Essa peça acontece num dia inusitado... há apresentações em plena segunda-feira!
Já comentei aqui sobre como é assistir a uma peça no CCBB ( no caso, quando estive lá para ver ´Vingança, o Musical´ ), só que agora que pela primeira vez fiquei no balcão, não consegui lugar na platéia. Meu ingresso era na primeira fila e tive que me abaixar, escorregar na poltrona para poder ver melhor. O guarda-corpo, por mais delgada que fosse a barra de ferro na parte superior, atrapalhava bastante. Então o jeito foi procurar uma posição em que eu pudesse olhar por debaixo da barra, pois as divisões intermediárias são feitas por cabos de aço e atrapalham menos. De início parecia que estava assistindo a peça através de uma cerca, mas logo abstraí e aproveitei a cena.
Antes mesmo de começar a peça, que eu sabia ser sobre a Myriam Muniz, uma atriz e diretora já falecida sobre a qual não tinha mais do que vagas referências, vi algo que achei muito interessante no programa: o texto, compilado pelo próprio Cassio Scapin junto com Cassio Junqueira,
são falas da própria Myriam, e no programa há os endereços da internet
com as páginas utilizadas na pesquisa, além das referências utilizadas em livros e dvd. Ou seja,
toda a ´bibliografia´ da pesquisa está disponível para quem quiser buscar mais informações.
A peça é um monólogo, quando de abrem as cortinas vemos o Cassio Scapin sentado em uma cadeira de madeira, todo vestido de preto. A cadeira está no centro de um tablado circular onde há também um maço de cigarros e um caderno, ou apostila. Ele tem um xale preto e ao virar de costas para a platéia, se cobre com o xale e começa a falar... Daí vamos percebendo a voz rouca, grave, mas de uma mulher. A entonação, o ´sotaque´, logo me fizeram lembrar daquelas senhoras de origem italiana, desbocadas - como eu já disse, não tinha maiores referências sobre a Myriam Muniz, para mim era um nome conhecido, mas não lembro de ter visto alguma entrevista com ela para saber se a caracterização era fidedigna ou não. Mas obviamente, pela qualidade do trabalho do Cassio Scapin, só podia acreditar que fosse.
De início, talvez pelo problema de assistir ao espetáculo através do guarda-corpo, por ver um homem que estava simplesmente interpretando uma mulher, com sua voz, seu corpo, mas sem ´travestismo´, sem utilizar nenhum adereço feminino, confesso que senti um certo estranhamento. Mas logo isso passou, e parecia mesmo que estávamos vendo ali um senhora já idosa, com forte sotaque paulistano, falando sobre a sua infância, juventude, seu modo de ver o teatro e a vida. Era como se ela estivesse ali dando um depoimento em primeira pessoa. O texto tinha algumas frases ótimas, de quem observava o ser humano com muita acuidade, frases que são bastante duras às vezes, cruas, mas não que não são feitas para machucar. Fiquei com a impressão de que ela deveria ser uma daquelas ´italianonas´ de São Paulo, desbocadas mas com um coração enorme.
E para dar uma idéia da verdadeira transformação que ocorreu em cena, de como o Cassio Scapin realmente se transformou na Myriam Muniz, em um determinado momento da peça, ele/ela diz que vai demonstrar um pouco de seu método de ensino teatral, e fala algo como ´então agora vocês levantem´... e imediatamente as pessoas levantaram, como se realmente fossem os alunos da Myriam! Eu não esperava isso, nessa cena não há nada de diferente em relação às outras, ele/ela continuava dando seu depoimento, não houve uma mudança, uma entonação mais forte, nada. Mas realmente, naquele momento ele/ela era o maestro, dominando totalmente o palco e a platéia. Incrível. Essa mágica do teatro acontecendo ali, na nossa frente, sem a necessidade de nenhum apoio, nenhum adereço, nada além do corpo do ator... é pra ver isso que eu saio de casa numa segunda-feira chuvosa, é isso que faz com que ir ao teatro seja uma experiência incomparável.
A peça foi relativamente curta, mais ou menos uma hora de espetáculo. Dessa vez poderia ter durado mais, que eu assistiria sem esforço algum. Mas depois, ainda houve um bônus: no CCBB há a exposição ´Mestres do Renascimento - Obras-primas Italianas´, que tem levado muita gente até lá, às vezes com horas de espera na fila. Só que na saída da peça o acesso para a exposição já estava livre, e entrar numa sala e dar de cara com a ´Anunciação´, de Boticelli, é de tirar o fôlego. Ótima noite, pra não esquecer mais.
Eu Não Dava Praquilo
Com Cassio Scapin
Direção de Elias Andreato
Roteiro de Cássio Junqueira e Cassio Scapin
CCBB SP, até 23/set/13
terça-feira, 23 de julho de 2013
domingo, 21 de julho de 2013
Ah, a Humanidade! E Outras Boas Intenções
Depois de um certo intervalo sem ir ao teatro, mas pelo melhor motivo do mundo ( ficar com a minha filha! ), eis que estou de volta ao Sesc Consolação, para assistir 'Ah, a Humanidade! E Outras Boas Intenções':
Eu já conhecia o Sesc Consolação, ano passado assisti lá ´Toda Nudez Será Castigada´, do Nelson Rodrigues. É um espaço antigo, um teatro diferente das outras unidades do Sesc, pois lá o teatro dá diretamente para a rua, não está inserido em uma unidade maior. Ou seja, não tem estacionamento. Felizmente, até hoje consegui parar relativamente próximo ao teatro, e nunca tive problemas. Mas estamos em São Paulo, há sempre moradores de rua na praça próxima ao Sesc, e infelizmente, a gente tem que se preocupar com a segurança, especialmente à noite. Não dá para saber de antemão se quem está ali deitado é somente um morador de rua, ou um ´nóia´ que pode te atacar sob efeito de crack.
Lá dentro o foyer é apertado, mas o que interessa mesmo, que é a sala de espetáculos, é bem confortável para a platéia. Dessa vez sentei no bloco dos fundos, mas ainda assim tinha uma boa visão do palco.
E ainda bem que as poltronas são confortáveis, com bom espaço para as pernas... porque dessa vez eu estava querendo que a peça terminasse logo. O meu interesse foi rever dois bons atores, Guilherme Weber e Celso Frateschi. Mas a peça é longa, e apesar de serem cinco temas diferentes entre si, acaba sendo enfadonho. Na prática, são cinco peças apresentadas em sequência, e na maior parte do tempo o que se vê são monólogos. Isso não teria o menor problema se o texto fosse mais interessante, mas não é o caso. O cenário é sempre o mesmo, com uma barafunda de coisas espalhadas pelo palco, onde se sobressai uma escrivaninha, à direita, e um poste tombado, que vai do fundo do palco ao centro.
É na escrivaninha que acontece a primeira parte do espetáculo: o Celso Frateschi aparece como um treinador de uma equipe esportiva ( se não me engano não há nenhuma menção explícita a qual esporte se refere ), que está dando uma entrevista coletiva, fazendo um balanço do ano que passou. De início vem aquela lenga-lenga de técnico que não conseguiu um bom resultado, dizendo que fez tudo de coração, pensando na torcida, e bla-bla-blá. Depois, ele vai se justificando, pedindo a compreensão de todos, falando que isso faz parte da vida, e acredito que para conseguir mais empatia, passa a falar da sua vida pessoal, da perda da mulher, ou namorada... Nada é muito preciso, são frases vagas. Mas o problema é que essa cena, onde ele fica parado atrás de uma mesa até os minutos finais, deve ter algo como 30 minutos de duração. Por melhor ator que seja o Celso Fratechi ( e ele é sim um ótimo ator ), não dá pra segurar a atenção por tanto tempo com um texto solto como aquele. Sinto muito se o New York Times chamou o autor, Will Eno, de ´novo Beckett´. O texto é chato, e ponto.
A cena seguinte é sobre a gravação de vídeos para um site de relacionamentos, feitos simultâneamente por um homem e uma mulher ( Guilherme Weber e Erica Migon ). Dessa vez é mais interessante: vemos os dois gravando seus filmes ao mesmo tempo, mas separadamente, e conforme vão se expondo, procurando primeiro obviamente mostrar suas qualidades, aos poucos mostrando seus lados mais patéticos, e há um encadeamento entre as falas, de tal maneira que é possível estabelecer paralelos ou diferenças entre as apresentações dos dois. Do mesmo modo que na primeira cena, conforme os personagens vão falando, o discurso vai saindo de controle, e acabam dizendo coisas além do que se espera na situação em que vivem.
Em seguida, um novo monólogo: a Renata Hardy aparece como a porta-voz de uma empresa aérea que teve um acidente com um de seus aviões, sem sobreviventes. Assim como o treinador, ela sai do discurso que se espera numa ocasião como essa, e ao tratar diretamente com os parentes das vítimas, usa seu exemplo pessoal da perda do pai para tentar criar alguma empatia. De novo é o discurso saindo dos trilhos, com algumas falas que buscam o humor negro. Mas nessa parte, acho que o estoque de boa vontade da platéia já estava se esgotando, e havia bem menos manifestações do que no esquete anterior. E de novo, fiquei com a sensação de que a mensagem poderia ser transmitida de em muito menos tempo, digamos que se a tradução tivesse cortado 40% do texto, não haveria perda nenhuma para a compreensão da mensagem... ou pelo menos do que eu entendi.
Depois vem em cena de novo o Celso Frateschi e a Erica Migon. Ele é um fotógrafo, e ela sua assistente. Os dois tem como missão reproduzir uma foto histórica feita em Cuba, 100 anos antes, durante a Guerra Hispano-Americana. Dessa vez há alguma interação direta com a platéia, já que a câmara está virada do palco em direção a nós, e dois refletores colocados nas extremidades do palco também são virados para a platéia ( em certo momento, com tanta potência que incomodava os olhos, mesmo eu estando no fundo da platéia ). Somente nessa cena é que pela primeira vez há alguma interação entre os personagens, há diálogo entre eles, e como a foto não é mostrada, apenas descrita, acredito que cada um na platéia vá criando a sua própria imagem mental. Essa foi a cena menos demorada, acredito.
