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domingo, 20 de outubro de 2013

Ópera de Pequim


Nova visita ao Sesc Pinheiros, agora para assistir a um espetáculo muito diferente:





Antes de mais nada, Viva o Sesc! Ter uma grande companhia de teatro vinda do outro lado do mundo, mesmo que não seja completa, é um privilégio que só o Sesc propicia. Soube que em Brasília os ingressos para essas mesmas apresentações, no Teatro Nacional, saíam por R$ 300,00. Por esse preço, eu simplesmente não teria assistido... 

Na verdade, não era ´só´   uma apresentação teatral, mas havia também uma exposição de figurinos, venda de souvenirs ( lenços de seda, livros sobre a Ópera de Pequim )...  E antes do início da apresentação propriamente dita, veio uma produtora explicar um pouco do que iríamos assistir.

Com isso ficamos sabendo que não há uma ´Ópera de Pequim´, mas sim várias companhias que utilizam essa denominação. Desde pequenas, que se apresentam em cafés de bairros, até grandes companhias teatrais. Dos dois lados do palco haviam painéis eletrônicos com legenda, e ela alertou que isso é comum mesmo na China, pois em muitas companhias mais tradicionalistas ( como a que iríamos assistir ) se utiliza a linguagem original de quando a peça foi escrita ( às vezes, mais de mil anos atrás ), e isso faz com que as palavras sejam de difícil compreensão para os falantes modernos da língua. Disse também que há peças que duram 8, 10 horas, e que os atores ficam se apresentando em cafés, onde o público entra, assiste um pouco, sai, volta... e a história lá, contínua. Explicou um pouco da pequena orquestra que acompanha a apresentação, nesse caso, apenas 4 pessoas, com  um instrumento de cordas que dava aqueles acordes típicos orientais, mas que não fui capaz de guardar o nome. Os cenários são sempre muito simples, normalmente uma cadeira e uma mesa, nada mais. E finalmente ela chamou um casal de atores para que ilustrar os figurinos, sempre muito ricos, e os gestos, também bastante codificados após centenas de anos - praticamente uma mímica. Eles interpretaram alguns pequenos gestos - cavalgar, abrir uma janela - para demonstrar como tudo é muito preciso, e em seguida teve início o primeiro trecho, dos três que seriam apresentados naquela noite.

´Encruzilhada´, que era essa primeira apresentação, era a história de um general que ao ser acusado injustamente de um crime tem que fugir para longe, mas é ajudado por um ministro piedoso, que vai atrás dele de modo oculto, como um guarda-costas. Porém, ao se hospedar em um pequeno albergue, o dono do local imagina que o ministro é um assassino, e então há uma luta no escuro entre os dois. A coreografia das cenas de luta é incrível, de deixar de queixo caído mesmo. Num determinado momento, um ator estava sentado no chão, em posição de lótus, e de repente fez um movimento e pulou para cima da mesa! Quase não acreditei no que tinha acabado de ver! Eu que nunca liguei muito para histórias de artes marciais, Bruce Lee, de repente me deu um estalo sobre a razão porque isso faz tanto sucesso no Oriente. Essa história, se não me engano, tem 1.300 anos!

Daí vem mais uma vez a ´orientadora´ falar sobre o que vamos assistir a seguir. O próximo trecho foi de ´Adeus minha concubina´: um rei está cercado pelos inimigos, sem saída, e sabe que vai ser derrotado e morto. Sua amante, também ciente da situação, tenta distraí-lo cantando uma última canção, e quando termina comete suicídio, para que não veja o seu amado morto. O canto da atriz principal era uma coisa absolutamente disparatada para os meus ouvidos, umas modulações extremamente agudas, uma melodia que eu não conseguia acompanhar...  Mas nessa apresentação o que mais causava impacto eram os figurinos, belíssimos. O rei com o rosto todo coberto por uma máscara e uma longa barba, a concubina com um vestido todo trabalhado, com um chapéu gigante, capa... lindíssimo.

A essa altura eu já estava mesmo embasbacado com o que vinha assistindo, mas felizmente, ainda tinha muito mais. Depois do intervalo, veio ´Rio de Outono´,  acho que o excerto mais poético da noite. Uma ´noviça´, uma jovem que iria entrar num ´convento´ ( não sei se essas palavras se encaixam na cultura chinesa ), desiste de sua vida religiosa ao se apaixonar por um rapaz, e sai atrás dele. Para cruzar um rio ela contrata um velho barqueiro, que ao conversar com a moça vai se divertindo com jogos de palavras e atrasa a viagem de propósito. Era só um fundo azul e dois atores em cena, mas o texto, as entonações, preenchiam todo o palco.

