´O Casamento, o romance proibido de Nelson Rodrigues´
Eu nunca tinha ouvido falar nesse texto do Nelson Rodrigues, o que também não quer dizer muita coisa. Mas através do programa da peça descobri que é um romance de 1966, que foi proibido à época, e que agora foi adaptado para esse espetáculo teatral. Então, depois de já ter visto a peça, fico me perguntando: ´O casamento´ é uma obra menor do Nelson Rodrigues, ou a adaptação que foi mal-feita? Porque o resultado em cena foi lamentável... E não deve ter sido por falta de recursos. A peça contou com patrocínio da Petrobrás, o folder mostra um monte de apoios de divulgação e gastronômicos, há sete atores em cena, vários figurinos... ou seja, com certeza o investimento na produção foi alto.
A minha expectativa era boa para ver essa peça, aliás, eu não sairia de casa se estivesse achando que não gostaria. Acontece que ano passado foi o centenário do nascimento do Nelson Rodrigues, e pude aproveitar para assistir várias peças dele. Duas das melhores foram as apresentadas no Sesi da Av. Paulista: 'Boca de Ouro' e 'A Falecida'. É claro que isso não faz de mim nenhum especialista em Nelson Rodrigues, aliás, não sou especialista em nada. Mas imaginando que ´O Casamento´ pode ser um texto do mesmo nível desses outros dois, bem mais famosos, me resta a conclusão de que a encenação é que foi ´culpada´ pela minha falta de interesse no que se via em cena. Ou se por acaso o romance é mesmo uma obra menor do autor, então deveriam ter dado uma boa enxugada no texto...
Todos os elementos ´clássicos´ da obra do Nelson estão presentes: homossexualismo, hipocrisia, traição, incesto... Mas nada digno do choque que a obra dele causou a 50 anos atrás, e que continua causando. Fui testemunha disso, do impacto que ´Toda nudez será castigada´ ainda tem, quando vi essa peça também em 2012, no Sesc Consolação, numa montagem do Antunes Filho. Mas essa adaptação de ´O casamento´ não tem nem um décimo da força expressiva das outras que citei aqui. As outras foram encenações viscerais, fortes, verdadeiras. O que assisti ontem estava mais para uma farsa.
De início, até que é interessante. O cenário é quase vazio, com uma estrutura metálica que rebaixa o pé-direito de parte do palco. Dessa estrutura metálica pendiam cortinas pretas, semi-transparentes, formando duas superfícies verticais a 90° entre si, que delimitavam um espaço menor, no caso a sala do personagem principal, Sabino ( Renato Borghi ). Durante a encenação essas cortinas são recolhidas ou abaixadas diversas vezes, assim como outras, e com isso configuram os vários espaços. Disso eu gostei, achei uma boa sacada.
Essas cortinas também servem para ocultar parcialmente a nudez dos atores em várias cenas. Mas se alguém for ao teatro para ver a Diana Bouth nua ( uma ex-modelo, em seu primeiro trabalho como atriz ), ainda assim é perda de tempo, por causa das cortinas. Além do mais, pelo menos para o meu gosto ela tem as pernas muito finas...
Aliás, por falar em nudez, no início da peça a gravação que pede para que a platéia desligue os celulares diz que deseja a todos orgasmos múltiplos, e que vamos assistir a uma comédia erótica. Comédia não é, há raros momentos em que se pode esboçar um sorriso. Sobre o erotismo em cena, há sim muitas cenas de nudez, principalmente na parte final, mas há pouco de erotismo, de sensualidade. Novamente comparando com as outras encenações de textos do Nelson Rodrigues, em todas há uma carga de tensão sexual, de pulsão, de paixão. Em ´O Casamento´ não. Acho que a única exceção é quando o personagem Antônio Carlos ( Daniel Alvim ) deflora Glorinha ( Diana Bouth ). Então, assim como não dá para dizer que a peça é uma comédia, também não dá para chamar de erótica.