E para terminar, após o flash do fotógrafo, os refletores voltados para a platéia são apagados, e vemos novamente em cena o Guilherme Weber e a Renata Hardy. Os dois são um casal, sentados em duas cadeiras de madeira, mas que representam os assentos de um carro. O ator faz os movimentos de quem está ligando um carro, mas cujo motor não funciona. Daí se estabelece um diálogo entre os personagens, quando ela expressa preocupação por chegar atrasada a um batismo, e ele diz que estão indo ao velório do pai dele. Daí a conversa parte para o absurdo, vão para um batizado ou para um enterro, há uma pequena discussão, e aparece um novo personagem, o ator Fabio Mazzoni, em uma pequena participação. Ele se apresenta como ´aquele que traz a mágica da vida´, ou algo assim, não recordo exatamente o texto. Sinceramente, a essa altura eu já estava mais interessado em quando aconteceria o final do espetáculo do que propriamente o encaminhamento da cena.
Mas como tudo tem que chegar ao fim, as luzes se apagam e uma tv antiga, colocada no fundo do palco ( e que estava ligada enquanto o público tomava seus assentos antes da peça ) volta a funcionar, mostrando o trecho final da animação 'Mogli, o Menino-Lobo', da Disney. Então assistimos ao Mogli encontrar pela primeira vez uma menina e sair da selva em busca de novas experiências, dessa vez junto a humanos, e quando começam os créditos do filme, acaba a peça.
Está claro que eu não gostei do que vi, achei demorado demais, quase duas horas de espetáculo, e a meu ver sem justificativa para todo esse tempo. Não chega a ser um desastre,mas achei a peça enfadonha, e depois, pensando no que estava escrito no programa, também pretensiosa demais pelo que apresenta.
'Ah, a Humanidade! E Outras Boas Intenções'
Com Celso Frateschi, Erica Migon, Fabio Mazzoni, Guilherme Weber e Renata Hardy
Direção de Murilo Hauser
Texto de Will Eno
Sesc Consolação, SP, até 28/jul/13
Eu já conhecia o Sesc Consolação, ano passado assisti lá ´Toda Nudez Será Castigada´, do Nelson Rodrigues. É um espaço antigo, um teatro diferente das outras unidades do Sesc, pois lá o teatro dá diretamente para a rua, não está inserido em uma unidade maior. Ou seja, não tem estacionamento. Felizmente, até hoje consegui parar relativamente próximo ao teatro, e nunca tive problemas. Mas estamos em São Paulo, há sempre moradores de rua na praça próxima ao Sesc, e infelizmente, a gente tem que se preocupar com a segurança, especialmente à noite. Não dá para saber de antemão se quem está ali deitado é somente um morador de rua, ou um ´nóia´ que pode te atacar sob efeito de crack.
Lá dentro o foyer é apertado, mas o que interessa mesmo, que é a sala de espetáculos, é bem confortável para a platéia. Dessa vez sentei no bloco dos fundos, mas ainda assim tinha uma boa visão do palco.
E ainda bem que as poltronas são confortáveis, com bom espaço para as pernas... porque dessa vez eu estava querendo que a peça terminasse logo. O meu interesse foi rever dois bons atores, Guilherme Weber e Celso Frateschi. Mas a peça é longa, e apesar de serem cinco temas diferentes entre si, acaba sendo enfadonho. Na prática, são cinco peças apresentadas em sequência, e na maior parte do tempo o que se vê são monólogos. Isso não teria o menor problema se o texto fosse mais interessante, mas não é o caso. O cenário é sempre o mesmo, com uma barafunda de coisas espalhadas pelo palco, onde se sobressai uma escrivaninha, à direita, e um poste tombado, que vai do fundo do palco ao centro.
É na escrivaninha que acontece a primeira parte do espetáculo: o Celso Frateschi aparece como um treinador de uma equipe esportiva ( se não me engano não há nenhuma menção explícita a qual esporte se refere ), que está dando uma entrevista coletiva, fazendo um balanço do ano que passou. De início vem aquela lenga-lenga de técnico que não conseguiu um bom resultado, dizendo que fez tudo de coração, pensando na torcida, e bla-bla-blá. Depois, ele vai se justificando, pedindo a compreensão de todos, falando que isso faz parte da vida, e acredito que para conseguir mais empatia, passa a falar da sua vida pessoal, da perda da mulher, ou namorada... Nada é muito preciso, são frases vagas. Mas o problema é que essa cena, onde ele fica parado atrás de uma mesa até os minutos finais, deve ter algo como 30 minutos de duração. Por melhor ator que seja o Celso Fratechi ( e ele é sim um ótimo ator ), não dá pra segurar a atenção por tanto tempo com um texto solto como aquele. Sinto muito se o New York Times chamou o autor, Will Eno, de ´novo Beckett´. O texto é chato, e ponto.
A cena seguinte é sobre a gravação de vídeos para um site de relacionamentos, feitos simultâneamente por um homem e uma mulher ( Guilherme Weber e Erica Migon ). Dessa vez é mais interessante: vemos os dois gravando seus filmes ao mesmo tempo, mas separadamente, e conforme vão se expondo, procurando primeiro obviamente mostrar suas qualidades, aos poucos mostrando seus lados mais patéticos, e há um encadeamento entre as falas, de tal maneira que é possível estabelecer paralelos ou diferenças entre as apresentações dos dois. Do mesmo modo que na primeira cena, conforme os personagens vão falando, o discurso vai saindo de controle, e acabam dizendo coisas além do que se espera na situação em que vivem.
Em seguida, um novo monólogo: a Renata Hardy aparece como a porta-voz de uma empresa aérea que teve um acidente com um de seus aviões, sem sobreviventes. Assim como o treinador, ela sai do discurso que se espera numa ocasião como essa, e ao tratar diretamente com os parentes das vítimas, usa seu exemplo pessoal da perda do pai para tentar criar alguma empatia. De novo é o discurso saindo dos trilhos, com algumas falas que buscam o humor negro. Mas nessa parte, acho que o estoque de boa vontade da platéia já estava se esgotando, e havia bem menos manifestações do que no esquete anterior. E de novo, fiquei com a sensação de que a mensagem poderia ser transmitida de em muito menos tempo, digamos que se a tradução tivesse cortado 40% do texto, não haveria perda nenhuma para a compreensão da mensagem... ou pelo menos do que eu entendi.
Depois vem em cena de novo o Celso Frateschi e a Erica Migon. Ele é um fotógrafo, e ela sua assistente. Os dois tem como missão reproduzir uma foto histórica feita em Cuba, 100 anos antes, durante a Guerra Hispano-Americana. Dessa vez há alguma interação direta com a platéia, já que a câmara está virada do palco em direção a nós, e dois refletores colocados nas extremidades do palco também são virados para a platéia ( em certo momento, com tanta potência que incomodava os olhos, mesmo eu estando no fundo da platéia ). Somente nessa cena é que pela primeira vez há alguma interação entre os personagens, há diálogo entre eles, e como a foto não é mostrada, apenas descrita, acredito que cada um na platéia vá criando a sua própria imagem mental. Essa foi a cena menos demorada, acredito.
E para terminar, após o flash do fotógrafo, os refletores voltados para a platéia são apagados, e vemos novamente em cena o Guilherme Weber e a Renata Hardy. Os dois são um casal, sentados em duas cadeiras de madeira, mas que representam os assentos de um carro. O ator faz os movimentos de quem está ligando um carro, mas cujo motor não funciona. Daí se estabelece um diálogo entre os personagens, quando ela expressa preocupação por chegar atrasada a um batismo, e ele diz que estão indo ao velório do pai dele. Daí a conversa parte para o absurdo, vão para um batizado ou para um enterro, há uma pequena discussão, e aparece um novo personagem, o ator Fabio Mazzoni, em uma pequena participação. Ele se apresenta como ´aquele que traz a mágica da vida´, ou algo assim, não recordo exatamente o texto. Sinceramente, a essa altura eu já estava mais interessado em quando aconteceria o final do espetáculo do que propriamente o encaminhamento da cena.
Mas como tudo tem que chegar ao fim, as luzes se apagam e uma tv antiga, colocada no fundo do palco ( e que estava ligada enquanto o público tomava seus assentos antes da peça ) volta a funcionar, mostrando o trecho final da animação 'Mogli, o Menino-Lobo', da Disney. Então assistimos ao Mogli encontrar pela primeira vez uma menina e sair da selva em busca de novas experiências, dessa vez junto a humanos, e quando começam os créditos do filme, acaba a peça.
Está claro que eu não gostei do que vi, achei demorado demais, quase duas horas de espetáculo, e a meu ver sem justificativa para todo esse tempo. Não chega a ser um desastre,mas achei a peça enfadonha, e depois, pensando no que estava escrito no programa, também pretensiosa demais pelo que apresenta.
'Ah, a Humanidade! E Outras Boas Intenções'
Com Celso Frateschi, Erica Migon, Fabio Mazzoni, Guilherme Weber e Renata Hardy
Direção de Murilo Hauser
Texto de Will Eno
Sesc Consolação, SP, até 28/jul/13
segunda-feira, 17 de junho de 2013
A Descida do Monte Morgan
Finalmente a primeira peça de junho: A Descida do Monte Morgan
A peça está em cartaz no Teatro Nair Bello, que também fica no Shopping Frei Caneca, assim como o teatro do mesmo nome. Mas é um espaço bem menor, onde funciona a escola de atores do Wolf Maia, e é também menos confortável. A visualização do palco é boa, já que o espaço é pequeno e os degraus entre as fileiras é grande, então mesmo que alguém alto sente na frente, não atrapalha. Mas a distância entre as poltronas é mínima, fica difícil passar se alguém já estiver sentado, e cruzar as pernas, então, nem pensar.
Quando entramos, não havia cortinas fechadas, o cenário já estava à mostra. Eram vários móveis e objetos espalhados em cena, e como o teatro conta com um pequeno mezanino no palco, que circunda todo o espaço, havia ali também vários ítens, bem como alguns até pendurados a partir do teto. Avião de radiocontrole, bicicletas, raquetes de tênis, tinha de tudo pendurado. Depois, vamos percebendo que esses objetos têm a ver com a narrativa, são como ´pedaços de memória´ dos personagens que estão ali expostos. No nível do palco, ao fundo, cômodas, mesas, armários, e bem ao centro, uma cama de hospital.
A peça de Arthur Miller é sobre um bígamo, um homem bem-sucedido que se apaixona por uma mulher mais nova, casa com ela, mas mantém o casamento antigo. Só que ele acaba se acidentando quando descia de automóvel o tal Monte Morgan que dá título à peça, e ao ser encontrado ferido, pela placa do carro a polícia localiza a família ´oficial´ em Nova York, e a avisa. Mas o tal Monte Morgan fica na cidade pequena onde ele mantém a amante... e é quando ele está se recuperando no hospital que as duas esposas se encontram na sala de espera, e acabam descobrindo toda a verdade. A partir daí a história segue um curso que se pode dizer ´clássico´, com as reações das mulheres e da filha do primeiro casamento. As decepções, as reações de incredulidade das esposas, a revolta da filha, tudo é dentro do esperado. O que sai do padrão no enredo é a postura do bígamo...
