar na sala dele. Se ele estiver na sala dele, você entra. Se ele não estiver na sala dele, você não entra. Se você não entrar na sala dele, você pode fazer hora ou pode voltar depois. Se você for fazer hora, pode conversar com a secretária ou pode tomar um café... e por aí vai.
Há projeções no fundo do palco que reforçam o que está sendo exposto, através de fluxogramas. Aliás, a cenografia é muito simples: apenas uma mesa e cadeira do lado esquerdo, e ao meio uma faixa, que me pareceu ser de tecido, que se desenrola do centro do palco e sobe ao fundo.
Como eu disse acima, o texto é propositalmente enfadonho. Faz da repetição uma maneira de reforçar ao máximo o que me pareceu ser o grande mote da peça: a desumanização do ser humano no ambiente de trabalho. O palestrante é um autômato, um robô que não faz mais do que repetir ´ad nauseam´ um método muito medroso de se conseguir o aumento desejado. E pelo menos para mim, que não sou nem um pouco fã desses consultores de carreira, desses administradores cheios de jargões, foi também uma grande crítica a esse mundo corporativo.
Mas por outro lado, chega uma hora em que a mensagem está dada, e a peça continua... e continua... e continua... tinha gente mais fã do Nanini do que eu, e que ria às gargalhadas a cada pequeno avanço que a história permitia. Eu não cheguei a tanto, apesar de sair de lá admirado com a capacidade de retenção de um texto longo e repetitivo. Se de um lado essa monotonia toda não deve exigir maiores recursos de um ator, por outro lado não deve ser fácil ficar tanto tempo em cena sozinho com um texto tão repetitivo em si mesmo.
A arte e a maneira de abordar seu chefe para pedir um aumento
Com Marco Nanini
Direção de Guel Arraes
Texto de Georges Perec
Sesc Vila Mariana, até 01/dez/13
domingo, 20 de outubro de 2013
Ópera de Pequim
Nova visita ao Sesc Pinheiros, agora para assistir a um espetáculo muito diferente:
Antes de mais nada, Viva o Sesc! Ter uma grande companhia de teatro vinda do outro lado do mundo, mesmo que não seja completa, é um privilégio que só o Sesc propicia. Soube que em Brasília os ingressos para essas mesmas apresentações, no Teatro Nacional, saíam por R$ 300,00. Por esse preço, eu simplesmente não teria assistido...
Na verdade, não era ´só´ uma apresentação teatral, mas havia também uma exposição de figurinos, venda de souvenirs ( lenços de seda, livros sobre a Ópera de Pequim )... E antes do início da apresentação propriamente dita, veio uma produtora explicar um pouco do que iríamos assistir.
Com isso ficamos sabendo que não há uma ´Ópera de Pequim´, mas sim várias companhias que utilizam essa denominação. Desde pequenas, que se apresentam em cafés de bairros, até grandes companhias teatrais. Dos dois lados do palco haviam painéis eletrônicos com legenda, e ela alertou que isso é comum mesmo na China, pois em muitas companhias mais tradicionalistas ( como a que iríamos assistir ) se utiliza a linguagem original de quando a peça foi escrita ( às vezes, mais de mil anos atrás ), e isso faz com que as palavras sejam de difícil compreensão para os falantes modernos da língua. Disse também que há peças que duram 8, 10 horas, e que os atores ficam se apresentando em cafés, onde o público entra, assiste um pouco, sai, volta... e a história lá, contínua. Explicou um pouco da pequena orquestra que acompanha a apresentação, nesse caso, apenas 4 pessoas, com um instrumento de cordas que dava aqueles acordes típicos orientais, mas que não fui capaz de guardar o nome. Os cenários são sempre muito simples, normalmente uma cadeira e uma mesa, nada mais. E finalmente ela chamou um casal de atores para que ilustrar os figurinos, sempre muito ricos, e os gestos, também bastante codificados após centenas de anos - praticamente uma mímica. Eles interpretaram alguns pequenos gestos - cavalgar, abrir uma janela - para demonstrar como tudo é muito preciso, e em seguida teve início o primeiro trecho, dos três que seriam apresentados naquela noite.