Enfim, não vejo razão para continuar a escrever sobre um espetáculo do qual absolutamente não gostei. O cenário é bem-bolado, os figurinos são meio esquisitos, com roupas que tentam ser referências modernas aos modelos de época, mas é claro que não é esse o problema, mesmo sendo muito estranho o figurino do personagem Dr. Camarinha ( Elcio Nogueira Sanchez ) - parecia uma morsa andando pelo palco, com um terno ´peludo´... A iluminação é correta, faz os destaques necessários e esconde parcialmente os momentos de nudez, os atores estão todos no mesmo registro, não destoam entre si, inclusive a ex-modelo estreante nos palcos. Mas o resultado final da peça é desagradável, parece que estamos vendo várias esquetes com os mesmos personagens, com encadeamento entre elas, claro, mas sem impacto, sem vida, sem graça. Acho que não havia mais de um quarto das poltronas ocupadas quando o espetáculo começou, e pelo menos cinco outras testemunhas não conseguiram ficar até o final e saíram antes. Fazia tempo que eu não via gente sair assim no meio da peça.
Sobre o Teatro, o Tuca é um dos espaços mais tradicionais de São Paulo, e as suas paredes em tijolo à vista são um testemunho do que já aconteceu por lá. O acesso é fácil, tanto de carro quanto de ônibus. Para quem vai de carro, nas noites de sexta-feira é difícil de estacionar, todas as vagas das ruas próximas ficam tomadas pelos alunos da PUC. Mas nas noites de sábado e domingo é tranquilo, eu só evito parar bem perto do teatro para não ser achacado pelos inevitáveis flanelinhas. Lá dentro a sala oferece um conforto razoável, mas desde que não se sente no fundo. O teatro é muito comprido, sentar lá atrás faz com que se veja o palco muito de longe. E nessa visita ao Tuca foram mais de duas horas de peça sem intervalo, mas acho que nem tenho como comentar muito sobre o conforto que o teatro oferece. O pior não era nem a poltrona um tanto dura, nem o espaço para as pernas. Quando a gente não gosta do que está vendo, é difícil ficar confortável seja onde for.
O Casamento
Com Renato Borghi, Daniel Alvim, Diana Bouth, Elcio Nogueira Seixas, Maurício de Barros, Regina França e Vera Bonilha
Direção de Johana Albuquerque
Adaptação de Johana Albuquerque, sobre obra de Nelson Rodrigues
Teatro Tuca, SP, até 04/jul/13
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segunda-feira, 13 de maio de 2013
sexta-feira, 1 de março de 2013
O Grande Viúvo
Ontem a noite foi dedicada a ´O Grande Viúvo´, no Sesc Ipiranga:
Essa peça fez uma longa temporada em 2012 no Tucarena, mas acabei perdendo. O texto é do Nelson Rodrigues, cujo centenário foi comemorado no ano passado, o que me deu oportunidade de assistir a várias peças dele, então era mais um motivo para assistir a ´O Grande Viúvo´, mas principalmente, eu estava curioso em ´ver´ o tal Teatro Cego, onde não se enxerga nada...
Ainda não conhecia o Sesc Ipiranga, já havia passado em frente, na Rua Bom Pastor, mas nunca havia entrado. Como cheguei com um pouco de antecedência, acabei dando uma voltinha por lá, fui até a lanchonete e passei por uma sala de exposições, onde havia uma mostra dedicada ao Mazzaropi. O edifício é mais antigo do que os outros Sescs que costumo frequentar, não sei bem mas deve ter uns 30 anos. A manutenção está em dia, ´padrão Sesc´, mas claramente é de uma época em que as unidades eram construídas com projetos mais simples. No teatro, a mesma coisa, a entrada é um tanto acanhada, não há um foyer, o espaço de espera é o hall de distribuição geral do Sesc, e ultrapassando as portas do teatro em caixilhos de alumínio anodizado, há simplesmente um corredor que leva às laterais da sala de espetáculos. O que interessa mesmo, é claro, são as condições do teatro, e no pouco tempo em que ficamos sentados nas poltronas, pareceu tudo ok.