O tal homem ( Lyman Felt / Ary França ), por mais que esteja ciente da situação complicadíssima em que se meteu, inclusive por ser um empresário de sucesso e uma figura pública, com a imprensa tratando do caso, tem uma postura que vai além do arrependimento: ele também questiona a fidelidade, de um modo mais profundo do que simplesmente a fidelidade ao parceiro: questiona a fidelidade a seus próprios princípios, e vê que isso ele não traiu. E é a partir disso que a trama não se torna uma história banal.
Conforme já dito, a reação das duas esposas, a primeira ( Theodora Felt / Lavínia Pannunzio ), e a segunda ( Leah Felt / Samya Pascotto ) ao saber da traição do marido é a que se espera. Mas depois, ele vai lembrando às duas que os últimos nove anos, o período do duplo casamento, foi o melhor período da vida de todos, nunca antes foram tão felizes. Ambas estavam satisfeitas até então. E ele, que admirava profundamente as duas, também era feliz, por conseguir fazê-las felizes. Mas ele também afirma ser o mais prejudicado entre todos por aquela situação, já que era ele quem tinha que se desdobrar para manter as duas esposas. A partir disso, então, qual o mal que ele realmente causou? Ele se justifica dizendo que fez o que seu coração mandava, nunca traiu seus sentimentos... E questiona se isso que ele fez está errado, se ele deveria ter traído seus sentimentos ou traído as suas esposas, e concluindo que não se traiu, fez o certo... O que é uma saída bem interessante para quem foi pego num flagrante de bigamia.
A encenação é bastante interessante: na primeira cena, quando Lyman Felt é atendido na cama do hospital pela enfermeira Logan ( Jú Colombo ), a gente fica sabendo da angústia do personagem principal ao se dar conta do que certamente acontecerá, que é o encontro das duas mulheres. Daí, há um corte para a sala de espera, onde chegam a primeira esposa, Theo, junto com a filha Bessie ( Paula Ravache ), e depois a segunda esposa, Leah. Mas além do drama que se desenrola, da descoberta da traição, tem algo interessantíssimo acontecendo na cena: Lyman sai da cama e vai acompanhando a conversa entre as suas duas mulheres e a filha, e fazendo comentários sobre o que elas dizem, como se fosse um fantasma. E daí pra frente, a cada vez que algum personagem sai de cena, não sai do palco. Ficam sempre no fundo, numa área de penumbra, acompanhando o que acontece no centro do palco, e entram para participar conforme a cena.
Mais uma vez, acho que não cabe aqui ficar discorrendo sobre todo o enredo. A peça é uma comédia, sem dúvida, mas também tem momentos de drama, e tudo vai se alternando, já que a história não é contada de modo linear, mas se utiliza de ´flahsbacks´. O Ary França, mais uma vez mostra que é um grande ator, dá credibilidade aos sentimentos do Lyman, mostrando a angústia ao saber que vai ser desmascarado, a ternura com suas duas mulheres e sua filha, o desamparo ao ver que ficará sem as duas, a busca de conselho e depois de alguma cumplicidade com seu advogado e amigo Tom ( Fábio Nassar ). Outra interpretação de destaque foi da Lavínia Pannunzio, como a mulher madura e traída que de repente vê seu mundo desmoronar. Já a Samya Pascotto entrou nitidamente nervosa, errando as falas, com um gestual exagerado. Depois, fomos informados que a sessão em que eu estive presente foi a primeira atuação dela na peça ( no programa ela aparece como assistente de direção ). Isso deve explicar o nervosismo... Mas por outro lado, fiquei decepcionado com a atuação do Fábio Nassar. Eu o conhecia dos programas da tv com a Denise Fraga, mas ali ao vivo, no teatro, ele parecia deslocado, simplesmente falando as suas cenas, e não propriamente interpretando. Uma pena.
Mas no cômputo geral, gostei, vale a pena assistir. Existe uma verdadeira simbiose entre cenário, enredo e encenação, algo que não se vê normalmente de um modo tão bem concatenado. O texto é muito rico, como era de se esperar de um dramaturgo que é considerado um dos maiores do século XX nos Estados Unidos. O Ary França, que na última peça que havia assistido com ele ( Como se tornar uma super-mãe em 10 lições ) simplesmente não saía do lugar e fazia rir somente com as expressões do rosto, dessa vez mostrou uma vitalidade impressionante, se deslocando por todo o cenário praticamente o tempo todo. E a peça não é curta, são quase duas horas de encenação...
A Descida do Monte Morgan
Com Ary França, Lavínia Pannunzio, Samya Pascotto, Fábio Nassar, Paula Ravache, Jú Colombo
Direção de Luiz Villaça
Texto de Arthur Miller
Teatro Nair Bello, até 14/jul/13
A peça está em cartaz no Teatro Nair Bello, que também fica no Shopping Frei Caneca, assim como o teatro do mesmo nome. Mas é um espaço bem menor, onde funciona a escola de atores do Wolf Maia, e é também menos confortável. A visualização do palco é boa, já que o espaço é pequeno e os degraus entre as fileiras é grande, então mesmo que alguém alto sente na frente, não atrapalha. Mas a distância entre as poltronas é mínima, fica difícil passar se alguém já estiver sentado, e cruzar as pernas, então, nem pensar.
Quando entramos, não havia cortinas fechadas, o cenário já estava à mostra. Eram vários móveis e objetos espalhados em cena, e como o teatro conta com um pequeno mezanino no palco, que circunda todo o espaço, havia ali também vários ítens, bem como alguns até pendurados a partir do teto. Avião de radiocontrole, bicicletas, raquetes de tênis, tinha de tudo pendurado. Depois, vamos percebendo que esses objetos têm a ver com a narrativa, são como ´pedaços de memória´ dos personagens que estão ali expostos. No nível do palco, ao fundo, cômodas, mesas, armários, e bem ao centro, uma cama de hospital.
A peça de Arthur Miller é sobre um bígamo, um homem bem-sucedido que se apaixona por uma mulher mais nova, casa com ela, mas mantém o casamento antigo. Só que ele acaba se acidentando quando descia de automóvel o tal Monte Morgan que dá título à peça, e ao ser encontrado ferido, pela placa do carro a polícia localiza a família ´oficial´ em Nova York, e a avisa. Mas o tal Monte Morgan fica na cidade pequena onde ele mantém a amante... e é quando ele está se recuperando no hospital que as duas esposas se encontram na sala de espera, e acabam descobrindo toda a verdade. A partir daí a história segue um curso que se pode dizer ´clássico´, com as reações das mulheres e da filha do primeiro casamento. As decepções, as reações de incredulidade das esposas, a revolta da filha, tudo é dentro do esperado. O que sai do padrão no enredo é a postura do bígamo...
O tal homem ( Lyman Felt / Ary França ), por mais que esteja ciente da situação complicadíssima em que se meteu, inclusive por ser um empresário de sucesso e uma figura pública, com a imprensa tratando do caso, tem uma postura que vai além do arrependimento: ele também questiona a fidelidade, de um modo mais profundo do que simplesmente a fidelidade ao parceiro: questiona a fidelidade a seus próprios princípios, e vê que isso ele não traiu. E é a partir disso que a trama não se torna uma história banal.
Conforme já dito, a reação das duas esposas, a primeira ( Theodora Felt / Lavínia Pannunzio ), e a segunda ( Leah Felt / Samya Pascotto ) ao saber da traição do marido é a que se espera. Mas depois, ele vai lembrando às duas que os últimos nove anos, o período do duplo casamento, foi o melhor período da vida de todos, nunca antes foram tão felizes. Ambas estavam satisfeitas até então. E ele, que admirava profundamente as duas, também era feliz, por conseguir fazê-las felizes. Mas ele também afirma ser o mais prejudicado entre todos por aquela situação, já que era ele quem tinha que se desdobrar para manter as duas esposas. A partir disso, então, qual o mal que ele realmente causou? Ele se justifica dizendo que fez o que seu coração mandava, nunca traiu seus sentimentos... E questiona se isso que ele fez está errado, se ele deveria ter traído seus sentimentos ou traído as suas esposas, e concluindo que não se traiu, fez o certo... O que é uma saída bem interessante para quem foi pego num flagrante de bigamia.
A encenação é bastante interessante: na primeira cena, quando Lyman Felt é atendido na cama do hospital pela enfermeira Logan ( Jú Colombo ), a gente fica sabendo da angústia do personagem principal ao se dar conta do que certamente acontecerá, que é o encontro das duas mulheres. Daí, há um corte para a sala de espera, onde chegam a primeira esposa, Theo, junto com a filha Bessie ( Paula Ravache ), e depois a segunda esposa, Leah. Mas além do drama que se desenrola, da descoberta da traição, tem algo interessantíssimo acontecendo na cena: Lyman sai da cama e vai acompanhando a conversa entre as suas duas mulheres e a filha, e fazendo comentários sobre o que elas dizem, como se fosse um fantasma. E daí pra frente, a cada vez que algum personagem sai de cena, não sai do palco. Ficam sempre no fundo, numa área de penumbra, acompanhando o que acontece no centro do palco, e entram para participar conforme a cena.
Mais uma vez, acho que não cabe aqui ficar discorrendo sobre todo o enredo. A peça é uma comédia, sem dúvida, mas também tem momentos de drama, e tudo vai se alternando, já que a história não é contada de modo linear, mas se utiliza de ´flahsbacks´. O Ary França, mais uma vez mostra que é um grande ator, dá credibilidade aos sentimentos do Lyman, mostrando a angústia ao saber que vai ser desmascarado, a ternura com suas duas mulheres e sua filha, o desamparo ao ver que ficará sem as duas, a busca de conselho e depois de alguma cumplicidade com seu advogado e amigo Tom ( Fábio Nassar ). Outra interpretação de destaque foi da Lavínia Pannunzio, como a mulher madura e traída que de repente vê seu mundo desmoronar. Já a Samya Pascotto entrou nitidamente nervosa, errando as falas, com um gestual exagerado. Depois, fomos informados que a sessão em que eu estive presente foi a primeira atuação dela na peça ( no programa ela aparece como assistente de direção ). Isso deve explicar o nervosismo... Mas por outro lado, fiquei decepcionado com a atuação do Fábio Nassar. Eu o conhecia dos programas da tv com a Denise Fraga, mas ali ao vivo, no teatro, ele parecia deslocado, simplesmente falando as suas cenas, e não propriamente interpretando. Uma pena.