E pra terminar, pra fechar com chave de ouro a apresentação, ´Presenteando uma Pérola na Ponte do Arco-íris´. É uma história de amor: um humano e uma deusa se apaixonam, mas esse relacionamento não é possível. Então a deusa dá uma pérola mágica ao noivo, ou namorado, não lembro bem, e depois retorna aos céus. Mas o que me deixou mesmo de queixo caído foi o trecho em que os deuses enviam soldados para prender a tal deusa que se apaixonou pelo humano. Se não me engano ficam oito atores, dispostos em círculo em torno da ´deusa´,  e eles vão atacando a personagem com lanças. Mas as varas não são jogadas ´de bico´, mas sim lançadas como bastões, na horizontal. E aí a atriz vai girando e devolvendo duas a duas, ao mesmo tempo...  imagine que tem alguém na sua frente, e outra pessoa atrás: os dois jogam as lanças por sobre você. A lança de quem está na frente é jogada nas suas costas, e você a encaminha de calcanhar para quem está atrás de você. A lança de quem está atrás de você também é jogada pela sua cabeça, e você bate nela com o braço à sua frente, de tal maneira que ela termine nas mãos de quem estava à sua frente. Agora imagine fazer isso ao mesmo tempo, e girando, pois há oito pessoas em torno de você. Faça isso continuamente por 2 ou 3 minutos, sem parar...  absolutamente incrível. 

Resumindo, nessa apresentação teve delicadeza, poesia, demonstrações de força, de destreza, de malabarismo, uma música e um canto absolutamente diferentes, figurinos deslumbrantes... coisa pra não esquecer pro resto da vida. 

Mais uma vez,   obrigado Sesc!



Ópera de Pequim
Sesc Pinheiros, até 20/out/13






quinta-feira, 21 de março de 2013

La Cenerentola ( A Cinderela )

Um programa um pouco diferente, ópera ao invés de teatro ´normal´:



O Theatro São Pedro, na Barra Funda, é dos mais antigos de São Paulo, foi inaugurado no início do século XX. Ainda assim eu só vim a conhecê-lo no ano passado, quando assisti a outra ópera nesse espaço. Apesar de ficar em um bairro que precisa ser revitalizado, o trecho onde ele está localizado, na rua Barra Funda, é um lugar de fácil acesso, e eu pelo menos não me sinto acuado ao estacionar nas ruas das imediações ( coisa impossível de fazer na Sala São Paulo, por exemplo ).  E o teatro em si é muito legal, uma construção eclética que atendia à burguesia da época, que morava nos Campos Elíseos, mas que passou por muitos problemas de conservação, tendo ficado fechado por vários anos. Felizmente agora está em bom estado, passou por uma restauração ( é possível ver os testemunhos das pinturas originais nas paredes dos corredores ), e tem uma condição para os espectadores bastante confortável. Dessa vez eu fiquei no balcão superior ( ano passado sentei na platéia ), e pelo fato do teatro ser pequeno, de qualquer lugar dá para ver bem o espetáculo.

A história apresentada em cena é um pouco diferente da que estamos acostumados através da Cinderela da Disney. Não há uma fada-madrinha, o príncipe encarrega um ministro de encontrar uma noiva para ele, que não se importe com sua riqueza. O ministro então sai pelo reino vestido de mendigo, e é mal-tratado pelas irmãs da Cinderela, mas ela demonstra sua bondade oferecendo pão e água a ele.  Depois, a casa onde elas moram é visitada pelo príncipe ( disfarçado de criado ) e por um criado ( fazendo-se passar por príncipe ). Óbvio que as irmãs interesseiras ( e o pai ) bajulam o falso príncipe, enquanto Cinderela se apaixona a primeira vista pelo ´criado´.

Para ir ao baile, não há carruagem feita de abóboras, ratinhos que viram cavalo, nada disso:  quem providência o vestido e as jóias para Cinderela é o ministro. No baile ela é cortejada pelo falso príncipe, que testa as suas intenções mais uma vez, mas ela o rejeita dizendo-se apaixonada pelo criado. Cinderela e o verdadeiro príncipe tem então um breve encontro, ela vestida como uma dama da corte, quando na verdade vive como serviçal na casa do padastro, e o príncipe se fazendo passar por criado. Nenhum dos dois revela sua verdadeira condição, e ao se despedirem ela deixa um bracelete com o príncipe dizendo que quando encontrar o bracelete, saberá que está novamente com ela.