Foi por pouco tempo que ficamos nas poltronas por um motivo inusitado: o público é chamado para subir ao palco. Ontem o teatro não chegou a ficar lotado, e claro, por causa da dinâmica da peça, não havia lugares marcados. Quando chegou o horário de início da peça houve uma pequena introdução, primeiro de um integrante do staff contou que alguns dos atores em cena são realmente cegos, e trouxe ao palco uma atriz cega chamada Paula. Ela explicou que seríamos todos conduzidos ao palco ( há uma rampa ligando o palco ao corredor junto à ribalta ) em grupos de quatro pessoas. Que então deveríamos nos sentar, e que seríamos avisados de em qual setor estávamos, pois caso alguém passasse mal deveria levantar uma mão e dizer em que lugar estava, e alguém da produção iria ´resgatar´ a pessoa. Mas que só deveríamos fazer isso em último caso, pois isso quebraria a magia da experiência. E contou também que a peça era no escuro mas não era de terror, e que não precisávamos ficar preocupados, não haveria nenhum contato físico com a platéia, nós apenas sentiríamos o espetáculo com todos os nossos outros sentidos, pois a visão estaria anulada pela escuridão.
Fomos então conduzidos pelo staff para detrás da cortina de cena. Lá já reinava a escuridão total, éramos guiados em fila indiana, cada um com a mão no ombro da pessoa em frente, e o guia levava uma lanterninha muito fraca apontada para o chão, apenas para não tropeçar. Fomos dos primeiros a subir ao palco, então ficamos no setor 1. O que deu para perceber é que o nosso setor era composto por 3 fileiras de 4 cadeiras de plástico cada, sendo que a fileira em que eu estava ficava de frente para as outras duas. Aguardamos todos os ´expectadores*´ tomarem seus lugares, e a peça começou.
Após uma introdução de música instrumental, ouvimos rezas, Aves-Marias, e choros. Logo a gente se dá conta que estamos em um velório, e a morta é Dalila, esposa de Jair, que está inconsolável. Daí a instantes, quando aconteceu o enterro, os atores ficaram bem atrás da fileira onde estava sentado e então dava para sentir a trepidação do palco a cada vez que a ´pá´ estava escavando a terra. A sonoplastia é incrível, você realmente ouve o baque surdo do caixão batendo em alguma coisa, a terra sendo jogada, as flores...
Depois de mais um trecho instrumental, que era usado para marcar as mudanças de cena, ouve-se a família do viúvo, chamado Jair, preocupada com a saúde dele. A mãe, com sotaque que me pareceu ser do leste europeu, o pai, a filha e o genro, que tem todo o jeito de malandro. O pai diz que a viuvez se cura em 48 horas, mas ao ouvir isso Jair entra no ambiente e anuncia que a vida dele acabou, e que ele só não vai se matar naquele dia mesmo porque pretende construir um mausoléu para ele e Dalila, e que inclusive já tratou da compra do terreno para isso.
Novo corte de cena, o pai chega em casa para o café da manhã com pão quente, é feito um café fresco, e sentimos cheiro de pão e café. Há uma outra conversa da família, ainda sobre o sofrimento de Jair, especulações se ele é capaz de se suicidar ou não. Paralelamente, ficamos sabendo que o genro é um vagabundo, sem emprego, que vive às custas da família da mulher. Coisa que aliás é típica dos personagens do Nelson Rodrigues, e a essa hora eu já estava vendo aquelas casas de subúrbio do Rio de Janeiro nos anos 50. Ainda durante o café da manhã, que Jair recusa a compartilhar, ele anuncia que como todos os dias vai ´visitar´ a falecida no cemitério. A mãe dele o repreende por não se alimentar e por sair na chuva fria, diz que o corpo dele não vai aguentar e que vai ficar doente. Em seguida ouvimos Jair no cemitério, conversando com Dalila em seu túmulo, e como está garoando, sentimos que está garoando na platéia também.
Outra cena, de volta à casa. Era o momento do almoço, então sentimos o cheiro de carne assada - mas dessa vez acho que o ´tempero´ não estava bom, achei um tanto enjoativo... E vamos acompanhando o desenrolar da história pelas falas dos personagens, e essa ´radionovela´ é acrescida de outras sensações, principalmente através dos ruídos da sonoplastia e dos cheiros.