Mas no cômputo geral, gostei, vale a pena assistir. Existe uma verdadeira simbiose entre cenário, enredo e encenação, algo que não se vê normalmente de um modo tão bem concatenado. O texto é muito rico, como era de se esperar de um dramaturgo que é considerado um dos maiores do século XX nos Estados Unidos. O Ary França, que na última peça que havia assistido com ele ( Como se tornar uma super-mãe em 10 lições ) simplesmente não saía do lugar e fazia rir somente com as expressões do rosto, dessa vez mostrou uma vitalidade impressionante, se deslocando por todo o cenário praticamente o tempo todo. E a peça não é curta, são quase duas horas de encenação...
A Descida do Monte Morgan
Com Ary França, Lavínia Pannunzio, Samya Pascotto, Fábio Nassar, Paula Ravache, Jú Colombo
Direção de Luiz Villaça
Texto de Arthur Miller
Teatro Nair Bello, até 14/jul/13
segunda-feira, 27 de maio de 2013
Alô Dolly
Finalmente fui assistir ´Alô Dolly´, no Teatro Bradesco:
Musicais não são exatamente a minha preferência no teatro, às vezes acho a ´relação custo-benefício´ complicada, porque essas grandes produções que de uns anos para cá passaram a ficar disponíveis em São Paulo normalmente têm preços exorbitantes. Por outro lado, desde que vi o Miguel Falabella em um outro musical, Hairspray, passei a ser fã do trabalho dele no teatro, eu que nunca me diverti muito com os programas humorísticos em que ele aparece na televisão. Mas no teatro, eu tiro o chapéu para o trabalho do Falabella, que faz valer o ingresso.
Sendo assim, é claro que a minha tendência era de gostar do espetáculo, ainda mais com a participação também da Marília Pêra, que dispensa apresentações. E não me decepcionei, de modo algum.
O Teatro Bradesco fica dentro do Shopping Pompéia, o que dá acesso fácil a quem vai de carro, e ainda permite uma passadinha na praça de alimentação antes de entrar. É um espaço confortável, na minha opinião com uma decoração mais pretensiosa do que propriamente luxuosa, mas em todo caso, acho que é hoje uma das melhores casas de espetáculos de São Paulo, com poltronas confortáveis, acesso fácil, boa visualização do palco. Acho que só quem sentou nas primeiríssimas fileiras é que se arrependeu, pois o palco é bastante alto, e com certeza dali não se pode ver bem - mas não foi o meu caso. E por incrível que pareça, mesmo havendo em cena duas grandes estrelas da tv, o público se comportou como deveria ser sempre... pelo menos onde eu estava sentado, não teve ninguém usando o celular ou se deslumbrando ao ver os atores da tv em cena. E olhe que fui numa quinta-feira, cheguei em casa e estavam o Falabella e a Marília aparecendo na Globo em ´Pé na cova´... Milagres acontecem.
Mas o que interessa mesmo é a peça. O enredo trata de uma viúva que vive de arrumar casamentos ( Dolly Levi / Marília Pêra ), e que foi contratada por um comerciante rico e avarento da pequena cidade de Yonkers ( Horácio Vandergelder / Miguel Falabella ). Esse Horácio é um tipo absolutamente detestável, grosseiro, humilha os empregados e não permite que a sobrinha que vive em sua casa tenha um namorado. Mas ele também se mostra um homem solitário e de certa maneira até sensível, e busca alguém para compartilhar sua vida. Ou seja, para um ator como o Miguel Falabella, é um prato cheio. Os momentos em que o personagem é mau, o Falabella faz com um cinismo absoluto, e nos momentos de ternura do personagem, parece uma criança em cena, de tão inocente. Já Dolly Levi, como disse no início, é uma viúva casamenteira, mas não só isso, é uma verdadeira ´lady charlatã´, sempre com uma carta na manga, com um ´jeitinho´ para resolver as situações mais difíceis. E claro, a Marília Pêra dá um show, exprimindo as palavras como quem estivesse sempre em dúvida, mas na prática sendo a senhora de todas as situações, já que ela manobra os outros personagens para que façam exatamente o que ela quer. Também é patente a cumplicidade entre os dois, Miguel e Marília, sendo que a gente percebe desde o início a veneração que o Falabella tem pela parceira.
Mas não é só isso... Os outros atores também vão muito bem. Quem mais me impressionou foram o Frederico Reuter, que no papel de Cornélio, um dos funcionários de Horácio Vandergelder, também dá um show, tanto na parte musical quanto na atuação, a Alessandra Verney, no papel de Irene Molloy, e Ricardo Pêra, que atua como o maitre Rudolph Reisenweber e que agora, lendo o programa, descobri ser filho da Marília Pêra.
Não vou retomar o enredo aqui, mas a cena do jantar, com a entrada da Dolly no restaurante é daquelas cenas de filme de Hollywood, ou melhor, da Broadway, com a longa escadaria por onde a estrela desce triunfante. E nada mais coerente, já que o subtítulo da peça é ´Um musical da Broadway´. Ou seja, o que é entregue ao espectador é exatamente o que a gente espera de um grande musical. Perfeito nos mínimos detalhes, nas danças, nas marcações, mas de modo nenhum é um espetáculo frio, técnico. A gente se diverte e vê que os atores estão ali com prazer, se divertindo também.
Musicalmente, apesar de ser um espetáculo já clássico, não me impressionou muito. A única música que reconheci foi justamente ´Hello, Dolly´, que nos primeiros acordes me remeteu à versão do Louis Armstrong. Já as outras músicas fizeram seu papel em cena, mas não deixaram marcas nos ouvidos... Já o cenário é muito interessante, é uma superfície vertical que faz as vezes de moldura para as várias mudanças de cena. Nessa superfície estão aplicadas texturas, volutas, frisos, que me remeteram às notas de dólar. Mas dessa grande superfície também saem alguns volumes, que se transformam em escadas, por exemplo. E ao fundo, conforme o desenrolar da história, há projeções que remetem a noites de luar, estação de trem... Muito bem bolado.
O figurino também chama a atenção. Foi criado pelo Fause Haten, e mesmo eu, que não sou exatamente alguém que acompanha a moda, percebo a diferença de qualidade entre o trabalho dele e o que estamos acostumados a ver por aí. Todos, absolutamente todos os figurinos de muito bom gosto, claro que são roupas de época, baseadas em algo que já vimos, mas a Marília Pêra estava com um figurino de saia estampada e colete listrado que ao mesmo tempo que instiga por quebrar uma ´regra´ de não misturar listras e estampas, era absolutamente harmonioso.
Enfim, saí absolutamente satisfeito com o espetáculo que assisti. Estava até esquecendo de dizer, mas a música é executada por uma pequena orquestra, localizada no fosso, e há também um grande coro de bailarinos, sendo um deles se destaca ( Fabio Yoshihara ) que além de ser de origem japonesa também é careca, o que também gera alguns momentos de piadas visuais.
Um comentário final: eu sempre colecionei os programas das peças que assisto, muito antes de começar a escrever esse blog. Isso ajuda a relembrar os momentos que assisti, e é claro que eu não conseguiria fazer esse texto sem recorrer ao programa. A única coisa chata é que dessa vez o programa, luxuoso, com impressão em papel de alta gramatura, a quatro cores, verniz... custou exagerados 20 reais, e ainda assim veio com propaganda. Mas tá valendo...
Alô Dolly
Com Miguel Falabella, Marília Pêra, Frederico Reuter, Alessandra Verney, Ricardo Pêra
Direção e versão brasileira: Miguel Falabella
Texto de Michael Stewart
Músicas e letras de Jerry Herman
Teatro Bradesco, até 07/jul/13
Musicais não são exatamente a minha preferência no teatro, às vezes acho a ´relação custo-benefício´ complicada, porque essas grandes produções que de uns anos para cá passaram a ficar disponíveis em São Paulo normalmente têm preços exorbitantes. Por outro lado, desde que vi o Miguel Falabella em um outro musical, Hairspray, passei a ser fã do trabalho dele no teatro, eu que nunca me diverti muito com os programas humorísticos em que ele aparece na televisão. Mas no teatro, eu tiro o chapéu para o trabalho do Falabella, que faz valer o ingresso.
Sendo assim, é claro que a minha tendência era de gostar do espetáculo, ainda mais com a participação também da Marília Pêra, que dispensa apresentações. E não me decepcionei, de modo algum.
O Teatro Bradesco fica dentro do Shopping Pompéia, o que dá acesso fácil a quem vai de carro, e ainda permite uma passadinha na praça de alimentação antes de entrar. É um espaço confortável, na minha opinião com uma decoração mais pretensiosa do que propriamente luxuosa, mas em todo caso, acho que é hoje uma das melhores casas de espetáculos de São Paulo, com poltronas confortáveis, acesso fácil, boa visualização do palco. Acho que só quem sentou nas primeiríssimas fileiras é que se arrependeu, pois o palco é bastante alto, e com certeza dali não se pode ver bem - mas não foi o meu caso. E por incrível que pareça, mesmo havendo em cena duas grandes estrelas da tv, o público se comportou como deveria ser sempre... pelo menos onde eu estava sentado, não teve ninguém usando o celular ou se deslumbrando ao ver os atores da tv em cena. E olhe que fui numa quinta-feira, cheguei em casa e estavam o Falabella e a Marília aparecendo na Globo em ´Pé na cova´... Milagres acontecem.
Mas o que interessa mesmo é a peça. O enredo trata de uma viúva que vive de arrumar casamentos ( Dolly Levi / Marília Pêra ), e que foi contratada por um comerciante rico e avarento da pequena cidade de Yonkers ( Horácio Vandergelder / Miguel Falabella ). Esse Horácio é um tipo absolutamente detestável, grosseiro, humilha os empregados e não permite que a sobrinha que vive em sua casa tenha um namorado. Mas ele também se mostra um homem solitário e de certa maneira até sensível, e busca alguém para compartilhar sua vida. Ou seja, para um ator como o Miguel Falabella, é um prato cheio. Os momentos em que o personagem é mau, o Falabella faz com um cinismo absoluto, e nos momentos de ternura do personagem, parece uma criança em cena, de tão inocente. Já Dolly Levi, como disse no início, é uma viúva casamenteira, mas não só isso, é uma verdadeira ´lady charlatã´, sempre com uma carta na manga, com um ´jeitinho´ para resolver as situações mais difíceis. E claro, a Marília Pêra dá um show, exprimindo as palavras como quem estivesse sempre em dúvida, mas na prática sendo a senhora de todas as situações, já que ela manobra os outros personagens para que façam exatamente o que ela quer. Também é patente a cumplicidade entre os dois, Miguel e Marília, sendo que a gente percebe desde o início a veneração que o Falabella tem pela parceira.