Depois do baile, de onde a Cinderela fugiu para não ser reconhecida pelas irmãs e o padastro ( ao contrário da versão Diseny, não há feitiço que se acaba à meia-noite ), o príncipe sai à procura da sua amada, que é encontrada sendo explorada na casa de Don Magnífico. Então a trama é desfeita, e na cena final, Cinderela se casa com o príncipe e perdoa todo o mal feito por suas irmãs e pelo padastro. Conto de fadas total...

Como era numa terça-feira, o elenco que se apresentou foi o ´elenco B´, formado por cantores mais jovens. Não sou especialista em ópera ( aliás, não sou especialista em nada ), mas deu para perceber os altos e baixos da interpretação.  Na minha opinião, quem se saiu melhor foi o criado Dandini, interpretado pelo Johnny França. Além de ter se saído muito bem como cantor, acho que foi quem interpretou melhor seu personagem, tirando partido da comicidade do papel. As irmãs da Cinderela, Roseane Soares (Clorinda) e Debora Dibi (Tisbe) também tinham inflexões cômicas, mas acho que a maquiagem era tão carregada, com cílios postiços coloridos de uns 2 ou 3cm de comprimento, que matava qualquer expressão facial delas. Outro que acho que foi bem foi o padrasto da Cinderela, Gustavo Lassen ( Don Magnífico ). Já a protagonista, a Cenerentola ( Cinderela ) Josy Santos, eu tive a impressão de que não estava muito à vontade no início, mas foi melhor no final, mostrando uma agilidade vocal na cena do casamento que foi impressionante.  E o par romântico da mocinha, o príncipe Don Ramiro / Cleyton Pulzi, eu achei um tanto apagado. Talvez porque fosse o ´mocinho´ da história, e mocinho é sempre sem-graça mesmo... 

A cenografia não era nenhuma maravilha. De início há dois grandes painéis laterais, que com apliques de molduras e frontões, dão a sensação de um lugar imponente, ok.  Mas o palácio do príncipe... o coitado devia estar falido. Acho que não foi só a falta de verba, o palácio com árvores recortadas e iluminação em contra-luz era feio mesmo... O coro ( 14 homens ) em algumas cenas entra com adereços, umas hastes metálicas com bolas nas pontas, que se transformam conforme a ocasião, sendo às vezes segurados pelos atores, às vezes transformados em adereços fixos da sala do trono. Outra vez, feinho, feinho... 

Mas eu ia esquecendo de falar do coro. É sempre legal ouvir muitas vozes em uníssono, é um som que  sempre me chama muito a atenção, e dessa vez não foi diferente. Não chegou a ser tão impactante pelo fato de serem só 14 cantores, mas de qualquer maneira, foi legal de ouvir.


Outra coisa: eu de vez em quando vou a concertos, a óperas, não tanto quanto gostaria, mas vou. E na média dá para perceber que é um público mais educado, dificilmente há quem precise ser repreendido por fazer barulho. Sempre tem as inevitáveis tosses, mas acho que deve fazer parte da ´etiqueta´ de se assistir a esse tipo de espetáculo... já repararam como sempre tem gente com tosse em apresentações de música clássica?  Deve ser porque confundem ´espectador´ com ´expectorador´....   

Mas o que eu queria registrar é que por estar no balcão, dava para perceber que dois ´espectadores´, ou melhor, dois ´corpos presentes´ na platéia não largavam o smartphone o tempo todo. E a luz desses aparelhos, no escuro, incomoda, desvia a atenção. Se eu estivesse perto dos dois ( um em cada lado da platéia, não estavam juntos ), com certeza teria tomado providências para que desligassem. Ah, e um detalhe: não eram jovens, eram dois senhores,  um calvo e outro de cabelos brancos...   vai entender? Compra ingresso, sai de casa, vai até o teatro pra ficar no smartphoneSe é só pra fazer companhia a alguém, que então fique esperando no lado de fora, acho que deve ser constrangedor para quem está em cena ficar vendo um rosto iluminado por uma tela azul na platéia.

 


La Cenerentola
Com Josy Santos, Cleyton Pulzi, Roseane Soares, Debora Dibi, Johnny França, Gustavo Lassen
Direção de Emiliano Patarra ( direção musical e regência ) e Davide Garattini ( direção cênica )
Música de Gioacchino Rossini
Theatro São Pedro, até 25/mar/13