Mas retomando o enredo, nesse momento a família discute inclusive se era o caso de internar o Jair, estão preocupados com a possibilidade de suicídio dele, pois ao contrário do que o pai previra de início o tempo não está trazendo melhora alguma ao seu filho, muito pelo contrário.
A mãe então revela que chamou um primo para o jantar, e esse primo, por ser extremamente religioso, ter sido coroinha por anos e anos, poderia ajudar a ´curar´ o Jair, já que o ´problema dele é espiritual´. Não pude deixar de notar que se fosse hoje em dia, certamente haveria referências a psicólogos, depressão, drogas para controlar desvios de comportamento.... Mas isso não fazia parte do universo de Nelson Rodrigues. A idéia da mãe é rechaçada pelo resto da família, o pai acredita que o tal primo é um fracassado que nem conseguiu passar de coroinha a padre, e todos os demais o acham extremamente chato. Mas a mãe mantém a esperança de que isso ajude seu filho.
Novo corte musical, nova cena, e Jair é flagrado usando uma calcinha da falecida como lenço. Ele sai batendo a porta, e a família volta a conversar sobre o futuro de Jair. Então o genro, o malandro que vive às custas da família, aparece com uma idéia: o problema de Jair é o amor que continua sentindo pela falecida. Então o jeito de curar o viúvo é acabar com esse amor. Todos em princípio acham a idéia absurda, pois não há meios de conseguir isso. O genro diz que mulher alguma está livre de ser vítima de ´uma boa calúnia´, e com uma morta é ainda mais fácil, pois ela não poderá negar. A idéia é convencer Jair de que Dalila tinha um amante, e com isso destruir o amor que ele ainda sente por ela. Apesar do espanto, mesmo porque Dalila teria sido ´honestíssima´ em vida, o pai começa a achar a idéia interessante.
Essa conversa em família ocorre antes do jantar onde o tal primo, o ex-coroinha, está sendo aguardado. Ao final da conversa, sentimos o cheiro da sopa que estava sendo preparada. A conversa é interrompida pela chegada de Jair, que quer saber o que estava sendo dito. Em princípio todos tentam desviar o assunto, mas o pai acaba cometendo a ´inconfidência´ de dizer que Dalila tinha um amante. Jair a princípio refuta essa possibilidade e mostra que está armado com um revólver, que aponta para a própria cabeça e ameaça atirar se não disserem o nome do tal possível amante. A mãe entra em desespero, todos falam coisas desconexas, e nisso, chega o tal primo coroinha. Para que o filho não se suicide, a mãe indica que o primo é que foi o amante de Dalila.
O Jair então vai armado em direção ao primo, que recua apavorado, pois não está sabendo o que ocorre ali, e claro, pensa que será morto. Mas aí vem o grande fecho nelsonrodrigueano, com um final que não era o que se poderia esperar, e que eu não vou contar aqui. Só o que posso dizer é que absolutamente pertinente com o universo do autor...
E então, termina o espetáculo. Um dos atores acende uma vela, e vai apresentando os outros, um a um. Conforme tem seu nome chamado, cada ator ( agora iluminado pela vela ) repete uma frase de seu personagem, de modo que podemos saber quem interpretou a mãe, o pai, a filha, o cunhado, e claro, Jair. A vela é novamente apagada, mas as luzes do palco não são acesas, apenas as luzes da platéia, que vazam pelas frestas das laterais da cortina. Daí é que pude perceber melhor o espaço onde estávamos: havia dois corredores ortogonais que se cruzavam no centro do palco, com mais ou menos um metro e meio de largura. Nesses corredores, bem no eixo, há cabos de aço a mais ou menos dois metros de altura, e obviamente são esses cabos de aço que guiam os atores na escuridão total.