Mas não é só isso... Os outros atores também vão muito bem. Quem mais me impressionou foram o Frederico Reuter, que no papel de Cornélio, um dos funcionários de Horácio Vandergelder, também dá um show, tanto na parte musical quanto na atuação, a Alessandra Verney, no papel de Irene Molloy, e Ricardo Pêra, que atua como o maitre Rudolph Reisenweber e que agora, lendo o programa, descobri ser filho da Marília Pêra.
Não vou retomar o enredo aqui, mas a cena do jantar, com a entrada da Dolly no restaurante é daquelas cenas de filme de Hollywood, ou melhor, da Broadway, com a longa escadaria por onde a estrela desce triunfante. E nada mais coerente, já que o subtítulo da peça é ´Um musical da Broadway´. Ou seja, o que é entregue ao espectador é exatamente o que a gente espera de um grande musical. Perfeito nos mínimos detalhes, nas danças, nas marcações, mas de modo nenhum é um espetáculo frio, técnico. A gente se diverte e vê que os atores estão ali com prazer, se divertindo também.
Musicalmente, apesar de ser um espetáculo já clássico, não me impressionou muito. A única música que reconheci foi justamente ´Hello, Dolly´, que nos primeiros acordes me remeteu à versão do Louis Armstrong. Já as outras músicas fizeram seu papel em cena, mas não deixaram marcas nos ouvidos... Já o cenário é muito interessante, é uma superfície vertical que faz as vezes de moldura para as várias mudanças de cena. Nessa superfície estão aplicadas texturas, volutas, frisos, que me remeteram às notas de dólar. Mas dessa grande superfície também saem alguns volumes, que se transformam em escadas, por exemplo. E ao fundo, conforme o desenrolar da história, há projeções que remetem a noites de luar, estação de trem... Muito bem bolado.
O figurino também chama a atenção. Foi criado pelo Fause Haten, e mesmo eu, que não sou exatamente alguém que acompanha a moda, percebo a diferença de qualidade entre o trabalho dele e o que estamos acostumados a ver por aí. Todos, absolutamente todos os figurinos de muito bom gosto, claro que são roupas de época, baseadas em algo que já vimos, mas a Marília Pêra estava com um figurino de saia estampada e colete listrado que ao mesmo tempo que instiga por quebrar uma ´regra´ de não misturar listras e estampas, era absolutamente harmonioso.
Enfim, saí absolutamente satisfeito com o espetáculo que assisti. Estava até esquecendo de dizer, mas a música é executada por uma pequena orquestra, localizada no fosso, e há também um grande coro de bailarinos, sendo um deles se destaca ( Fabio Yoshihara ) que além de ser de origem japonesa também é careca, o que também gera alguns momentos de piadas visuais.
Um comentário final: eu sempre colecionei os programas das peças que assisto, muito antes de começar a escrever esse blog. Isso ajuda a relembrar os momentos que assisti, e é claro que eu não conseguiria fazer esse texto sem recorrer ao programa. A única coisa chata é que dessa vez o programa, luxuoso, com impressão em papel de alta gramatura, a quatro cores, verniz... custou exagerados 20 reais, e ainda assim veio com propaganda. Mas tá valendo...
Alô Dolly
Com Miguel Falabella, Marília Pêra, Frederico Reuter, Alessandra Verney, Ricardo Pêra
Direção e versão brasileira: Miguel Falabella
Texto de Michael Stewart
Músicas e letras de Jerry Herman
Teatro Bradesco, até 07/jul/13
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segunda-feira, 20 de maio de 2013
Razões para ser bonita
´Razões para ser bonita´ também foi complicado para assistir, mas no fim deu tudo certo:
O erro cometido dessa vez foi que o ingresso havia sido adquirido em um desses sites de compra coletiva, mas para outra data... felizmente a moça da bilheteria foi muito simpática e disse que daria um jeitinho, como realmente deu. Então a viagem não foi perdida, o voucher foi revalidado, e tudo bem.
Antes de falar da peça propriamente dita, um desabafo: assistir espetáculos com atores de sucesso, da Globo, é um problema... é nítida a diferença de comportamento do público. Não que em outras peças não haja alguém inconveniente, que acha que pode ficar comentando como se estivesse em sua sala de estar, ou coisa assim. Mas nessas peças com ´globais´, a coisa é escancarada. Eu sentei numa das últimas fileiras do bloco central de poltronas, e ao meu lado estavam duas moças. A preocupação delas era postar no facebook e mostrar para os outros que estavam lá, além de ficarem conversando entre si. Na poltrona da minha frente, a mesma coisa, e era comum ver a luz azulada dos smartphones da platéia o tempo todo! Uma total falta de respeito com os espectadores, e principalmente com os atores em cena. Com as duas que estavam ao meu lado, não teve jeito, tive que pedir a elas que ficassem quietas. Não vou ficar fazendo considerações teóricas sobre o assunto, mas... é teatro! As pessoas estão ali, em carne e osso! Os atores, pelo menos, eu sei que estavam, mas boa parte do espectadores só estava ali como ´perfil público do facebook´. Tanto que depois do espetáculo vi gente tirando fotos ao lado dos ´atores´ em um daqueles displays recortados com fotos em tamanho real, afinal, pra essas pessoas a imagem é o que vale mesmo...
A peça está em cartaz no Teatro Shopping Frei Caneca, que obviamente, fica no centro comercial de mesmo nome. Então dá pra usar o estacionamento do próprio shopping, o que facilita muito o acesso pra quem vai de carro, desde que não seja em época de compras de natal, claro. O foyer do teatro ainda está sendo reformado, antes havia um espaço num piso inferior onde existia a bilheteria e a bomboniere, e depois a gente subia uma escada que dava acesso ao teatro propriamente dito. Agora esse espaço inferior não existe mais, vamos direto para o piso de acesso ao teatro. O problema é que não há mais escadas rolantes, o acesso é só pela escada de incêndio ou pelos elevadores, não há opção de chegar por escadas rolantes. Na saída, com todo mundo querendo ir embora ao mesmo tempo, a coisa complica bastante, e pelo jeito, essa é a situação definitiva. O que parece ser ainda temporário é o balcão da bilheteria, ainda não está pronto. Lá dentro o teatro continua o mesmo, não houve nenhuma modificação. É um teatro confortável, apenas o bloco de poltronas que existe nas laterais, ao fundo, é que não permite uma boa visão do palco. Em outras ocasiões já sentei ali, e a visualização é péssima, mas de resto, dá pra ver bem o palco em praticamente qualquer lugar. E as poltronas são confortáveis.
A peça é uma comédia, mas não daquelas escrachadas, é mais uma comédia de situação do que de piadas. A história se desenvolve a partir de uma fofoca: Carla ( Aline Fanju ) ouviu uma conversa onde Greg ( Gustavo Machado ), marido de sua amiga Steph ( Indrid Guimarães ) diz a Leo ( Marcelo Faria ), marido da Carla, que acha o rosto de Steph comum. Daí é claro que Carla foi correndo contar isso à amiga, que se sentindo desprezada pelo seu namorado, resolve terminar com ele. Mas isso a gente só vai descobrindo pela discussão entre os dois, naqueles joguinhos femininos onde a conversa é levada de tal maneira que o homem é sempre culpado, não interessa o que ele responda. Talvez seja a cena de abertura, onde Steph vai colocando Greg contra a parede, a melhor cena da peça, com os melhores diálogos. As falas de Steph vão se sucedendo numa armadilha da qual Greg não consegue se livrar, e cada resposta dele só vai piorando as coisas. A Ingrid Guimarães é a grande estrela da peça, sem dúvida, e capricha na entonação de todos os palavrões imagináveis, arrancando muitos risos da platéia.
Mas a partir daí o tema da peça já deixa de ser a questão da beleza, como parecia ser de início, e passa a ser mais uma comédia sobre os atritos entre homens e mulheres, baseada nos estereótipos mais banais: a dominação das mulheres sobre os homens a partir do sexo, a união entre os homens e a competição entre as mulheres, as diferentes visões de mundo entre os sexos... o exemplo perfeito dessa situação é o personagem do Marcelo Faria, o Leo: um homem casado que posa de 'macho alfa', mas que se submete aos caprichos da mulher. Esse personagem, Leo, é o mais rasteiro, em todos os sentidos: é um homem que só está preocupado com o próprio prazer, um predador sexual, que só vê a aparência. E como ele passa boa parte do tempo em cena, me parece que o texto ´se rebaixa´ para ficar no nível desse personagem. Como já disse, a peça deixa de ser uma reflexão sobre a importância que se dá à beleza física e passa a ser uma comédia sobre as incompreensões entre homens e mulheres.
Não que a encenação não tenha qualidades, acabei de criticar o personagem Leo, mas não vejo motivos para criticar o ator Marcelo Faria interpretando esse personagem. Não que seja algo complexo, complicado, mas a atuação dele é convincente, o problema não está na atuação, está no texto mesmo. A história então vai se desenrolando principalmente em torno da separação de Greg e Steph, mas também acompanhamos a relação entre Leo e Carla, e a amizade entre os homens. Mais pro final, teve uma cena que na minha opinião se destacou, que foi quando a personagem Carla, que está grávida de Leo e é segurança da empresa onde os dois personagens masculinos trabalham, abaixa a guarda e humildemente vai buscar apoio com Greg. Este, mesmo sabendo ser ela o vetor de sua separação a trata com extrema gentileza. Acho que foi a cena mais tocante da peça, um momento de delicadeza dentro da comédia.
Uma coisa de que gostei muito foram 4 placas de acrílico transparente, que sobem e descem na parte frontal do cenário. No início da peça os atores escrevem uma palavra em cada placa: sexo - por que? - comum - espelho, e aí elas são içadas, mas continuam à vista. Depois, mais pro final, elas voltam ao nível do palco, e pelo menos para mim foram outros os significados percebidos nas mesmas palavras.
Enfim, se não é nenhum espetáculo incrível, ´Razões para ser bonita´ ainda assim é um bom entretenimento. Não é uma comédia de se dar grandes gargalhadas, nem uma comédia que depois do espetáculo faz a gente parar para pensar. Mas as atuações são todas convincentes, com destaque para a Ingrid Guimarães e o Gustavo Machado.