´Encruzilhada´, que era essa primeira apresentação, era a história de um general que ao ser acusado injustamente de um crime tem que fugir para longe, mas é ajudado por um ministro piedoso, que vai atrás dele de modo oculto, como um guarda-costas. Porém, ao se hospedar em um pequeno albergue, o dono do local imagina que o ministro é um assassino, e então há uma luta no escuro entre os dois. A coreografia das cenas de luta é incrível, de deixar de queixo caído mesmo. Num determinado momento, um ator estava sentado no chão, em posição de lótus, e de repente fez um movimento e pulou para cima da mesa! Quase não acreditei no que tinha acabado de ver! Eu que nunca liguei muito para histórias de artes marciais, Bruce Lee, de repente me deu um estalo sobre a razão porque isso faz tanto sucesso no Oriente. Essa história, se não me engano, tem 1.300 anos!
Daí vem mais uma vez a ´orientadora´ falar sobre o que vamos assistir a seguir. O próximo trecho foi de ´Adeus minha concubina´: um rei está cercado pelos inimigos, sem saída, e sabe que vai ser derrotado e morto. Sua amante, também ciente da situação, tenta distraí-lo cantando uma última canção, e quando termina comete suicídio, para que não veja o seu amado morto. O canto da atriz principal era uma coisa absolutamente disparatada para os meus ouvidos, umas modulações extremamente agudas, uma melodia que eu não conseguia acompanhar... Mas nessa apresentação o que mais causava impacto eram os figurinos, belíssimos. O rei com o rosto todo coberto por uma máscara e uma longa barba, a concubina com um vestido todo trabalhado, com um chapéu gigante, capa... lindíssimo.
A essa altura eu já estava mesmo embasbacado com o que vinha assistindo, mas felizmente, ainda tinha muito mais. Depois do intervalo, veio ´Rio de Outono´, acho que o excerto mais poético da noite. Uma ´noviça´, uma jovem que iria entrar num ´convento´ ( não sei se essas palavras se encaixam na cultura chinesa ), desiste de sua vida religiosa ao se apaixonar por um rapaz, e sai atrás dele. Para cruzar um rio ela contrata um velho barqueiro, que ao conversar com a moça vai se divertindo com jogos de palavras e atrasa a viagem de propósito. Era só um fundo azul e dois atores em cena, mas o texto, as entonações, preenchiam todo o palco.
E pra terminar, pra fechar com chave de ouro a apresentação, ´Presenteando uma Pérola na Ponte do Arco-íris´. É uma história de amor: um humano e uma deusa se apaixonam, mas esse relacionamento não é possível. Então a deusa dá uma pérola mágica ao noivo, ou namorado, não lembro bem, e depois retorna aos céus. Mas o que me deixou mesmo de queixo caído foi o trecho em que os deuses enviam soldados para prender a tal deusa que se apaixonou pelo humano. Se não me engano ficam oito atores, dispostos em círculo em torno da ´deusa´, e eles vão atacando a personagem com lanças. Mas as varas não são jogadas ´de bico´, mas sim lançadas como bastões, na horizontal. E aí a atriz vai girando e devolvendo duas a duas, ao mesmo tempo... imagine que tem alguém na sua frente, e outra pessoa atrás: os dois jogam as lanças por sobre você. A lança de quem está na frente é jogada nas suas costas, e você a encaminha de calcanhar para quem está atrás de você. A lança de quem está atrás de você também é jogada pela sua cabeça, e você bate nela com o braço à sua frente, de tal maneira que ela termine nas mãos de quem estava à sua frente. Agora imagine fazer isso ao mesmo tempo, e girando, pois há oito pessoas em torno de você. Faça isso continuamente por 2 ou 3 minutos, sem parar... absolutamente incrível.
Resumindo, nessa apresentação teve delicadeza, poesia, demonstrações de força, de destreza, de malabarismo, uma música e um canto absolutamente diferentes, figurinos deslumbrantes... coisa pra não esquecer pro resto da vida.
Mais uma vez, obrigado Sesc!
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Ópera de Pequim
Sesc Pinheiros, até 20/out/13
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