Eu não sei relacionar os nomes dos atores com os dos personagens, e o programa fornecido não traz essa informação. Mas só o ´pai´ que eu achei que destoava um pouco, tinha a voz muito empostada, que não condizia com o restante das interpretações, e por isso me parecia um tanto falsa. De qualquer maneira, isso não chega a comprometer o prazer de acompanhar essa peça, a gente realmente ´entra´ no enredo, e vai acompanhando tudo como se realmente estivesse vendo. Eu preferi ficar de olhos abertos, mesmo não enxergando absolutamente nada. Quando fechei os olhos, me pareceu que desconcentrava um pouco. Então, acabava olhando naturalmente para cima, como se estivesse evitando ´encarar´ o expectador que estava na minha frente ( nossas fileiras eram voltadas uma para a outra ), e ia virando a cabeça de modo a direcionar os ouvidos para onde vinha o som. Foi uma experiência interessante, ´assistir´ uma peça sem ver nada.
Dessa vez foram apenas duas apresentações no Sesc Ipiranga, mas sei que vão haver mais, em outros espaços. Vale a pena conferir.
* Agora parei para pensar no assunto: expectadores, platéia, assistir à peça, ver o espetáculo.... tomamos a visão como o sentido primordial, e obviamente, isso se reflete na linguagem. Mas para dar conta de fazer esse texto, essas palavras não são as mais adequadas, apesar de ser difícil escapar delas.
Essa peça fez uma longa temporada em 2012 no Tucarena, mas acabei perdendo. O texto é do Nelson Rodrigues, cujo centenário foi comemorado no ano passado, o que me deu oportunidade de assistir a várias peças dele, então era mais um motivo para assistir a ´O Grande Viúvo´, mas principalmente, eu estava curioso em ´ver´ o tal Teatro Cego, onde não se enxerga nada...
Ainda não conhecia o Sesc Ipiranga, já havia passado em frente, na Rua Bom Pastor, mas nunca havia entrado. Como cheguei com um pouco de antecedência, acabei dando uma voltinha por lá, fui até a lanchonete e passei por uma sala de exposições, onde havia uma mostra dedicada ao Mazzaropi. O edifício é mais antigo do que os outros Sescs que costumo frequentar, não sei bem mas deve ter uns 30 anos. A manutenção está em dia, ´padrão Sesc´, mas claramente é de uma época em que as unidades eram construídas com projetos mais simples. No teatro, a mesma coisa, a entrada é um tanto acanhada, não há um foyer, o espaço de espera é o hall de distribuição geral do Sesc, e ultrapassando as portas do teatro em caixilhos de alumínio anodizado, há simplesmente um corredor que leva às laterais da sala de espetáculos. O que interessa mesmo, é claro, são as condições do teatro, e no pouco tempo em que ficamos sentados nas poltronas, pareceu tudo ok.
Foi por pouco tempo que ficamos nas poltronas por um motivo inusitado: o público é chamado para subir ao palco. Ontem o teatro não chegou a ficar lotado, e claro, por causa da dinâmica da peça, não havia lugares marcados. Quando chegou o horário de início da peça houve uma pequena introdução, primeiro de um integrante do staff contou que alguns dos atores em cena são realmente cegos, e trouxe ao palco uma atriz cega chamada Paula. Ela explicou que seríamos todos conduzidos ao palco ( há uma rampa ligando o palco ao corredor junto à ribalta ) em grupos de quatro pessoas. Que então deveríamos nos sentar, e que seríamos avisados de em qual setor estávamos, pois caso alguém passasse mal deveria levantar uma mão e dizer em que lugar estava, e alguém da produção iria ´resgatar´ a pessoa. Mas que só deveríamos fazer isso em último caso, pois isso quebraria a magia da experiência. E contou também que a peça era no escuro mas não era de terror, e que não precisávamos ficar preocupados, não haveria nenhum contato físico com a platéia, nós apenas sentiríamos o espetáculo com todos os nossos outros sentidos, pois a visão estaria anulada pela escuridão.
Fomos então conduzidos pelo staff para detrás da cortina de cena. Lá já reinava a escuridão total, éramos guiados em fila indiana, cada um com a mão no ombro da pessoa em frente, e o guia levava uma lanterninha muito fraca apontada para o chão, apenas para não tropeçar. Fomos dos primeiros a subir ao palco, então ficamos no setor 1. O que deu para perceber é que o nosso setor era composto por 3 fileiras de 4 cadeiras de plástico cada, sendo que a fileira em que eu estava ficava de frente para as outras duas. Aguardamos todos os ´expectadores*´ tomarem seus lugares, e a peça começou.