Razões para ser Bonita
Com Ingrid Guimarães, Gustavo Machado, Aline Fanju e Marcelo Faria.
Direção de João Fonseca
Texto de Neil LaBute
Teatro Shopping Frei Caneca, até 14/jul/13
![]() |
| Essa é uma imagem da internet, não havia programas disponíveis... |
O erro cometido dessa vez foi que o ingresso havia sido adquirido em um desses sites de compra coletiva, mas para outra data... felizmente a moça da bilheteria foi muito simpática e disse que daria um jeitinho, como realmente deu. Então a viagem não foi perdida, o voucher foi revalidado, e tudo bem.
Antes de falar da peça propriamente dita, um desabafo: assistir espetáculos com atores de sucesso, da Globo, é um problema... é nítida a diferença de comportamento do público. Não que em outras peças não haja alguém inconveniente, que acha que pode ficar comentando como se estivesse em sua sala de estar, ou coisa assim. Mas nessas peças com ´globais´, a coisa é escancarada. Eu sentei numa das últimas fileiras do bloco central de poltronas, e ao meu lado estavam duas moças. A preocupação delas era postar no facebook e mostrar para os outros que estavam lá, além de ficarem conversando entre si. Na poltrona da minha frente, a mesma coisa, e era comum ver a luz azulada dos smartphones da platéia o tempo todo! Uma total falta de respeito com os espectadores, e principalmente com os atores em cena. Com as duas que estavam ao meu lado, não teve jeito, tive que pedir a elas que ficassem quietas. Não vou ficar fazendo considerações teóricas sobre o assunto, mas... é teatro! As pessoas estão ali, em carne e osso! Os atores, pelo menos, eu sei que estavam, mas boa parte do espectadores só estava ali como ´perfil público do facebook´. Tanto que depois do espetáculo vi gente tirando fotos ao lado dos ´atores´ em um daqueles displays recortados com fotos em tamanho real, afinal, pra essas pessoas a imagem é o que vale mesmo...
A peça está em cartaz no Teatro Shopping Frei Caneca, que obviamente, fica no centro comercial de mesmo nome. Então dá pra usar o estacionamento do próprio shopping, o que facilita muito o acesso pra quem vai de carro, desde que não seja em época de compras de natal, claro. O foyer do teatro ainda está sendo reformado, antes havia um espaço num piso inferior onde existia a bilheteria e a bomboniere, e depois a gente subia uma escada que dava acesso ao teatro propriamente dito. Agora esse espaço inferior não existe mais, vamos direto para o piso de acesso ao teatro. O problema é que não há mais escadas rolantes, o acesso é só pela escada de incêndio ou pelos elevadores, não há opção de chegar por escadas rolantes. Na saída, com todo mundo querendo ir embora ao mesmo tempo, a coisa complica bastante, e pelo jeito, essa é a situação definitiva. O que parece ser ainda temporário é o balcão da bilheteria, ainda não está pronto. Lá dentro o teatro continua o mesmo, não houve nenhuma modificação. É um teatro confortável, apenas o bloco de poltronas que existe nas laterais, ao fundo, é que não permite uma boa visão do palco. Em outras ocasiões já sentei ali, e a visualização é péssima, mas de resto, dá pra ver bem o palco em praticamente qualquer lugar. E as poltronas são confortáveis.
A peça é uma comédia, mas não daquelas escrachadas, é mais uma comédia de situação do que de piadas. A história se desenvolve a partir de uma fofoca: Carla ( Aline Fanju ) ouviu uma conversa onde Greg ( Gustavo Machado ), marido de sua amiga Steph ( Indrid Guimarães ) diz a Leo ( Marcelo Faria ), marido da Carla, que acha o rosto de Steph comum. Daí é claro que Carla foi correndo contar isso à amiga, que se sentindo desprezada pelo seu namorado, resolve terminar com ele. Mas isso a gente só vai descobrindo pela discussão entre os dois, naqueles joguinhos femininos onde a conversa é levada de tal maneira que o homem é sempre culpado, não interessa o que ele responda. Talvez seja a cena de abertura, onde Steph vai colocando Greg contra a parede, a melhor cena da peça, com os melhores diálogos. As falas de Steph vão se sucedendo numa armadilha da qual Greg não consegue se livrar, e cada resposta dele só vai piorando as coisas. A Ingrid Guimarães é a grande estrela da peça, sem dúvida, e capricha na entonação de todos os palavrões imagináveis, arrancando muitos risos da platéia.
Mas a partir daí o tema da peça já deixa de ser a questão da beleza, como parecia ser de início, e passa a ser mais uma comédia sobre os atritos entre homens e mulheres, baseada nos estereótipos mais banais: a dominação das mulheres sobre os homens a partir do sexo, a união entre os homens e a competição entre as mulheres, as diferentes visões de mundo entre os sexos... o exemplo perfeito dessa situação é o personagem do Marcelo Faria, o Leo: um homem casado que posa de 'macho alfa', mas que se submete aos caprichos da mulher. Esse personagem, Leo, é o mais rasteiro, em todos os sentidos: é um homem que só está preocupado com o próprio prazer, um predador sexual, que só vê a aparência. E como ele passa boa parte do tempo em cena, me parece que o texto ´se rebaixa´ para ficar no nível desse personagem. Como já disse, a peça deixa de ser uma reflexão sobre a importância que se dá à beleza física e passa a ser uma comédia sobre as incompreensões entre homens e mulheres.
Não que a encenação não tenha qualidades, acabei de criticar o personagem Leo, mas não vejo motivos para criticar o ator Marcelo Faria interpretando esse personagem. Não que seja algo complexo, complicado, mas a atuação dele é convincente, o problema não está na atuação, está no texto mesmo. A história então vai se desenrolando principalmente em torno da separação de Greg e Steph, mas também acompanhamos a relação entre Leo e Carla, e a amizade entre os homens. Mais pro final, teve uma cena que na minha opinião se destacou, que foi quando a personagem Carla, que está grávida de Leo e é segurança da empresa onde os dois personagens masculinos trabalham, abaixa a guarda e humildemente vai buscar apoio com Greg. Este, mesmo sabendo ser ela o vetor de sua separação a trata com extrema gentileza. Acho que foi a cena mais tocante da peça, um momento de delicadeza dentro da comédia.
Uma coisa de que gostei muito foram 4 placas de acrílico transparente, que sobem e descem na parte frontal do cenário. No início da peça os atores escrevem uma palavra em cada placa: sexo - por que? - comum - espelho, e aí elas são içadas, mas continuam à vista. Depois, mais pro final, elas voltam ao nível do palco, e pelo menos para mim foram outros os significados percebidos nas mesmas palavras.
Enfim, se não é nenhum espetáculo incrível, ´Razões para ser bonita´ ainda assim é um bom entretenimento. Não é uma comédia de se dar grandes gargalhadas, nem uma comédia que depois do espetáculo faz a gente parar para pensar. Mas as atuações são todas convincentes, com destaque para a Ingrid Guimarães e o Gustavo Machado.
Razões para ser Bonita
Com Ingrid Guimarães, Gustavo Machado, Aline Fanju e Marcelo Faria.
Direção de João Fonseca
Texto de Neil LaBute
Teatro Shopping Frei Caneca, até 14/jul/13
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Marcelo Faria,
Teatro Frei Caneca
sábado, 18 de maio de 2013
Esta Criança
´Esta Criança´ deu trabalho para assistir:
Não sei que ´tilt´ deu no meu cérebro, que eu fui para o teatro com a certeza de que o espetáculo era no Sesc Belenzinho. Fui direto do escritório, cheguei com bastante antecedência, aproveitei para ir até a ´Comedoria´ e fiquei enrolando por lá... comi tranquilo, calmo, e na hora de pagar, ouvi a atendente falando que ´Edukators´, estava esgotada... Aí é que me deu o estalo: ´Edukators´ sim estava em cartaz no Sesc Belenzinho, mas eu não consegui ingresso para essa peça, e nesse dia o que eu iria assistir era ´Essa Criança´, no Sesc Vila Mariana! Saí correndo, e como estava no contra-fluxo do trânsito da sexta-feira, consegui chegar a tempo. Bem em cima da hora, mas consegui...
´Esta Criança´ é um trabalho da Companhia Brasileira de Teatro, sediada em Curitiba. Eu já havia visto dois espetáculos deles, também nas unidades do Sesc: ´Vida´, em 2010, e ´Isso te Interessa?´ em 2012. Então, se estava voltando é porque gostei... Dessa vez a Companhia contava também com a participação da Renata Sorrah, super-conhecida da tv, e quem eu também vi em cena como ´Lady Macbeth´, em 2010. Ou seja, eu já sabia que iria encontrar atores de primeira linha.
E foi isso mesmo o que aconteceu. A peça é dividida em pequenas cenas, onde os personagens não tem nome, são apenas ´pai´, ´filho´, ´senhor´, e por aí vai. O cenário é só um tablado inclinado, na parte direita do palco, com duas paredes ao fundo e um teto com vazios por onde passa a luz, tudo no mesmo tom de azul claro ( depois, durante o desenrolar da peça, as paredes que formavam essa espécie de ´caixa´ se mostraram paredes móveis ). Sobre esse tablado existiam uma poltrona, duas cadeiras simples, uma mala... pouquíssimos elementos. Eu dei sorte por sentar mais à direita do bloco central da platéia, pois assim conseguia ver as cenas mais de perto, já que quase tudo acontecia dentro dessa ´caixa´. Mesmo quando os atores utilizaram o corredor da esquerda da platéia durante a peça, também consegui ter uma boa visualização.
A encenação não dá um destaque especial à Renata Sorrah, ela é mais uma atriz em cena. Talvez a atriz que participe do maior número das pequenas histórias que acontecem no palco, mas não tenho certeza disso agora... ou ela, ou o Ranieri Gonzalez. Em todo caso, há pelo menos três ou quatro cenas em que ela não participa. O esquema é sempre o mesmo, há um diálogo, uma cena que quando se resolve, um ou dois dos atores saem de cena, às vezes até pela platéia mesmo. E daí entra outro, pela lateral do palco, por exemplo, e quem se manteve no palco instantâneamente vira outro personagem, e começa uma nova ação. Em alguns momentos há também uma troca de figurinos, que acontecem no palco. Mas o que faz mesmo a mudança são os atores, não os figurinos.