Após uma introdução de música instrumental, ouvimos rezas, Aves-Marias, e choros. Logo a gente se dá conta que estamos em um velório, e a morta é Dalila, esposa de Jair, que está inconsolável. Daí a instantes, quando aconteceu o enterro, os atores ficaram bem atrás da fileira onde estava sentado e então dava para sentir a trepidação do palco a cada vez que a ´pá´ estava escavando a terra. A sonoplastia é incrível, você realmente ouve o baque surdo do caixão batendo em alguma coisa, a terra sendo jogada, as flores...
Depois de mais um trecho instrumental, que era usado para marcar as mudanças de cena, ouve-se a família do viúvo, chamado Jair, preocupada com a saúde dele. A mãe, com sotaque que me pareceu ser do leste europeu, o pai, a filha e o genro, que tem todo o jeito de malandro. O pai diz que a viuvez se cura em 48 horas, mas ao ouvir isso Jair entra no ambiente e anuncia que a vida dele acabou, e que ele só não vai se matar naquele dia mesmo porque pretende construir um mausoléu para ele e Dalila, e que inclusive já tratou da compra do terreno para isso.
Novo corte de cena, o pai chega em casa para o café da manhã com pão quente, é feito um café fresco, e sentimos cheiro de pão e café. Há uma outra conversa da família, ainda sobre o sofrimento de Jair, especulações se ele é capaz de se suicidar ou não. Paralelamente, ficamos sabendo que o genro é um vagabundo, sem emprego, que vive às custas da família da mulher. Coisa que aliás é típica dos personagens do Nelson Rodrigues, e a essa hora eu já estava vendo aquelas casas de subúrbio do Rio de Janeiro nos anos 50. Ainda durante o café da manhã, que Jair recusa a compartilhar, ele anuncia que como todos os dias vai ´visitar´ a falecida no cemitério. A mãe dele o repreende por não se alimentar e por sair na chuva fria, diz que o corpo dele não vai aguentar e que vai ficar doente. Em seguida ouvimos Jair no cemitério, conversando com Dalila em seu túmulo, e como está garoando, sentimos que está garoando na platéia também.
Outra cena, de volta à casa. Era o momento do almoço, então sentimos o cheiro de carne assada - mas dessa vez acho que o ´tempero´ não estava bom, achei um tanto enjoativo... E vamos acompanhando o desenrolar da história pelas falas dos personagens, e essa ´radionovela´ é acrescida de outras sensações, principalmente através dos ruídos da sonoplastia e dos cheiros.
Mas retomando o enredo, nesse momento a família discute inclusive se era o caso de internar o Jair, estão preocupados com a possibilidade de suicídio dele, pois ao contrário do que o pai previra de início o tempo não está trazendo melhora alguma ao seu filho, muito pelo contrário.
A mãe então revela que chamou um primo para o jantar, e esse primo, por ser extremamente religioso, ter sido coroinha por anos e anos, poderia ajudar a ´curar´ o Jair, já que o ´problema dele é espiritual´. Não pude deixar de notar que se fosse hoje em dia, certamente haveria referências a psicólogos, depressão, drogas para controlar desvios de comportamento.... Mas isso não fazia parte do universo de Nelson Rodrigues. A idéia da mãe é rechaçada pelo resto da família, o pai acredita que o tal primo é um fracassado que nem conseguiu passar de coroinha a padre, e todos os demais o acham extremamente chato. Mas a mãe mantém a esperança de que isso ajude seu filho.