Sinceramente, as atuações me impressionaram mais do que o texto, de um dramaturgo francês chamado Joël Pommerat. As situações propostas por ele se referem à perda, ao abandono, à falta de esperança... mas não achei nada de tão especial. Esses dramas são colocados em cena através de personagens como o aposentado por invalidez que quer retornar ao trabalho e é desprezado pelo filho adolescente, ou da jovem mãe que quer dar seu filho a um casal de vizinhos pois não se vê em condições de educar uma criança. Há também um certo humor mórbido na cena em que uma mãe tem que comparecer ao necrotério, junto com uma amiga, para reconhecer um corpo que pode ser de seu filho. Após muita hesitação, quando finalmente vê que não é seu filho que está ali, e por isso se sente extremamente feliz e aliviada, vê que é o filho da amiga quem está no necrotério.... Há também certos ´maneirismos´, digamos assim, da Companhia Brasileira de Teatro. Nessa peça, assim como nas duas outras que assisti do grupo, há momentos de ´karaokê´, em que os atores cantam músicas em inglês, com um microfone. Até hoje eu não fui capaz de compreender a razão disso, não me pareceu acrescentar nada à encenação. Mas como são sempre intervenções curtas, não chegam a atrapalhar. E dessa vez, ao contrário das outras duas, não houve nudez, o que parecia ser também uma característica das encenações do grupo, a julgar pelas duas peças anteriores.
Resumindo, não é uma peça ´fácil´, palatável, de uma história com começo, meio e fim. A encenação é fragmentada, são pequenas histórias que se desenvolvem autônomamente, sem ´plim-plim´ pra anunciar que um bloco terminou e vai começar outro. Os temas não são também os mais leves, mas quem for assistir vai sem dúvida ver um teatro de primeira, desses que dá gosto da gente ver os atores em cena.
Aliás, acho que o teatro do Sesc Vila Mariana é o melhor da rede Sesc, e sem dúvida um dos melhores de São Paulo, no que diz respeito ao conforto da platéia. As poltronas são ótimas, há um espaço razoável entre os corredores, e o teatro não é muito grande, mesmo quem senta mais ao fundo consegue ver bem. Em outras ocasiões eu já fiquei no mezzanino, aí a visão é um pouco prejudicada, mas na platéia, especialmente se conseguir um lugar no bloco central, é ótimo. O problema para quem chega de automóvel é só o estacionamento, se não chegar com muita antecedência não há como conseguir vaga no próprio Sesc, e pelo fato de haver um shopping popular ao lado, não é fácil estacionar na R. Pelotas. Dessa vez, mesmo o pequeno estacionamento particular em frente ao Sesc estava lotado.
Esta Criança
Com Renata Sorrah, Giovana Soar, Ranieri Gonzalez e Edson Rocha
Direção de Márcio Abreu
Texto de Joël Pommerat
Sesc Vila Mariana, até 09/jun/13
Não sei que ´tilt´ deu no meu cérebro, que eu fui para o teatro com a certeza de que o espetáculo era no Sesc Belenzinho. Fui direto do escritório, cheguei com bastante antecedência, aproveitei para ir até a ´Comedoria´ e fiquei enrolando por lá... comi tranquilo, calmo, e na hora de pagar, ouvi a atendente falando que ´Edukators´, estava esgotada... Aí é que me deu o estalo: ´Edukators´ sim estava em cartaz no Sesc Belenzinho, mas eu não consegui ingresso para essa peça, e nesse dia o que eu iria assistir era ´Essa Criança´, no Sesc Vila Mariana! Saí correndo, e como estava no contra-fluxo do trânsito da sexta-feira, consegui chegar a tempo. Bem em cima da hora, mas consegui...
´Esta Criança´ é um trabalho da Companhia Brasileira de Teatro, sediada em Curitiba. Eu já havia visto dois espetáculos deles, também nas unidades do Sesc: ´Vida´, em 2010, e ´Isso te Interessa?´ em 2012. Então, se estava voltando é porque gostei... Dessa vez a Companhia contava também com a participação da Renata Sorrah, super-conhecida da tv, e quem eu também vi em cena como ´Lady Macbeth´, em 2010. Ou seja, eu já sabia que iria encontrar atores de primeira linha.
E foi isso mesmo o que aconteceu. A peça é dividida em pequenas cenas, onde os personagens não tem nome, são apenas ´pai´, ´filho´, ´senhor´, e por aí vai. O cenário é só um tablado inclinado, na parte direita do palco, com duas paredes ao fundo e um teto com vazios por onde passa a luz, tudo no mesmo tom de azul claro ( depois, durante o desenrolar da peça, as paredes que formavam essa espécie de ´caixa´ se mostraram paredes móveis ). Sobre esse tablado existiam uma poltrona, duas cadeiras simples, uma mala... pouquíssimos elementos. Eu dei sorte por sentar mais à direita do bloco central da platéia, pois assim conseguia ver as cenas mais de perto, já que quase tudo acontecia dentro dessa ´caixa´. Mesmo quando os atores utilizaram o corredor da esquerda da platéia durante a peça, também consegui ter uma boa visualização.
A encenação não dá um destaque especial à Renata Sorrah, ela é mais uma atriz em cena. Talvez a atriz que participe do maior número das pequenas histórias que acontecem no palco, mas não tenho certeza disso agora... ou ela, ou o Ranieri Gonzalez. Em todo caso, há pelo menos três ou quatro cenas em que ela não participa. O esquema é sempre o mesmo, há um diálogo, uma cena que quando se resolve, um ou dois dos atores saem de cena, às vezes até pela platéia mesmo. E daí entra outro, pela lateral do palco, por exemplo, e quem se manteve no palco instantâneamente vira outro personagem, e começa uma nova ação. Em alguns momentos há também uma troca de figurinos, que acontecem no palco. Mas o que faz mesmo a mudança são os atores, não os figurinos.
Sinceramente, as atuações me impressionaram mais do que o texto, de um dramaturgo francês chamado Joël Pommerat. As situações propostas por ele se referem à perda, ao abandono, à falta de esperança... mas não achei nada de tão especial. Esses dramas são colocados em cena através de personagens como o aposentado por invalidez que quer retornar ao trabalho e é desprezado pelo filho adolescente, ou da jovem mãe que quer dar seu filho a um casal de vizinhos pois não se vê em condições de educar uma criança. Há também um certo humor mórbido na cena em que uma mãe tem que comparecer ao necrotério, junto com uma amiga, para reconhecer um corpo que pode ser de seu filho. Após muita hesitação, quando finalmente vê que não é seu filho que está ali, e por isso se sente extremamente feliz e aliviada, vê que é o filho da amiga quem está no necrotério.... Há também certos ´maneirismos´, digamos assim, da Companhia Brasileira de Teatro. Nessa peça, assim como nas duas outras que assisti do grupo, há momentos de ´karaokê´, em que os atores cantam músicas em inglês, com um microfone. Até hoje eu não fui capaz de compreender a razão disso, não me pareceu acrescentar nada à encenação. Mas como são sempre intervenções curtas, não chegam a atrapalhar. E dessa vez, ao contrário das outras duas, não houve nudez, o que parecia ser também uma característica das encenações do grupo, a julgar pelas duas peças anteriores.
Resumindo, não é uma peça ´fácil´, palatável, de uma história com começo, meio e fim. A encenação é fragmentada, são pequenas histórias que se desenvolvem autônomamente, sem ´plim-plim´ pra anunciar que um bloco terminou e vai começar outro. Os temas não são também os mais leves, mas quem for assistir vai sem dúvida ver um teatro de primeira, desses que dá gosto da gente ver os atores em cena.
Aliás, acho que o teatro do Sesc Vila Mariana é o melhor da rede Sesc, e sem dúvida um dos melhores de São Paulo, no que diz respeito ao conforto da platéia. As poltronas são ótimas, há um espaço razoável entre os corredores, e o teatro não é muito grande, mesmo quem senta mais ao fundo consegue ver bem. Em outras ocasiões eu já fiquei no mezzanino, aí a visão é um pouco prejudicada, mas na platéia, especialmente se conseguir um lugar no bloco central, é ótimo. O problema para quem chega de automóvel é só o estacionamento, se não chegar com muita antecedência não há como conseguir vaga no próprio Sesc, e pelo fato de haver um shopping popular ao lado, não é fácil estacionar na R. Pelotas. Dessa vez, mesmo o pequeno estacionamento particular em frente ao Sesc estava lotado.
Esta Criança
Com Renata Sorrah, Giovana Soar, Ranieri Gonzalez e Edson Rocha
Direção de Márcio Abreu
Texto de Joël Pommerat
Sesc Vila Mariana, até 09/jun/13
segunda-feira, 13 de maio de 2013
O Casamento
´O Casamento, o romance proibido de Nelson Rodrigues´
Eu nunca tinha ouvido falar nesse texto do Nelson Rodrigues, o que também não quer dizer muita coisa. Mas através do programa da peça descobri que é um romance de 1966, que foi proibido à época, e que agora foi adaptado para esse espetáculo teatral. Então, depois de já ter visto a peça, fico me perguntando: ´O casamento´ é uma obra menor do Nelson Rodrigues, ou a adaptação que foi mal-feita? Porque o resultado em cena foi lamentável... E não deve ter sido por falta de recursos. A peça contou com patrocínio da Petrobrás, o folder mostra um monte de apoios de divulgação e gastronômicos, há sete atores em cena, vários figurinos... ou seja, com certeza o investimento na produção foi alto.
A minha expectativa era boa para ver essa peça, aliás, eu não sairia de casa se estivesse achando que não gostaria. Acontece que ano passado foi o centenário do nascimento do Nelson Rodrigues, e pude aproveitar para assistir várias peças dele. Duas das melhores foram as apresentadas no Sesi da Av. Paulista: 'Boca de Ouro' e 'A Falecida'. É claro que isso não faz de mim nenhum especialista em Nelson Rodrigues, aliás, não sou especialista em nada. Mas imaginando que ´O Casamento´ pode ser um texto do mesmo nível desses outros dois, bem mais famosos, me resta a conclusão de que a encenação é que foi ´culpada´ pela minha falta de interesse no que se via em cena. Ou se por acaso o romance é mesmo uma obra menor do autor, então deveriam ter dado uma boa enxugada no texto...
Todos os elementos ´clássicos´ da obra do Nelson estão presentes: homossexualismo, hipocrisia, traição, incesto... Mas nada digno do choque que a obra dele causou a 50 anos atrás, e que continua causando. Fui testemunha disso, do impacto que ´Toda nudez será castigada´ ainda tem, quando vi essa peça também em 2012, no Sesc Consolação, numa montagem do Antunes Filho. Mas essa adaptação de ´O casamento´ não tem nem um décimo da força expressiva das outras que citei aqui. As outras foram encenações viscerais, fortes, verdadeiras. O que assisti ontem estava mais para uma farsa.