Novo corte musical, nova cena, e Jair é flagrado usando uma calcinha da falecida como lenço. Ele sai batendo a porta, e a família volta a conversar sobre o futuro de Jair. Então o genro, o malandro que vive às custas da família, aparece com uma idéia: o problema de Jair é o amor que continua sentindo pela falecida. Então o jeito de curar o viúvo é acabar com esse amor. Todos em princípio acham a idéia absurda, pois não há meios de conseguir isso. O genro diz que mulher alguma está livre de ser vítima de ´uma boa calúnia´, e com uma morta é ainda mais fácil, pois ela não poderá negar. A idéia é convencer Jair de que Dalila tinha um amante, e com isso destruir o amor que ele ainda sente por ela. Apesar do espanto, mesmo porque Dalila teria sido ´honestíssima´ em vida, o pai começa a achar a idéia interessante.
Essa conversa em família ocorre antes do jantar onde o tal primo, o ex-coroinha, está sendo aguardado. Ao final da conversa, sentimos o cheiro da sopa que estava sendo preparada. A conversa é interrompida pela chegada de Jair, que quer saber o que estava sendo dito. Em princípio todos tentam desviar o assunto, mas o pai acaba cometendo a ´inconfidência´ de dizer que Dalila tinha um amante. Jair a princípio refuta essa possibilidade e mostra que está armado com um revólver, que aponta para a própria cabeça e ameaça atirar se não disserem o nome do tal possível amante. A mãe entra em desespero, todos falam coisas desconexas, e nisso, chega o tal primo coroinha. Para que o filho não se suicide, a mãe indica que o primo é que foi o amante de Dalila.
O Jair então vai armado em direção ao primo, que recua apavorado, pois não está sabendo o que ocorre ali, e claro, pensa que será morto. Mas aí vem o grande fecho nelsonrodrigueano, com um final que não era o que se poderia esperar, e que eu não vou contar aqui. Só o que posso dizer é que absolutamente pertinente com o universo do autor...
E então, termina o espetáculo. Um dos atores acende uma vela, e vai apresentando os outros, um a um. Conforme tem seu nome chamado, cada ator ( agora iluminado pela vela ) repete uma frase de seu personagem, de modo que podemos saber quem interpretou a mãe, o pai, a filha, o cunhado, e claro, Jair. A vela é novamente apagada, mas as luzes do palco não são acesas, apenas as luzes da platéia, que vazam pelas frestas das laterais da cortina. Daí é que pude perceber melhor o espaço onde estávamos: havia dois corredores ortogonais que se cruzavam no centro do palco, com mais ou menos um metro e meio de largura. Nesses corredores, bem no eixo, há cabos de aço a mais ou menos dois metros de altura, e obviamente são esses cabos de aço que guiam os atores na escuridão total.
Eu não sei relacionar os nomes dos atores com os dos personagens, e o programa fornecido não traz essa informação. Mas só o ´pai´ que eu achei que destoava um pouco, tinha a voz muito empostada, que não condizia com o restante das interpretações, e por isso me parecia um tanto falsa. De qualquer maneira, isso não chega a comprometer o prazer de acompanhar essa peça, a gente realmente ´entra´ no enredo, e vai acompanhando tudo como se realmente estivesse vendo. Eu preferi ficar de olhos abertos, mesmo não enxergando absolutamente nada. Quando fechei os olhos, me pareceu que desconcentrava um pouco. Então, acabava olhando naturalmente para cima, como se estivesse evitando ´encarar´ o expectador que estava na minha frente ( nossas fileiras eram voltadas uma para a outra ), e ia virando a cabeça de modo a direcionar os ouvidos para onde vinha o som. Foi uma experiência interessante, ´assistir´ uma peça sem ver nada.
Dessa vez foram apenas duas apresentações no Sesc Ipiranga, mas sei que vão haver mais, em outros espaços. Vale a pena conferir.
* Agora parei para pensar no assunto: expectadores, platéia, assistir à peça, ver o espetáculo.... tomamos a visão como o sentido primordial, e obviamente, isso se reflete na linguagem. Mas para dar conta de fazer esse texto, essas palavras não são as mais adequadas, apesar de ser difícil escapar delas.
O Grande Viúvo
Com Bruno Righi, Giovana Maira, Manoel Lima, Paulo Palado, Sara Bentes e Sérgio Sá
Direção de Paulo Palado
Texto de Nelson Rodrigues
Sesc Ipiranga, até 01/mar/13
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