De início, até que é interessante. O cenário é quase vazio, com uma estrutura metálica que rebaixa o pé-direito de parte do palco. Dessa estrutura metálica pendiam cortinas pretas, semi-transparentes, formando duas superfícies verticais a 90° entre si, que delimitavam um espaço menor, no caso a sala do personagem principal, Sabino ( Renato Borghi ). Durante a encenação essas cortinas são recolhidas ou abaixadas diversas vezes, assim como outras, e com isso configuram os vários espaços. Disso eu gostei, achei uma boa sacada.
Essas cortinas também servem para ocultar parcialmente a nudez dos atores em várias cenas. Mas se alguém for ao teatro para ver a Diana Bouth nua ( uma ex-modelo, em seu primeiro trabalho como atriz ), ainda assim é perda de tempo, por causa das cortinas. Além do mais, pelo menos para o meu gosto ela tem as pernas muito finas...
Aliás, por falar em nudez, no início da peça a gravação que pede para que a platéia desligue os celulares diz que deseja a todos orgasmos múltiplos, e que vamos assistir a uma comédia erótica. Comédia não é, há raros momentos em que se pode esboçar um sorriso. Sobre o erotismo em cena, há sim muitas cenas de nudez, principalmente na parte final, mas há pouco de erotismo, de sensualidade. Novamente comparando com as outras encenações de textos do Nelson Rodrigues, em todas há uma carga de tensão sexual, de pulsão, de paixão. Em ´O Casamento´ não. Acho que a única exceção é quando o personagem Antônio Carlos ( Daniel Alvim ) deflora Glorinha ( Diana Bouth ). Então, assim como não dá para dizer que a peça é uma comédia, também não dá para chamar de erótica.
Enfim, não vejo razão para continuar a escrever sobre um espetáculo do qual absolutamente não gostei. O cenário é bem-bolado, os figurinos são meio esquisitos, com roupas que tentam ser referências modernas aos modelos de época, mas é claro que não é esse o problema, mesmo sendo muito estranho o figurino do personagem Dr. Camarinha ( Elcio Nogueira Sanchez ) - parecia uma morsa andando pelo palco, com um terno ´peludo´... A iluminação é correta, faz os destaques necessários e esconde parcialmente os momentos de nudez, os atores estão todos no mesmo registro, não destoam entre si, inclusive a ex-modelo estreante nos palcos. Mas o resultado final da peça é desagradável, parece que estamos vendo várias esquetes com os mesmos personagens, com encadeamento entre elas, claro, mas sem impacto, sem vida, sem graça. Acho que não havia mais de um quarto das poltronas ocupadas quando o espetáculo começou, e pelo menos cinco outras testemunhas não conseguiram ficar até o final e saíram antes. Fazia tempo que eu não via gente sair assim no meio da peça.
Sobre o Teatro, o Tuca é um dos espaços mais tradicionais de São Paulo, e as suas paredes em tijolo à vista são um testemunho do que já aconteceu por lá. O acesso é fácil, tanto de carro quanto de ônibus. Para quem vai de carro, nas noites de sexta-feira é difícil de estacionar, todas as vagas das ruas próximas ficam tomadas pelos alunos da PUC. Mas nas noites de sábado e domingo é tranquilo, eu só evito parar bem perto do teatro para não ser achacado pelos inevitáveis flanelinhas. Lá dentro a sala oferece um conforto razoável, mas desde que não se sente no fundo. O teatro é muito comprido, sentar lá atrás faz com que se veja o palco muito de longe. E nessa visita ao Tuca foram mais de duas horas de peça sem intervalo, mas acho que nem tenho como comentar muito sobre o conforto que o teatro oferece. O pior não era nem a poltrona um tanto dura, nem o espaço para as pernas. Quando a gente não gosta do que está vendo, é difícil ficar confortável seja onde for.
O Casamento
Com Renato Borghi, Daniel Alvim, Diana Bouth, Elcio Nogueira Seixas, Maurício de Barros, Regina França e Vera Bonilha
Direção de Johana Albuquerque
Adaptação de Johana Albuquerque, sobre obra de Nelson Rodrigues
Teatro Tuca, SP, até 04/jul/13
Eu nunca tinha ouvido falar nesse texto do Nelson Rodrigues, o que também não quer dizer muita coisa. Mas através do programa da peça descobri que é um romance de 1966, que foi proibido à época, e que agora foi adaptado para esse espetáculo teatral. Então, depois de já ter visto a peça, fico me perguntando: ´O casamento´ é uma obra menor do Nelson Rodrigues, ou a adaptação que foi mal-feita? Porque o resultado em cena foi lamentável... E não deve ter sido por falta de recursos. A peça contou com patrocínio da Petrobrás, o folder mostra um monte de apoios de divulgação e gastronômicos, há sete atores em cena, vários figurinos... ou seja, com certeza o investimento na produção foi alto.
A minha expectativa era boa para ver essa peça, aliás, eu não sairia de casa se estivesse achando que não gostaria. Acontece que ano passado foi o centenário do nascimento do Nelson Rodrigues, e pude aproveitar para assistir várias peças dele. Duas das melhores foram as apresentadas no Sesi da Av. Paulista: 'Boca de Ouro' e 'A Falecida'. É claro que isso não faz de mim nenhum especialista em Nelson Rodrigues, aliás, não sou especialista em nada. Mas imaginando que ´O Casamento´ pode ser um texto do mesmo nível desses outros dois, bem mais famosos, me resta a conclusão de que a encenação é que foi ´culpada´ pela minha falta de interesse no que se via em cena. Ou se por acaso o romance é mesmo uma obra menor do autor, então deveriam ter dado uma boa enxugada no texto...
Todos os elementos ´clássicos´ da obra do Nelson estão presentes: homossexualismo, hipocrisia, traição, incesto... Mas nada digno do choque que a obra dele causou a 50 anos atrás, e que continua causando. Fui testemunha disso, do impacto que ´Toda nudez será castigada´ ainda tem, quando vi essa peça também em 2012, no Sesc Consolação, numa montagem do Antunes Filho. Mas essa adaptação de ´O casamento´ não tem nem um décimo da força expressiva das outras que citei aqui. As outras foram encenações viscerais, fortes, verdadeiras. O que assisti ontem estava mais para uma farsa.
De início, até que é interessante. O cenário é quase vazio, com uma estrutura metálica que rebaixa o pé-direito de parte do palco. Dessa estrutura metálica pendiam cortinas pretas, semi-transparentes, formando duas superfícies verticais a 90° entre si, que delimitavam um espaço menor, no caso a sala do personagem principal, Sabino ( Renato Borghi ). Durante a encenação essas cortinas são recolhidas ou abaixadas diversas vezes, assim como outras, e com isso configuram os vários espaços. Disso eu gostei, achei uma boa sacada.
Essas cortinas também servem para ocultar parcialmente a nudez dos atores em várias cenas. Mas se alguém for ao teatro para ver a Diana Bouth nua ( uma ex-modelo, em seu primeiro trabalho como atriz ), ainda assim é perda de tempo, por causa das cortinas. Além do mais, pelo menos para o meu gosto ela tem as pernas muito finas...
Aliás, por falar em nudez, no início da peça a gravação que pede para que a platéia desligue os celulares diz que deseja a todos orgasmos múltiplos, e que vamos assistir a uma comédia erótica. Comédia não é, há raros momentos em que se pode esboçar um sorriso. Sobre o erotismo em cena, há sim muitas cenas de nudez, principalmente na parte final, mas há pouco de erotismo, de sensualidade. Novamente comparando com as outras encenações de textos do Nelson Rodrigues, em todas há uma carga de tensão sexual, de pulsão, de paixão. Em ´O Casamento´ não. Acho que a única exceção é quando o personagem Antônio Carlos ( Daniel Alvim ) deflora Glorinha ( Diana Bouth ). Então, assim como não dá para dizer que a peça é uma comédia, também não dá para chamar de erótica.
Enfim, não vejo razão para continuar a escrever sobre um espetáculo do qual absolutamente não gostei. O cenário é bem-bolado, os figurinos são meio esquisitos, com roupas que tentam ser referências modernas aos modelos de época, mas é claro que não é esse o problema, mesmo sendo muito estranho o figurino do personagem Dr. Camarinha ( Elcio Nogueira Sanchez ) - parecia uma morsa andando pelo palco, com um terno ´peludo´... A iluminação é correta, faz os destaques necessários e esconde parcialmente os momentos de nudez, os atores estão todos no mesmo registro, não destoam entre si, inclusive a ex-modelo estreante nos palcos. Mas o resultado final da peça é desagradável, parece que estamos vendo várias esquetes com os mesmos personagens, com encadeamento entre elas, claro, mas sem impacto, sem vida, sem graça. Acho que não havia mais de um quarto das poltronas ocupadas quando o espetáculo começou, e pelo menos cinco outras testemunhas não conseguiram ficar até o final e saíram antes. Fazia tempo que eu não via gente sair assim no meio da peça.
Sobre o Teatro, o Tuca é um dos espaços mais tradicionais de São Paulo, e as suas paredes em tijolo à vista são um testemunho do que já aconteceu por lá. O acesso é fácil, tanto de carro quanto de ônibus. Para quem vai de carro, nas noites de sexta-feira é difícil de estacionar, todas as vagas das ruas próximas ficam tomadas pelos alunos da PUC. Mas nas noites de sábado e domingo é tranquilo, eu só evito parar bem perto do teatro para não ser achacado pelos inevitáveis flanelinhas. Lá dentro a sala oferece um conforto razoável, mas desde que não se sente no fundo. O teatro é muito comprido, sentar lá atrás faz com que se veja o palco muito de longe. E nessa visita ao Tuca foram mais de duas horas de peça sem intervalo, mas acho que nem tenho como comentar muito sobre o conforto que o teatro oferece. O pior não era nem a poltrona um tanto dura, nem o espaço para as pernas. Quando a gente não gosta do que está vendo, é difícil ficar confortável seja onde for.
O Casamento
Com Renato Borghi, Daniel Alvim, Diana Bouth, Elcio Nogueira Seixas, Maurício de Barros, Regina França e Vera Bonilha
Direção de Johana Albuquerque
Adaptação de Johana Albuquerque, sobre obra de Nelson Rodrigues
Teatro Tuca, SP, até 04/jul/13
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